RODA RPE 1374
A) O Abril de 1974/ Briga de amor
B) Jamais te posso esquecer/ Tenho saudades
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Ao contrário de Manuel Alves, José Fernandes não seria analfabeto, pois ele próprio guardou durante anos os escritos que mais tarde serviriam de base à gravação dos 12 temas que constituiem o L.P. que hoje apresentamos. Efectivamente, o disco é preenchido com canções escritas entre 1934 e 1983, tematicamente nada surpreendentes face ao cognome que partilhava com Manuel Alves. Na verdade, as letras estão na sua grande maioria relacionadas com a Natureza, fazendo uma apologia ao orgulho da terra e das colheitas e à peculiar sabedoria que muitas vezes só as gentes do campo possuem devido precisamente a essa forte ligação entre a terra e a Mãe Natureza. Versos como "A minha casinha tem/ Uma vista confortável/ Dela tudo vejo bem/ Respirando um ar saudável" ou "Do campo é que vem/ o pão que todos comemos/ Do pão é que vem/ O vinho que nós bebemos/ E mesmo p'ra quem/ só p'la cidade suspira/ No campo é que tem/ ar puro que se respira", ilustram bem a realidade que José Fernandes quis realçar, quando aos 63 anos, gravou este disco. Gravado quase 100 anos depois de o outro Poeta Cavador ter cantado os seus fados em Coimbra, José Fernandes recorreu a um estilo musical bem diferente para dar forma aos seus versos, num registo bem mais popular, alegre, em clara homenagem à sua terra e às suas raízes, escondendo palavras de esperança e de exaltação aos trabalhadores do campo, segundo ele muitas vezes injustamente considerados rudes e mal-educados. Provavelmente terá sido este o único disco de José Fernandes, de edição de Autor, com sucesso diminuto em Portugal mas com largo reconhecimento na aldeia do Mucifal, onde o seu nome já é nome de Rua. Da nossa parte, deixamos aos ouvintes um excerto do disco deste Poeta Cavador, aliás, Poeta Cantador.
Sobre esse duo pouco conhecemos, para além do facto de serem ambos cantores açorianos com raízes discográficas que já remontam, pelo menos, ao ano de 1955, quando os dois pertenciam ao grupo Artistas Unidos. Henrique Cordeiro tem diversos registos musicais gravados, quase todos editados nos Estados Unidos, o mesmo sucedendo com Ariovalda Maria. Relativamente ao disco que apresentamos hoje aos nossos ouvintes, segundo informações de um dos membros da formação da altura do denominado Conjunto Ibérico, o mesmo foi gravado em princípios de 1968, numa única sessão de gravação, num dia em que chovia torrencialmente (facto que acrescenta a titulo de curiosidade). Já nessa altura o Conjunto Ibérico sofrera alterações na sua formação, sendo que dois dos seus membros originais se tinham afastado e formado um outro conjunto. Desta forma, conforme nos esclarece, João Cardadeiro, os membros que participaram na gravação deste disco foram: Belmiro Silva, saxofone e director do conjunto, João Cardadeiro* na guitarra electrica, Francisco Rosa na viola-baixo e Manuel Ildeberto "Burt" Gonçalves na bateria.
Os dois músicos que se ausentaram do grupo antes da gravação deste E.P. foram foram Aniceto Batista (entretanto falecido) e José Elmiro Nunes, agora radicado em Lisboa, tendo este último originalmente acompanhando Carlos do Carmo, sendo ainda hoje em dia acompanhante de muitos outros fadistas da nova vaga, entre os quais Ana Moura.
Para além da falta de informação constante no disco, que nos encarregámos de desvendar, há ainda que registar como ponto de interesse, o recurso a um saxofone neste tipo de formação musical como instrumento solista no tema Júlia Florista, com naturais influências americanas. Do mesmo, tal como também no tema Olhos Negros, há ainda o recurso a uma guitarra eléctrica, que se destaca, mais uma vez em completo arrepio com a instrumentalização base dos conjuntos típicos portugueses.
* A quem agradecemos, não só a oferta do disco, como também todas informações relativas à gravação destes temas.
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Quando, há mais de sete décadas, a dupla Raúl Ferrão e José Galhardo escreveu a canção “Coimbra”, certamente jamais imaginaria que a mesma se iria tornar numa das mais conhecidas canções portuguesas em todo o mundo (senão a mais conhecida), tendo sido tal canção a fonte de ínumeras versões, principalmente instrumentais. Sob o título de “Coimbra”, “April in Portugal” ou “Avril au Portugal”, foram dezenas os artistas que, de uma forma ou outra, incluíram uma versão desta canção num disco seu. Entre as dezenas de exemplos possíveis, temos desde logo Louis Armstrong que popularizou a canção à escala mundial, com o título de "April in Portugal" (e nova letra) passando por Bing Crosby e mais recentemente por Caetano Veloso, sem esquecer Amália Rodrigues, também ela cantora internacionalmente conhecida.Clique no Play para ouvir um excerto de "Coimbra"
Enquanto hoje se celebra com alguma euforia (e exagerada cobertura mediática) a vinda do Papa Bento XVI ao Santuário de Fátima, cabe-nos recuar 43 anos no tempo e ir de encontro ao que por cá se passava em Fátima precisamente neste dia. A 13 de Maio de 1967, decorria em Fátima as comemorações do Cinquentenário das Aparições. 
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Alvorada N-S-97-82
Danielis Ricardus será provavelmente nome artístico que Daniel Ricardo (ou Ricardo Daniel) escolheu para se apresentar em disco. Sobre o artista nada sabemos, reconhecendo-lhe no entanto a ousadia, própria de um jovem, de ter criado a sua etiqueta discográfica com a indicação expressa no disco “Para lançar o meu som criei a minha editora”. Aliás, não é só através da criação da sua editora, que este artista manifesta o total domínio pela produção e idealização deste disco. A ele pertencem também as músicas e os poemas, sendo também Ricardus que toca órgão electrónico, sintetizador e programação, para além de se ter encarregado dos arranjos, direcção musical... e até da própria capa.
Com a particularidade de cantar num inglês muito peculiar, sem rimas, Danielis Ricardus é para nós um mistério que gostaríamos de desvendar, sendo também dele a interessante arte gráfica idealizada para a capa do disco, curiosamente com uma estética totalmente ao arrepio das capas de rock progressivo da época (estilo de música marcadamente reflectido no disco).
Ao termos assumido como ponto de partida a nossa manifesta ignorância perante o nome e percurso de diversos artistas portugueses e ao nos termos autoproposto a escrever sobre eles, tínhamos consciência de que poderíamos correr sérios riscos de escrever sobre artistas cujo nome ou percurso musical nos era obrigatório conhecer. Contudo, existem nomes, que por mais pesquisas que se façam, sobre eles não conseguimos encontrar qualquer informação, a não ser que nos desloquemos aos jornais de âmbito local ou a Arquivos Municipais de diversas regiões do pais, o que para já não é a nossa intenção. Conforme já referimos, preferimos convidar os leitores a colaborar nos nossos textos, de modo a torná-los o menos incompletos possíveis.
Para além dos diversos cargos políticos de destaque que o deputado do Partido Socialista José Lello ocupou no passado recente, que lhe deram alguma notoriedade pública, o seu nome esteve também associado nos últimos dias a uma polémica ocorrida no palco de muitos confrontos: A Assembleia da República. Falamos, naturalmente, do ataque de nervos que José Lello teve quando um jornalista focou a sua objectiva para o monitor do seu computador de trabalho, facto que levou o deputado a queixar-se, visivelmente furioso, de tal violação de privacidade, segundo o seu entendimento. A cena assumiu contornos naturais de Youtube, não tivesse José Lello fechado a tampa do monitor com tamanha força no final da sua intervenção, atitude que levou o presidente da Assembleia da Républica, Jaime Gama, a chamar a atenção do deputado, advertindo-o de que o seu computador não era de uso particular mas sim da Assembleia da República. A menos que o ilustre deputado estivesse a consultar sites duvidosos ou a trocar e-mails de conteúdo obsceno com outros ilustres deputados, a reacção de José Lello, por ser manifestamente despropositada acabou por relançar (nem que seja apenas por uma ou duas mediáticas semanas) o seu nome para as luzes da ribalta e para o mundo do espectáculo, tal como o fizera há já muitos anos atrás.
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Não somos do tempo de Isilda Maria e confessamos que dela nunca tínhamos ouvido falar até adquirirmos aquele que é provavelmente o seu único disco, editado a título póstumo, como forma de homenagem dos seus familiares após a sua prematura morte. As escassas informações que recolhemos sobre Isilda Maria constam todas na contracapa do disco pelo que, na ausência de mais informações, transcrevemos na íntegra o texto de homenagem de Manuel Moreno escreveu sobre a artista: 
O disco que apresentamos hoje é, acima de tudo, uma peça de grande valor filatélico. Parece estranho, não é? Vamos esclarecer: a filatelia, numa definição muito abreviada, traduz-se no passatempo de colecionar selos e todos os seus derivados, nomeadamente carimbos (carimbologia) cartas antigas (pré-filatelia), postais, entre outras coisas intimamente ligadas à circulação de correspondência as quais, com o decorrer dos tempos, se transformaram em coleccionismo. No entanto, não iremos entrar muito por esse campo (no qual somos também entendidos), cabendo-nos apenas partilhar consigo um interessante lote adquirido num leilão filatélico, que tem a dupla particularidade de ser simultaneamente um objecto de colecção para os filatelistas (em particular aqueles que coleccionam inteiros postais) e para os amantes do vinil. Falamos de um POSTALDISCO, que conforme a aglutinação de palavras assim o indica, tem a particularidade de ser simultaneamente um postal e um disco.

Socorrendo-se de arranjos musicais simples e directos, na mesma linha dos heróis retratados nesta canção, Zé Duarte, músico açoreano nascido na ilha do Pico e emigrado nos E.U.A. desde 1984, deixa a seu cargo não só a letra e música, como também a orquestração. Da análise do disco, conjugado com o facto de nem na capa nem na contracapa do mesmo termos qualquer referência à editora e ano de edição, julgamos tratar-se de uma edição de autor de tiragem bastante limitada. Apesar do aparente desconhecimento da figura de Zé Duarte, uma pequena biografia sua é apresentada pelo próprio na sua página oficial na internet http://www.zeduarte.com/


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Num dos nossos primeiros comentários, aflorámos já um lado menos conhecido do sobejamente conhecido Paco Bandeira, realçando a sua versatilidade inesperada ao mesmo que a confrontava-mos com constância do mesmo género musical (musica ligeira) que optou durante grande parte da sua carreira. Hoje, apresentamos aos nossos leitores um disco de todo inesperado e totalmente desconhecido da grande maioria dos portugueses e até dos fans do artista em particular. Trata-se de um dos mais antigos discos de Paco Bandeira (senão o primeiro?), gravado para a etiqueta Rapsódia, e cujo ano, a julgar pela referência deste E.P., se situará com elevado grau de probabilidade em 1967, ou seja há 43 anos atrás.
Despido de arranjos orquestrais que sempre o acompanharam nas suas gravações, Paco Bandeira neste disco, recorre ao que mais de genuíno há num cantor: a sua voz, apenas acompanhada, como já se referiu, pela sua viola, razão pela qual o disco se chama precisamente “Paco Bandeira e a sua viola”.Clique no Play para ouvir um excerto do disco
"Paco Bandeira e sua Viola"
Lado A1- Canção ao Porto (Paco Bandeira)
Lado A2- Sonho Curioso (Paco Bandeira)
Lado B1- O Emigrante (Paco Bandeira)
Lado B2- Dália (Paco Bandeira)
Rapsódia EPF 5.339
Hoje retiramos do baú do esquecimento a figura de Germano Rocha, mais um ilustre emigrado, perfeito desconhecido nos tempos de hoje. De seu nome completo Germano Pereira da Rocha, nasceu na terra do folclore, em Santa Marta do Portuzelo, em 1937, tendo sido naquela colectividade que cantou pela primeira vez com a tenra idade de 8 anos. Antes de começar a cantar profissionalmente, encontrava-se empregado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa. Foi nessa cidade que teve contacto pela primeira vez com o fado, tendo sido enquanto cumpria o serviço militar, em 1958, que cantou no Restaurante Típico Luso e conseguido a sua carteira profissional, facto que lhe permitiu adquirir um passaporte e partir para França. Aliás, foi nesse país que Germano Rocha, passou a ser verdadeiramente um músico profissional, quando, em Paris é descoberto por um célebre musicógrafo francês, Jean Witold, que lhe abriu as portas para gravar, em pouco tempo uma série de discos em formato Long Play, em língua portuguesa para a Polydor e para a Barcllay, com fados e baladas portuguesas, nomeadamente fados de Coimbra. Depois dos discos seguiram-se as actuações, tanto em televisões como espectáculos, tendo corrido o mundo, até se radicar, de forma aparentemente definitiva no Canadá, onde hoje é membro da «Guilde des Musiciens du Québec», da Sociedade dos Autores Compositores do Canadá e membro Honorífico da Confraria dos Enologistas do Québec.![]() |
| Germano Rocha, em 1965. |
Em 1955 David Bartholomew and Pearl King escreveram a canção “I hear you knocking”, gravada pela primeira vez por Smiley Lewis, que de imediato a transformou num enorme êxito, tendo chegado a número #2 das tabelas de Rhythm and Blues, logo no ano da sua gravação. Tal canção foi posteriormente versionada por dezenas de artistas americanos, em vários estilos e ritmos, sendo talvez a sua versão mais conhecida a de Dave Edmunds de 1970. Contudo, também em Portugal, um cantor de nome António Rios, cantou essa canção na versão de Carlos Portugal, cuja letra foi radicalmente transformada para o título de “O mar é largo”.
De destacar nesta canção é ainda o sentido poético e irónico que Carlos Portugal (outro nome cuja música urge descobrir futuramente) introduz nesta versão de “I hear you knocking”, de modo que esta letra pode ser interpretada, por um lado, de uma forma mais contestatária e por outro lado como um belo poema sobre as possibilidades e a beleza que o mar nos oferece.
