domingo, 6 de setembro de 2009

José Sampaio - Adeus Guiné - A Mulher Portuguesa

José Sampaio. Nome desconhecido do actual universo musical português tem hoje, contudo, mais uma oportunidade de sobressair das sombras e da poeira do esquecimento, através de uma entrada directa para o nosso bairro do vinil. No entanto, cremos que tal oportunidade não lhe irá trazer o sucesso pretendido, isto porque, conforme analisaremos, as temáticas das canções presentes neste disco há muito que não transparecem a realidade portuguesa.
Do pouco que conseguimos apurar, pela análise da capa e da contracapa do disco que nos chegou às mãos, só podemos concluir tratar-se de um cantor emigrado em França (a julgar pela editora francesa Serenata que distribuía os discos, muito provavelmente para a comunidade portuguesa aí radicada), que terá gravado pelo menos mais de 12 discos , para além deste E.P. que agora se comenta (com acompanhamento musical por Jorge Fontes e Os Alegrias)
O que nos chamou a atenção deste cantor , não foi propriamente a sua voz rude de cantor campestre, nem o enquadramento sonoro que reveste as canções, uma vez que estamos apenas perante mais um cantor, entre centenas de outros, do folclore português. O que nos chamou a atenção foi, bem pelo contrário, os títulos das duas faixas que abrem cada uma das faces do vinil: “Adeus Guiné” e “A Mulher Portuguesa”, títulos que à primeira vista nos podem levar a pensar estarmos, por um lado, perante uma canção de intervenção contra a guerra colonial e, por outro lado, uma canção de homenagem de homenagem à mulher lusitana.

Se é verdade que elaboramos este texto passados garantidamente mais de 30 anos sobre a gravação deste disco, não podemos deixar de reparar no contracenso, à luz dos dias de hoje, entre os títulos das canções e as respectivas letras. De facto, “Adeus Guiné” nada mais é do que um apelo à guerra, sob o pretexto de defesa daquilo que na altura era um território português. Aliás, os versos explícitos da sua autoria, tendo como pano de fundo efeitos sonoros de metralhadoras, são conclusivos : “Só esta pequena lembrança dos emigrantes de França, estamos prontos a lutar, amor cego e imortal é nosso dever a Guiné defender, será sempre Portugal”. Sem dúvida que, se atendermos ao facto, de nessa altura, serem mais do que recorrentes os cânticos anti-guerra e anti- regime, corporizados no chamado canto de intervenção, este disco só poderá ser visto como a metáfora do outro lado da barricada, ou seja, uma espécie de canto de anti-intervenção.
Da mesma forma, ao mesmo tempo que o cântico de apelo à libertação da condição social das mulheres se fazia sentir por toda a Europa e em especial em Portugal (entre outros, por José Barata Moura), José Sampaio através de “A mulher portuguesa”, apresenta-nos, mais do que a sua visão, a própria visão e concepção da condição da mulher durante o Estado Novo. Sem dúvida, que José Sampaio elogia a mulher portuguesa, não a tratando mal, bem pelo contrário, até admite que “se não fossem as mulheres, o homem não tinha razão”. No entanto, uma análise sociológica mais atenta da letra desta canção, leva-nos à conclusão de estarmos perante o contracenso do próprio elogio, uma vez que ao mesmo tempo que se destacam as qualidades de “boa companheira e mulher trabalhadeira”, simultaneamente, se está a dar enfâse, na mesma canção, ao papel dominante do homem, sempre triunfante fora do lar, ao contrário da mulher reduzida a à condição de dona de casa. Versos mais explícitos do que estes são impossíveis de encontrar nos tempos modernos : “Português emigrante, homem triunfante da mulher portuguesa, a sua mulher poupada fica sempre em casa e não sente tristeza”. Ora, quem é a mulher portuguesa que ao ouvir esta canção não se encherá de orgulho e emoção, por este tão rasgado elogio ?

Clique no Play para ouvir um excerto das duas canções

sábado, 22 de agosto de 2009

O Carlos dos Jornais


Iniciamos com uma alusão a uma figura peculiar de Lisboa, que durante algumas décadas marcou o quotidiano de todos aqueles que passavam pela esquina da Rua 1.º de Dezembro com a Calçada do Carmo: “Carlos dos Jornais”, (cujo nome completo desconhecemos), que conforme o nome indica, vendia jornais e revistas nessa esquina. Mais tarde, segundo conseguimos apurar, terá mesmo aberto um quiosque também em Lisboa, embora desconheçamos se o terá feito na mesma rua. Segundo informações que recolhemos nesta aldeia global, que é a Internet, Carlos dos Jornais, era um homem brincalhão, muito correcto e respeitador. Teria sido apenas mais um comum mortal, se se tivesse apenas limitado pura e simplesmente à venda de jornais e revistas. No entanto, a peculiaridade da sua figura consistia na sua facilidade em dialogar em verso como os seus clientes, através de quadras todas elas improvisadas na hora, muitas vezes até de forma de desgarrada com quem se atrevia a responder às suas quadras.
O que muitos não saberão, tal como nós não o sabíamos até há alguns meses atrás, é que Carlos dos Jornais, devido à sua popularidade a afabilidade, foi convidado para gravar um disco com algumas das suas quadras, certamente preparadas para o efeito. Como informação relativa aos créditos deste registo fonográfico, temos apenas o prefácio constante da contracapa do E.P., escrito pelo próprio “artista”, que, pela sua importância, aqui transcrevemos na íntegra:
Em primeiro lugar, uma pequenina introdução para a explicação da gravação deste disco. Riso & Ritmo convidou-me, eu acedi, e dentro da minha modesta maneira de ser, aqui vão algumas quadras a diversas pessoas, as quais têm o fim de não ferir, e até, gratamente em agradecer.
Se tiver êxito, outras pessoas serão focadas num próximo disco, mas sempre com a correcção que me é peculiar. Portanto, a todos os meus amigos um muito obrigado e vou começar. - Carlos dos Jornais”

Em termos de registo fonográfico, trata-se, sem dúvida de uma interessante recolha, não só da voz e quadras de Carlos dos Jornais, como também da própria ambiência de Lisboa à época da gravação desde disco, que podemos situar, com elevado grau de probabilidade, em 1970. Nele encontramos não só o som das guitarras portuguesas, como também o próprio registo dos transeuntes a comprar jornais ao intérprete do disco e de toda a azáfama matinal típica de uma grande cidade como Lisboa. Os temas abordados por Carlos dos Jornais retratam o Portugal da época, com claras alusões à promessa do fim das barracas em Lisboa, ao insucesso do treinador Meirim (do Belenenses) e, quase totalidade da face B do disco, uma homenagem aos nossos artistas, tais como Hermínia Silva, Tonicha e Raul Solnado. Aliás, em relação a este último Carlos dos Jornais, é peremptório ao invocar a tristeza geral do povo português pelo fim do afamado programa de entretenimento “Zip-Zip”, ao qual dedica a seguinte quadra: “...Ao Solnado, bom rapaz/Oiça bem a minha voz/ Não sabe a falta que faz/ O Zip para todos nós/ Mesmo depois da canseira/ era esta a discussão/ estamos na segunda-feira/ à Zip na televisão/ Era uma noite de arrasa/ dizia o povo, acho bem/ Estava tudo em casa/ Na rua quase ninguém.”
Desconhecemos se Carlos dos Jornais terá sido convidado a gravar mais algum disco. Uma coisa podemos, no entanto, conjecturar: terá Carlos dos Jornais vendido os seus próprios discos no seu quiosque? Provavelmente sim.

Oiça um pouco do disco, clicando no Play

domingo, 16 de agosto de 2009

No Bairro do Vinil

Com esta nova página na Internet, iniciamos hoje um projecto que (esperemos nós) não venha a ter os dias contados logo à partida. Apesar de o título deste blogue eventualmente poder parecer sugerir mais um espaço em que os seus autores se limitarão a colocar reproduções de capas de discos de vinil sem nada de consequente, a verdade é que pretendemos algo de diferente. Primeiro: apelaremos à nossa assumida ignorância ao nos atrevermos a querer dissertar sobre artistas que são hoje totalmente desconhecidos pela grande maioria dos portugueses e que, nem nós próprios conhecemos e sobre os quais não existe muita informação. Em segundo lugar, para que um disco possa ter honras de ser objecto de comentário neste blog, terá que obedecer a três requisitos: versar sobre música portuguesa; ter sido comprado por preço inferior a 3 € ou então oferecido; e, de preferência, tratar-se de um disco que ninguém quer, ou melhor, que ninguém quis, pois geralmente serão discos adquiridos em feiras de velharias (muitos deles completamente desprezados) os que privilegiaremos no nosso blogue. Em terceiro, e para finalizar as nossas intenções, pretendemos, sempre que for possível, dar a conhecer aos nossos leitores, discos que, de alguma maneira, retratem o nosso antigo quotidiano, apelando aos hábitos e costumes que se foram perdendo mas cujas memórias ainda resistem nestes velhos vinis que, aos poucos, vamos salvando do esquecimento.
Por se tratar de um salto no escuro, queremos também convidar todos aqueles que de alguma maneira queiram contribuir para o não esquecimento destes artistas, que nos enviem as suas correcções e, sobretudo, informações que disponham ou que entretanto obtenham sobre esses artistas, uma vez que este blogue será aberto a todos aqueles que queiram participar. Todos os comentários dos nossos leitores que contenham informação por nós desconhecida, serão automaticamente adicionados à mensagem referente aquele disco ou artista. Desta forma, assumimos um difícil desafio de construir aos poucos uma memória viva daqueles que, de uma ou outra forma, já não podem expressar a sua voz, pelo facto de as suas canções terem desaparecido das luzes da ribalta.