terça-feira, 31 de julho de 2012

Maria Helena - Uma artista renascida


Confessamos que o texto sobre a artista que hoje trazemos à memória não estava, pelo menos para já, dentro das nossas cogitações imediatas. No entanto, um episódio que tem tanto de insólito como de lamentável, apressou-nos a escrever com urgência um texto sobre a artista brasileira Maria Helena, que durante alguns anos fez sucesso em Portugal, país que, aliás, sempre a tratou como se de uma verdadeira portuguesa se tratasse.
Conforme já referimos, Maria Helena era brasileira. Nasceu nos anos 40 , no estado de S. Paulo, no seio de uma família de alta aristocracia brasileira. Seus pais, empresários de profissão, incentivaram-na a tirar um curso de letras no Brasil. No entanto e contra a vontade da família, Maria Helena sempre quis ingressar no mundo do espectáculo, ansiando ser cançonetista, embora nunca tivesse tido aulas de canto para o efeito, tendo apenas tirado um curso de piano. Como que renunciasse a toda a vida abastada que os seus pais lhe poderiam oferecer, Maria Helena, já nos meandros da vida artística e integrada num conjunto local brasileiro (cujo nome não conseguimos apurar mas que tinha como elemento o pianista Robledo, que tocou com Agostinho dos Santos), teve a oportunidade de um dia vir a Lisboa em inícios dos anos 60 com o seu conjunto a fim de cumprir um contrato num cabaret lisboeta. Terá sido, portanto, nessa altura que Maria Helena veio a Portugal pela primeira vez, sempre contra a vontade da sua família. Uma outra versão sobre a primeira estadia de Maria Helena em Portugal existe ainda, que é a que temos lido em algumas revistas da época, referindo que Maria Helena terá vindo a Portugal como simples turista e que por cá ficou, após terem descoberto a sua voz por mero acaso. No entanto, parece-nos, pela análise da (escassa) "documentação" que temos sobre esta artista, que esta segunda versão não passará de um resumo romanciado e fantasiado sobre vinda de Maria Helena a Portugal pela primeira vez. De facto, o que podemos assegurar é que a sua vinda a Portugal, coincidiu o convite daquele conjunto brasileiro, que a descobrira poucos dias antes no Brasil e que poucos dias depois a convidara para seguir em digressão com eles para a Europa e nomeadamente para Portugal.

Capa do disco de Maria Helena

Segundo rezam as crónicas, a especial relação de Maria Helena com Portugal (e com Lisboa em particular) iniciou-se aquando dessa visita, altura em que ficou encantada com o nosso país, por aqui tendo ficado depois dessa actuação, dado o reconhecimento que a sua voz teve em diversos pontos do país e junto dos promotores e agentes artísticos portugueses. Na verdade, semanas depois estreava-se em Lisboa, no Maxime e pouco tempo depois surgiram convites para actuar em Barcelona, em Madrid e na Televisão Espanhola.
A carreira artística de Maria Helena em Portugal corria a um ritmo desenfreado, tendo sido transformada pelos portugueses numa verdadeira vedeta. Fez teatro, revistas e participou no filme "Pão, amor e totobola", tendo aliás gravado canções para esse filme, juntamente com Zeca do Rock. Em Maio de 1963, cedendo à vontade dos pais, parte para o Brasil, abandonando o teatro de revista, regressando com eles ao Brasil. No entanto, como o sangue que lhe corria nas veias era o da vida artística, voltaria meses mais tarde, para actuar temporariamente no Casino Estoril, para depois seguir imediatamente para Espanha. Em Janeiro de 1965, encontrava-se em Moçambique, actuando na boîte "A Cave", altura em que regressou a Portugal para gravar um disco, antes de seguir para a Venezuela, tendo percorrido ainda toda a então África Portuguesa e a então União Sul Africana em pouco mais de dois anos. Durante parte do ano de 1966, já regressada a Portugal, actuou no Teatro Maria Vitória, marcando o início da sua afirmação como vedeta do teatro de Lisboa.
Pese embora Maria Helena viesse a ser mais reconhecida em Portugal pela sua interpretação em teatro de revistas, cremos que o seu momento alto aconteceu quando, participou, representando Portugal, em Aranda do Douro, no Festival Hispano-Portugues da canção do Douro, de 1960. Aliás, foi mesmo ela que criou a canção "Meu rio Douro" (Canção tema do Festival desde a sua 1.ª edição), tendo ficado em primeiro lugar, facto que nunca acontecera antes com qualquer representante português.
E sobre a vida de Maria Helena, pouco mais sabemos. No entanto, quando por mero acaso desfolhávamos uma revista Plateia de finais de 1968, reparámos na triste notícia então relatada acerca do seu prematuro falecimento num Hospital de Madrid, após 7 meses de internamento numa dura batalha contra um cancro. A referida notícia, cujo recorte acima aqui deixamos, vinha acompanhada da respectiva foto de Maria Helena, não deixando margem para dúvidas: Maria Helena, segundo a revista Plateia, falecera (tal como a malograda Marina Neves) no auge da sua carreira, muito nova, vítima de uma grave enfermidade.
Notícia do falecimento de Maria Helena, em 1968

Contudo, para nosso espanto, e após consultarmos um interessante blogue palcoum.blogpsot.com, lemos uma mensagem na qual o responsável pelo blogue perguntava à comunidade de leitores sobre o que seria feito de Maria Helena, referindo, porém, que a última notícia de que dispunha sobre Maria Helena prendia-se com uma visita a Portugal entre finais dos anos 70 e inícios de 80 em Sintra, na quinta do empresário teatral Sérgio de Azevedo. Ora, como dispúnhamos da informação de que Maria Helena, infelizmente, havia já falecido vítima de cancro, prontamente demos conta do seu falecimento. Todavia, imediatamente a seguir, o responsável pelo mesmo blogue, publicou nova mensagem, colocando uma fotografia de Maria Helena em Portugal alusiva à sua última estadia em Portugal, em Sintra, desfazendo o grande equívoco da revista Plateia que noticiara uma década antes a sua morte.
Maria Helena em Portugal, nos anos 70 (cortesia palcoumblogspot.com)

Da nossa parte, e após análise da fotografia "postada" naquele blogue, não temos dúvidas em afirmar que se trata efectivamente da mesma Maria Helena e que, felizmente, a mesma não falecera uma década antes, vítima de cancro. Aliás, gostaríamos de esclarecer os nossos leitores que a nossa tarefa de recolha de informação sobre estes artistas privilegia a mais rigorosa informação possível, sendo certo que, devido à nossa idade, a única informação de que nos munimos é a da imprensa da época, ou então dos próprios artistas quando com eles mantemos alguma espécie de contacto. Sendo assim, jamais nos poderemos responsabilizar pela informação que retiramos das revistas que lemos se tal informação estiver completamente errada. De facto, já por diversas vezes Eunice Muñoz foi dada como morta pela nossa imprensa e bem recentemente Camilo de Oliveira (ou até o famoso Bon Jovi !) , sendo que todos eles se encontram bem e com saúde. Lamentamos profundamente que a imprensa não seja muito rigorosa e não se acautele devidamente na hora de lançar tão tristes e sérias notícias.
Cumpre-nos hoje tentar desvendar e esclarecer esse insólito equívoco sobre a vida de Maria Helena. No entanto, gostaríamos também de saber sobre o paradeiro actual de Maria Helena e sobre o seu percurso desde os anos 70 até à presente data, do qual quase nenhuma informação conhecemos.
Retribuindo, dedicamos também esta mensagem ao responsável pela manutenção do blogue "palcoum" (e de outros tantos mais) e que muito tem feito para preservar a memória dos nossos maiores artistas, nomeadamente na área do teatro e do espectáculo em geral.
Deixamos para os nossos leitores, dois temas cantados por Maria Helena, acompanhada pela orquestra de Ferrer Trindade, com destaque para "Com sete letras se escreve saudade" numa interpretação sentida, na qual Maria Helena encarna com perfeição esse sentimento único português, que se chama saudade.


Clique no Play para ouvir um excerto das canções
Maria Helena 
Alvorada AEP60467 
A1 - Fantasma do amor (Ferrer Trindade / José Correia) 
A2 - Com sete letras se escreve saudade (Ferrer Trindade / Anibal da Nazaré) 
B1 - Ninguém é de ninguém (Umberto Silva-Toso Gomes / Luis Mergulhão)
B2 - Custou dizer adeus (Costa Pinto / José Correia) 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Fernando Lito - Tiqui-Toc


Dedicamos o espaço de hoje a Fernando Lito Inácio de Sousa Magalhães, filho de uma cigana e de um mulato português, mais conhecido no mundo artístico pelo nome abreviado de Fernando Lito, cançonetista que surgiu no panorama artístico nacional em 1966. Antes, com 16 anos apenas e tal como muitos outros jovens aspirantes a artistas desse tempo, tentou frequentar o famoso Centro de Preparação de Artistas de Rádio (de onde saíram grandes cançonetistas portugueses dos anos 60, como Simone de Oliveira, Tonicha, António Calvário ou Madalena Iglésias, entre muitos outros). No entanto, era desejo dos professores do C.P.A.R. que o jovem Fernando Lito cantasse Jazz e canções anglo-americanas, as quais não o seduziam particularmente, facto que o levou a desistir da ideia de ingressar nos quadros da Emissora Nacional.
Como não se recusasse a desistir do seu sonho, Fernando Lito concorreu ainda no popular concurso "Do Céu caiu uma Estrela", promovido pela Agência Portuguesa de Revistas. Contudo, as suas aspirações esbarraram na obrigatoriedade de cumprimento do serviço militar, facto que o impediu de ir à final, para a qual, aliás, fora apurado. Não obstante tal contrariedade, ainda fez vários espectáculos na província e em Lisboa antes de partir para o Ultramar, nomeadamente no Coliseu dos Recreios, tendo tido também a sua estreia na RTP no programa "Parada Musical" realizado por Fernando Frazão e com locução de Carlos Cruz.
Na Guiné, onde cumpriu serviço militar, cantou principalmente para os membros das Forças Armadas Portuguesas que alí se encontravam em missão. Num desses espectáculos, em Jabadá, Fernando Lito cantou num palco improvisado ao ar livre em que os assistentes eram militares de metralhadoras na mão, prevenidos contra qualquer ataque da resistência rebelde.
Fernando Lito na Guiné Portuguesa
circa 1967
Uma vez cumprido o serviço militar e de regresso a Lisboa, foi contratado para espectáculos de televisão na América do Norte bem como para diversos espectáculos em Espanha e Norte de África. Concorreu a vários festivais, incluindo o famoso de Aranda do Douro, onde obteve o segundo lugar e em 1978 foi-lhe atribuído o prémio de interpretação no Festival da Canção Tâmega, do qual resultaria a edição de um disco.
A actividade de Fernando Lito não se centrou apenas na música, tendo sido também actor de revista. Segundo apurámos, teve uma grande actividade artística até 1978, altura em que tinha como projectos montar o seu próprio show, em parceria com José Guimarães e abrir um casa comercial de agenciamento de espectáculos, incluindo obviamente o seu próprio espectáculo.
Ao que sabemos, Fernando Lito voltou a editar, pelo menos, mais um disco posteriormente a esta altura já em 1990, mas sobre o qual poucas informações dispomos.
O disco que apresentamos hoje aos leitores coincide com o primeiro disco de Fernando Lito gravado para a editora nortenha Rapsódia, em regime de exclusividade, cujos arranjos de Rocha Oliveira particularmente apreciamos. Não conseguimos chegar à fala com Fernando Lito, apesar dos contactos telefónicos que conseguimos obter. Resta-nos, como sempre, a ajuda dos nossos leitores em descortinar o paradeiro deste intérprete que hoje recuperamos do baú do esquecimento.


Clique no Play para ouvir um excerto das canções

Fernando Lito
Rapsódia EPF 5.574
Lado A1 - Moira, morena, romã (José Vicente-Fernando Lito)
Lado A2 - Tiqui-Toc (José Lezaun/Fausto Turell-Fernando Lito)
Lado B1 - Deus te guarde (Francisco Ataíde)
Lado B2 - Quero um novo dia (Fernando Lito-Rocha de Oliveira)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Os Camaradas - Quem trabalha é que deve mandar

Quando há poucas semanas atrás publicámos no Bairro do Vinil um texto sobre o músico Tino Flores, tínhamos já em mente colocar imediatamente a seguir uma mensagem sobre um desconhecido e misterioso agrupamento musical denominado de "Os Camaradas", tendo por única referência um disco que adquirimos juntamente com o disco de Tino Flores e com outros discos de intervenção. Curiosamente, os comentários que emergiram após a publicação daquele texto precipitaram a publicação desta mensagem em cumprimento de uma espécie de dever e de compromisso para com os leitores, levantando um pouco do véu sobre esse misterioso agrupamento, do qual pouca ou nenhuma informação se sabe.
De facto, sobre "Os Camaradas" não conseguimos recolher qualquer informação, pelo menos até ao momento. Desde logo, a própria componente editorial do disco (à semelhança dos discos de Tino Flores) remete-nos igualmente para a ideia de tratar-se de edição de autor. Inclinámo-nos para esta tese, após observarmos com atenção o label do disco, no qual apenas constam o nome das músicas e a referência "OSC 2", sem qualquer referência a editoras ou "patrocinadores" do disco. Supomos também tratar-se do segundo disco deste agrupamento.
Por outro lado, o disco que adquirimos não tem qualquer informação na contracapa e embora a sua capa seja coloridamente apelativa (com cores vermelhas, pois claro) nenhuma informação dele podermos retirar. No entanto, desde logo ficámos com a ideia de que o disco dos Camaradas teria sido lançado em simultâneo ou então num período temporal muito próximo do disco de Tino Flores anteriormente apresentado pelo facto de os labels dos discos serem exactamente iguais, com o mesmo grafismo e igualmente editados em França. Tal constatação, remete-nos imediatamente para o campo das suposições, acreditando que o próprio Tino Flores poderá ter participado, de alguma forma, na produção deste disco. Na verdade podemos até ouvir numa das canções uma harmónica, à semelhança do disco de Tino Flores, onde também podemos encontrar igualmente a mesma sonoridade em algumas canções.
Facto que demos por assente à primeira audição é que não é Tino Flores que canta neste disco, pelo menos enquanto solista. Com efeito, as vozes dos intérpretes dos dois discos são manifestamente distintas. A identidade do vocalista dos Camaradas permanecerá um mistério que pretendemos desvendar com ajuda de todos aqueles que lerem este texto. Da composição do grupo, temos apenas a informação de que o músico Adão Gonçalves integrou-o em 1973, segundo informação colocada no Bairro do Vinil por um comentador geralmente muito bem informado.

Capa do E.P. "Os Camaradas" OSC 2

Confessamos que a nossa maior dificuldade prendou-se com o facto de permanecerem (mesmo após várias audições dos 4 temas que compõem este disco) algumas dúvidas sobre se o disco terá tido edição pré ou pós 25 de Abril. Sobre este aspecto, à primeira vista tudo indicaria tratar-se de um disco pré-25 de Abril, atendendo ao facto de o label do disco, conforme já referimos, ser igual ao do disco do Tino Flores e daí podermos eventualmente retirar a conclusão de ter sido editado em 1972 ou em 1973 (tendo por referência o período em que Adão Gonçalves integrou o grupo). É que as letras das canções, embora se tratem igualmente de músicas de conteúdo directo e sem floreados, têm um carácter dúbio ao ponto de poderem ser facilmente inseridas em qualquer um dos períodos acima referidos, isto tanto antes tanto depois do 25 de Abril. No entanto, arriscamos tratar-se de um disco já editado no pós 25 de Abril. Na verdade, através dele conseguimos vislumbrar algumas reminiscências do período conturbado dos primeiros meses imediatamente após a revolução dos cravos. Referências pontuais a pequenas liberdades, à repetição da palavra democracia inserida no contexto de governos pós salazaristas e nenhuma referência a qualquer primavera Marcelista colocam-nos numa quase certeza de tratar-se já de um disco editado em finais de 1974 ou inícios de 1975. O primeiro tema do E.P. "Quem trabalha é que deve mandar", a nosso ver desfaz qualquer dúvida. Contudo, sobre esta matéria, iremos deixar o espaço aos leitores para darem as suas opiniões para, daqui a umas semanas, refazermos o texto de hoje com informação já actualizada. 




Clique no Play para ouvir um excerto de "Os Camaradas"

Lado A) Quem trabalha é que deve mandar/ Democracia
Lado B ) Lá vai o comboio/ Ora vai, vai vai

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tino Flores - Organizado o povo é invencível

"Explorados nas fábricas e nos campos, carne para canhão na guerra colonial, emigrantes a fugir à fome, presos, torturados e massacrados pelos carrascos da burguesia, esta é a nossa vida. Sózinhos, isolados somos uma presa fácil nas mãos dos capitalistas. Quando nos unimos, quando nos organizamos, obrigamos os patrões e os oficiais e a polícia a recuar, fazemos greves e ganhamos, desertamos e roubamos armas, atacamos a guarda e fazemos com que ela fuja. Organizados e com armas conquistaremos o poder e exterminaremos essa corja de bandidos e parasitas que nos sugam o sangue e que nos lançam na miséria. Lutemos pela nossa unidade, organizemos reuniões nas fábricas, nos campos, nos quartéis, nos bairros onde vivemos! Discutamos os nossos problemas e organizemo-nos para a resposta vitoriosa contra os nossos exploradores! A união de todos os explorados criará um mundo novo onde terminará a exploração do homem pelo homem! A Guerra do povo é invencível. Em frente pela revolução popular!"

As palavras que acima escrevemos não estão aqui escritas por mero acaso. Na verdade estão igualmente estampadas na contracapa do disco que escolhemos para apresentar hoje no dia 25 de Abril. Trata-se de um disco que não sendo propriamente de um intérprete totalmente desconhecido, como é o caso de Tino Flores, merece honras de destaque pela sua raridade uma vez que os discos desse cantautor (principalmente os gravados no pré- 25 de Abril) são considerados dos mais raros de encontrar no mercado discográfico e, portanto, verdadeiras relíquias.

 À semelhança de outros cantores de intervenção exilados em França, foi também através da canção com mensagem de protesto que a voz Tino Flores chegou ao conhecimento de (alguns) portugueses. No entanto, para os que se interessam por este género de canção, é unânime a constatação de que Tino Flores é um caso totalmente à parte, diferenciando-se dos demais em muitos aspectos. Em primeiro lugar, os seus discos são genuinamente canções de protesto ao serviço de ideais e alvos bem definidos, como se de folk music se tratasse, tendo em conta o singelo acompanhamento de guitarra que servia de base às suas canções. Depois, porque as incendiárias palavras de Tino Flores não são preenchidas com quaisquer eufemismos ou floreados, sendo antes uma escrita directa contra a guerra e o fascismo, quase que rude e sem papas na língua, apelando directamente à consciência daqueles que considerava serem os explorados da sociedade, atingindo o seu auge com a canção "Isto só vai à porrada !", gravado já depois do 25 de Abril. Por outro lado, ao contrário dos outros cantores de protesto, que viam os seus discos ser editados sob a chancela de algumas editoras (ainda que lançados quase que clandestinamente) as edições de discos de Tino Flores tinham um carácter muito mais restrito, sendo edições próprias de autor, com capas trabalhadas de forma amadora e sugestivamente apelativas à luta e à revolta popular.
 Ao contrário de José Afonso ou Sérgio Godinho, por exemplo, que se tornou num músico de carreira com o decorrer dos anos, Tino Flores nunca seguiu (nem mesmo depois de ter regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974) qualquer carreira de músico profissional, pese embora tenha gravado alguns discos após a revolução. Tino Flores era, sobretudo, um músico de combate e de verdadeira resistência, conforme veio a demonstrar pelo seu contributo numa interessante parte da história do canto popular, como foi o Grupo de Acção Cultural, onde veio a ter um papel de verdadeiro destaque ao lado de José Mário Branco, Afonso Dias, José Júlio, entre outros. Para ilustrarmos um pouco desses cantos de revolta, deixamos um excerto de algumas das canções que compõem o E.P. do disco que hoje apresentamos, gravadas em 1972, algures em França.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Actualização de mensagens do Bairro do Vinil

Muito mais importante do que publicar novas mensagens era actualizar e corrigir alguns dos textos que publicámos anteriormente. Isto porque era imperioso corrigir alguns erros de informação decorrentes, por um lado, de alguma (quase que indesculpável) ignorância da nossa parte e, por outro lado, decorrentes da falta de informação disponível acerca dos artistas que destacámos. Felizmente, quanto a este último ponto, conseguimos obter informação privilgiada junto de imprensa da época ou junto do meio artístico (incluíndo os próprios artistas), que nos foi muito útil para dar um carácter mais científico aos textos que vagarosamente escrevemos.
Assim procedemos à actualização dos textos referentes a Fernando Ribeiro, Isilda Maria, Maria Albina, Conjunto Zeca da Silva e Germano Rocha, esperando que o leitor possa colher alguma informação útil resultante do nosso esforço.
Infelizmente, os nossos muitos afazeres não nos têm permitido actualizar o nosso blogue tantas vezes como aquelas que desejávamos. Fica, no entanto, a promessa que este espaço não morrerá e que brevemente novos textos e descobertas serão públicados.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Johhny Rodrigues - Mariquinha

O artista que recuperámos recentemente do vácuo do desconhecido gozou de grande popularidade além fronteiras, embora o mesmo nunca tenha chegado a possuir verdadeiramente nacionalidade portuguesa, pese embora tenha nascido sobre a égide do colonialismo português em África, mais concretamente em Cabo Verde em 1951, então território integrante de Portugal Ultramarino.
Com recurso à wikipédia holandesa (e com a imprescindível ajuda de um tradutor) descobrimos a figura de Johhny, ou um mais que provável João Rodrigues, que após ter sido chamado pelo exército português para cumprir o serviço militar em Angola (de onde seria enviado para um verdadeiro cenário de guerra) fugiu para os Estados Unidos da América no inicio da década de 70 do século XX, sem que nessa altura tivesse tentado ainda qualquer investida na vida artística.
Na verdade, a incursão de Johhny Rodrigues pela vida artística, só viria a verificar-se, por mero acaso (como quase sempre), quando este se encontrava de férias na Holanda, país onde recebeu convite para gravar um disco, após ter trabalho como DJ em bares e discotecas. Aí, socorrendo-se das influências do nosso folclore, Johhny Rodrigues, apresenta-se em palco como "Johhny & Orquestra Rodrigues" (embora cantasse a solo!), gravando em 1975 a canção "Hey Mal Yo", que mais não é do que uma versão do popular tema do nosso cancioneiro "Ó malhão, malhão", tendo o seu single de estreia, com o mesmo nome, sido imediatamente n.º 1 nos Países Baixos e na Bélgica, permanecendo no topo daqueles países durante doze semanas.

Sendo um dos poucos cantores africanos a cantar folclore português, pouco tempo depois, grava o single "Mariquinha", o qual viria mais tarde a ser editado em Portugal pela Valentim de Carvalho, sob licença da EMI, um disco dividido musicalmente em dois momentos bem distintos: um lado A, no qual apela, mais uma vez, ao folclore português e um lado B, bem mais alegre, que transporta os ouvintes para bem junto das suas raízes africanas, através do tema "Tente".
Desconhecemos se "Mariquinha" teve algum sucesso no estrangeiro, embora tudo nos leva a crer que sim, atendendo ao facto de o disco ter sido lançado imediatamente a seguir ao seu single de estreia. Paradoxalmente, o percurso de Johhny Rodrigues foi tão efémero quanto tão rápida foi a sua ascensão aos charts internacionais e o seu desaparecimento do mundo do espectáculo, sendo o seu paradeiro actual para nós mais um mistério por desvendar.



Clique no Play para ouvir um excerto dos temas

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Alberto Ramos - Beijinho Doce

Abordamos hoje um cançonetista que gozou de alguma popularidade em finais da década de 1950 e nos inícios da década de 60 e cujo percurso musical, à semelhança de outros tantos cançonetistas do seu tempo, se terá eclipsado de forma abrupta ainda durante a década de 60. A particularidade de Alberto Ramos é que, ao contrário da maioria dos outros cançonetistas, que ingressaram nos quadros da Emissora Nacional de forma espontânea (isto é, apresentando-se a provas perante um exigente júri) começou a cantar acidentalmente, quando se encontrava a cumprir o serviço militar no Funchal (onde nasceu, em 1930). Por mera coincidência, o comandante da sua companhia era o director da E.N. de S. Martinho (Funchal) que reparou que Alberto Ramos tinha boa voz, tendo-o de imediato convidado para cantar aos microfones da estação, ainda que na altura sem qualquer carácter profissional.
Desde esse momento até à gravação dos seus primeiros discos, tudo ocorreu num verdadeiro ápice para Alberto Ramos que acabaria por ficar livre do serviço militar ao fim de 3 meses, tendo rumado imediatamente para Lisboa, altura em que conheceu o radialista Igrejas Caeiro que, depois de uma audição logo o contratou, tendo iniciado a sua carreira como cançonetista no programa de Rádio Companheiros de Alegria. No dia 16.02.1958, estreou-se aos microfones da RTP, participando no programa "O senhor que se segue", tendo sido precisamente, aquando da sua primeira aparição na TV, que Jaime Filipe (engenheiro de som da RTP) lhe propôs a gravação de um contrato de 3 anos para a editora Alvorada.

No que diz respeito à discografia de Alberto Ramos podemos adiantar, com um elevado grau de probabilidade, que terá sido toda gravada para a etiqueta Alvorada, tendo-se estendido até 1962, num total de quatro Ep's em nome próprio (ou seja, mais um do que os propostos em 1958 por Jaime Filipe), ao que acresce ainda um outro repartido com a cançonetista Margarida Amaral, em homenagem ao Clube de Futebol os Belenenses.
Da sua discografia, destacamos do seu primeiro disco gravado em 1959, a canção "Beijinho Doce", com acompanhamento do Conjunto de Hélder Reis, cujos autores da letra e música desconhecemos, pelo facto de o label do disco não conter qualquer informação relativamente a essa canção (ao contrário das restantes 3 músicas que compõem o disco, cuja informação e créditos autoriais se encontra identificada). No entanto, por gostarmos tanto da capa do seu primeiro disco, não poderíamos deixar de escolher esta canção para apresentar Alberto Ramos às novas gerações.

Alberto Ramos, em 1961
Como já referimos no primeiro parágrafo desta mensagem, posteriormente à gravação do seu último disco, nada mais sabemos do percurso de Alberto Ramos, ainda que sobre nós tenham pairado recentes rumores, recolhidos junto de anteriores antigos vizinhos, que terá abandonado a vida de cançonetista para ser empresário no ramo das artes e do espectáculo. Ou teria voltado a ser comerciante, profissão que exerceu paralelamente até alcançar o sucesso, vendendo bordados da Madeira a bordo de navios em alto mar ? Não sabemos, pelo que apelamos a quem nos possa elucidar a sempre bem vinda colaboração.





Clique no Play para ouvir "Beijinho Doce"

sábado, 10 de dezembro de 2011

Francisco Stoffel - Canto para não chorar

Apesar de o fado não ser o nosso género musical de eleição, não poderíamos ficar indiferentes ao heróico acontecimento de o mesmo ter sido considerado há poucos dias atrás como Património Imaterial da Humanidade. É sem dúvida algo que deve encher de orgulho todos os portugueses, sejam eles ou não apreciadores de fado. De facto, se para os estrangeiros o fado simboliza apenas um género musical (ou erradamente a nossa “folk music”), a verdade é que para nós simboliza muito mais do que isso; o fado é algo verdadeiramente nosso, intrínseco e confundível com a própria alma portuguesa e que tem sobrevivido ao longo de séculos às grandes mudanças sociais e políticas que ocorreram na pátria lusitana.
Também nós, que fomos criados bem perto das margens do Mondego, e que ao longo dos últimos anos nos temos dedicado à pesquisa da música popular portuguesa, fomos aprendendo a apreciar o som da outra guitarra portuguesa e a deixarmo-nos seduzir muitas vezes pelas belas vozes que do fado emanam.
Queremos também deixar de lado, enquanto apreciadores do fado de Coimbra, a polémica (para aqui não chamada) da exclusão do Fado de Coimbra da candidatura do Fado a património imaterial da Humanidade. Por isso, dedicaremos a mensagem de hoje a um jovem fadista de Lisboa que, infelizmente, nunca passou de uma mera esperança e cuja saudosa voz muito apreciamos. Para tal, deixaremos nos parágrafos seguintes um pouco do que conhecemos sobre Francisco Stoffel e das gravações das 4 canções que compõem o seu único legado.
Há cerca de 45 anos atrás, em Dezembro de 1966, num dos salões do Hotel Tivoli decorreu um beberete oferecido pela editora de discos catalã Belter. Tratava-se do arranque em Portugal de uma das duas editoras espanholas que na época apostaram na gravação de artistas portugueses (a outra, era a madrilena Marfer). O referido cocktail serviu, portanto, para apresentar os primeiros discos lançados em Portugal de artistas portugueses dessa editora, tendo reunido em tal convívio António Calvário (até então o “rei da rádio”), Luis Guilherme, Alberto Ribeiro e Shegundo Galarza, que foram, juntamente com Francisco Stoffel, os primeiros artistas a gravar para a Belter e cujos discos iriam ser colocados à venda em toda a Espanha, Argentina, Angola, Moçambique, para além de Portugal (então metrópole).
No dia da apresentação dos artistas e dos discos aos órgãos de informação, para além da habitual sessão de autógrafos, foram oferecidas pastas com os discos gravados pelos 4 cançonetistas nacionais (Luís Guilherme, Calvário, Alberto Ribeiro e Francisco Stoffel). No entanto, dos quatro cançonetistas apenas três estiveram presentes, pois Francisco Stoffel falecera dias antes vítima de uma doença que os médicos na altura não conseguiram identificar.
Francisco Stoffel, nascido no Estoril, há provavelmente 66 anos, tinha apenas 22 anos quando faleceu, dias antes da apresentação do seu disco à comunicação social.
Stoffel, era, segundo o que apuramos na imprensa da época, a grande descoberta da Belter e a maior promessa de fado castiço para os tempos futuros, tendo chegado a actuar em programas da Rádio Televisão Portuguesa, embora não tenha chegado a conhecer os grandes palcos. As causas da sua morte nunca foram confirmadas, ainda que de acordo com um comentário que encontramos "postado" na internet (sempre sujeito a confirmação) poderá ter falecido vítima de uma forte insolação e das complicações posteriores. Stoffel, com uma voz única para um jovem de 22 anos, deixou-nos apenas 4 sentidos fados, sendo um deles, um fado bem conhecido, popularizado mais tarde por Carlos do Carmo, com o título de “Por morrer uma andorinha”, com música de Francisco Viana e letra de Frederico de Brito.



Clique no Play para ouvir um excerto do disco

terça-feira, 14 de junho de 2011

José Carvalhal - Recado ao Governo

Numa altura em que a intervenção de forças externas em Portugal é já uma realidade, através da denominada Troika (onde se insere o F.M.I.), são muitos aqueles que desesperam sem saber ao certo o que fazer para tentar travar uma crise que é já de dimensão europeia. Enquanto tal acontece, resta-nos o contentamento em saber que conservamos ainda a nossa independência, aparentemente garantida pela eleição de um novo Governo após o último sufrágio a que fomos submetidos. Seja qual for o destino da nossa governação, são já muitos os apelos ao sentido de responsabilidade de todos os responsáveis pela Nação em favor do bem comum, que se multiplicam de hora a hora, sejam eles efectuados de uma forma mais racional ou de uma forma mais desesperada.
Transpondo estas considerações (de índole quase utópica) para o panorama musical, aproveitamos para relembrar que os mesmos apelos que hoje são feitos através da blogosfera (ou através de manifestações espontâneas de gerações à rasca) são em tudo idênticos aos que surgiram de forma livre no imediato pós 25 de Abril, através da proliferação de dezenas de artistas provenientes de todos estilos musicais (desde os cantautores até ao próprio fado) que, de uma forma ou de outra, faziam ingerências e apelos muito directos à Governação.
Tal sucedeu, por exemplo em 1978, quando um desconhecido José Carvalhal gravou para a Editora Rapsódia (inserido numa série de EP's de cantares ao desafio e cânticos populares) o tema "Apelo ao Governo" que, bem vistas as coisas, permanece ainda bastante actual. Aliás, a importância destes discos, ao qual pouca gente atribui real valor, torna-se ainda mais evidente na época em que nos encontramos. De facto, versos expressivos como "Temos um país vencido por causa da politica / isso a mim me consome por ver tanta miséria / tendes os bolsos cheios e os pobres cheios de fome" transportam os ouvintes mais pessimistas para uma preocupante realidade que poderá estar mesmo aqui ao virar da esquina.
Pelo menos até 1984 (?) José Carvalhal, gravou mais de meia dúzia de discos, uns com uma vertente mais popular e outro com um carácter mais político, como é por exemplo o sugestivo disco gravado também em 1978 para a mesma editora com o título de capa "Com tretas não se governa". Podíamos estar enganados e pensar que José Carvalhal seria apenas um cantor de outros tempos e que estes discos de tempos idos que teimosamente continuamos a resgatar de destinos incertos, não voltavam a soar nos nossos giradiscos. No entanto, para espanto nosso, conseguimos apurar que ainda hoje José Carvalhal mantêm o estatuto de popular tocador de concertina e "cantador" ao desafio na freguesia distante da Ermida, no concelho de Ponte da Barca, aldeia quase deserta mas que teimosamente continua a sobreviver à desertificação total.


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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pancho & Kamel – Pedra Filosofal

Quando pensamos que a imaginação se encontra esgotada e que já não podemos surpreender ninguém com a descoberta de mais uma versão de uma canção conhecida, eis que nos chega às mãos uma inesperada e original interpretação do conhecido poema de António Gedeão “Pedra Filosofal”, imortalizado sob a forma de canção por Manuel Freire.
Já vários artistas portugueses gravaram esta canção, não fosse ela reconhecida por todos os quadrantes musicais como uma das mais belas canções alguma vez criadas por intérpretes portugueses. No entanto, desta feita socorremo-nos do duo Pancho & Kamel, composto por F. J. Amenabar (Chile) e Kamel Missaghian (Irão), dois artistas estrangeiros que (provavelmente) se encontravam a residir temporáriamente em Portugal e que tiveram a oportunidade de gravar este trabalho no nosso país para a etiqueta Riso & Ritmo, em data não anterior a 1970.
De facto, o "verdadeiro" nome deste duo é Dia Prometido, um duo psicadélico baseado em Espanha (acompanhado em estúdio com banda de suporte) com reportorio bastante eclético abrangendo versões instrumentais de temas rock, folk, world, jazz, clássica, além de temas originais.
Ao que pudemos apurar, os Dia Prometido lancaram quatro LP's e cinco Singles entre 1971 e 1975 pela Philips em Espanha, sendo este EP da Riso & Ritmo uma excepção, editado para o mercado português com a exclusividade do tema "Pedra Filosofal" que aparentemente não perfila em nenhum dos LP ou Singles da banda.



No aspecto musical, estamos perante um registo bastante simples, respeitando a linha da versão original, embora neste caso, a voz e a guitarra seguem acompanhadas do muito pouco usual santur, um instrumento milenar de origem persa, que ocupa um lugar de destaque neste tema, cabendo-lhe o registo da melodia da canção, passando a voz a ocupar um lugar declamativo.
Não podemos ficar igualmente indiferentes ao timbre exótico e sonoridade planante que o santur nos emana ao longo da interpretação de “Pedra Filosofal” que, juntamente com o facto de estarmos perante uma versão em castelhano, nos oferece uma interessante visão do poema de Gedeão, confirmando a dimensão universalista que só as grandes obras conseguem alcançar.



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Pancho & Kamel
RREP0089

1) Peace Meditation (Pancho & Kamel)
2) Pedra Filosofal (Antóneo Gedeão)
3) Improviso Persa (Pancho & Kamel)
4) Concerto de Aranjuez (Joaquin Rodrigo)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O 25 de Abril de 1974 - Conjunto Típico Francisco de Sousa

Quem pense que por estarmos a celebrar mais um aniversário do 25 de Abril de 1974, teríamos que escolher forçosamente uma canção de um cantautor/baladeiro dos anos 70 (preferencialmente ex-exilado em França) para ilustramos musicalmente este dia está muito enganado. Isto porque a canção de protesto, tal como nós a gostamos de dividir, teve duas fases bem distintas (quanto a nós, de interesse quase idêntico): a canção de intervenção pré-25 de Abril e a canção de protesto no imediato pós 25 de Abril, resultante da proliferação de mensagens políticas em tudo o quanto era canção, quase todas elas associadas (senão mesmo ao serviço) de partidos de esquerda.
Desse modo, estilos musicais tradicionalmente associados ao sectarismo do Estado Novo, como o fado e a música popular (nomeadamente através dos conjuntos típicos) passaram também eles a cantar os valores da liberdade e da democracia que o 25 de Abril de 1974 apregoou para Portugal. Artur Gonçalves (fado humorístico), Conjunto Típico Esperança (conjuntos típicos) e Januário Trindade (fado) são alguns dos exemplos associados a essa vertente da música de intervenção pós 25 de Abril a qual, em bom rigor, só se dizimaria com o surgimento em massa dos grupos de rock português e dos bailes de liceu, que depressa substituíram o protagonismo radiofónico dos cantores de Abril.


Para ilustrar esse fenómeno escolhemos a canção "O 25 de Abril de 1974" composta por Francisco de Sousa para o seu Conjunto Típico, tendo como solista Fernando Pereira. Trata-se, com efeito, de um disco que contém todas as características presentes nos discos de conjuntos típicos lançados com mensagem política a seguir ao 25 de Abril. Concretizando: na sua maioria eram lançados em formato E.P. (com quatro canções) sendo que dessas quatro composições, geralmente apenas uma tinha um conteúdo político, quase sempre o tema que dava título à capa do disco. As restantes canções continuavam a seguir, na linha "típica" de tais conjuntos a sátira aos desgostos de amor, as temáticas religiosas e, sobretudo, a apologia das tradições das diversas regiões do nosso país, através dos seus bailes e romarias. Nada mais correcta, a nosso ver, tal orientação, não fosse a opção por um caminho radicalmente inverso desvirtuar por completo o papel que os conjuntos típicos sempre tiveram na sociedade e costumes.
Nesta canção e da análise da sua letra resulta a curiosidade que a mesma terá sido escrita apenas dois meses após a Revolução dos Cravos, embora o disco apenas tenha sido lançado para o mercado em 1975. No entanto, a letra manteve-se inalterada, sem qualquer referência ao período conturbado que se viveu em Portugal imediatamente a seguir à Revolução. Dessa forma, a canção "O 25 de Abril de 1974", acaba por ser um testemunho politicamente apartidário, gravada num registo naturalmente alegre, como é costume no género musical sobre o qual nos debruçamos.
Acresce ainda, para finalizarmos, uma referência à sugestiva capa do disco, com um cravo estampado sobre um fundo vermelho, com um sugestivo título de Abril de 1974.



RODA RPE 1374
A) O Abril de 1974/ Briga de amor
B) Jamais te posso esquecer/ Tenho saudades

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terça-feira, 19 de abril de 2011

Alfredo Santos - Rock Saloio

A partir dos anos 70, com o advento do pop rock português (embora este ainda não estivesse massificado), muitos dos nossos cantores populares (fossem os mais ou os menos conhecidos) de uma forma ou de outra acabaram por aventurar-se por esses então estranhos domínios. Desse modo, ora sob a forma de sátira (como é o caso dos conjuntos típicos relativamente ao Yé Yé) ou através de misturas de estilo popular com rock, foram lançados muitos discos de folclore, fado, etc, com canções tematicamente associadas às novas sonoridades anglo-saxónicas. Sem fazer um grande esforço de memória, lembramo-nos da série de discos PopFado de vários artistas, da canção “Fadista Yé Yé” ou até do extraordinário disco de Hermínia Silva com o Quarteto 1111 "A Hermínia Canta Yé Yé", entre outros discos que ilustram, por um lado, o antagonismo entre os diversos estilos musicais da época e, por outro lado, a tentativa de convergência entre os mesmos.

Para ilustrar esse fenómeno, apresentamos Alfredo Santos, o desconhecido artista que recuperamos hoje do esquecimento, com a canção Rock Saloio, editado pela etiqueta Roda sob a direcção musical de Shegundo Galarza, na qual canta de uma forma quase que perfeita a contraposição entre as festas dos arraiais e as chulas, substituídas pelo som do Yé Yé e pelo Rock, transpondo para o imaginário do ouvinte um baile popular ao som das novas modas, com a constante alusão ao rock saloio, termo tão correctamente utilizado na letra desta canção, na medida em que os saloios do outeiro despidos do seu típico barrete e colete adaptam as suas danças ao sons do rock sem contudo deixar de lado as suas raízes, ao ponto de o cantor chegar mesmo a dizer que esta nova dança "até parece a chula".


Visto de outro prisma, Rock Saloio ilustra também uma realidade de um Portugal pouco permeável às novas tendências sociais e culturais vindas do estrangeiro, especialmente nas zonas mais ruralizadas onde pouco ou quase nada chegava e quando chegava, o choque entre estas era evidente - “No outeiro já se baila a moda e só se dança o rock / pé ligeiro / pulam as Marias e os Maneis ad hoc / o vira virou já se acabou e tudo mudou lá fora / o rock saloio está na moda agora”.
De Alfredo Santos pouca ou nenhuma informação conhecemos para além da existência de mais um E.P. gravado para a mesma editora, ficando nós, como sempre, à espera que os nossos leitores (e ouvintes) desvendem um pouco mais dos misteriosos artistas que teimamos em apresentar.



Clique no Play para ouvir um excerto de Rock Saloio

Alfredo Santos
Roda EP 1278
A) Anda daí Catraia/ Chegou o correio
B) Quero confessar-te/ Rock Saloio

sexta-feira, 25 de março de 2011

Trio Barroco + Tyree Glenn Jr. & Van Dixon - Summer

Tendo como principal mentor Pedro Osório, o Trio Barroco foi formado em 1968 juntamente com André Vilas Boas e Jean Sarbib, este último antigo companheiro de Pedro Osório no Quinteto Académico (um dos pioneiros grupos do rock português). Com um percurso éfemero no panorama musical português, o Trio Barroco na sua curta existência gravou apenas três E.P.s, com influências soul, jazz, funk e naturalmente o rock, ao qual de uma ou outra forma, todos os membros da banda estavam familiarizados.
Neste disco, destacam-se as participações dos músicos americanos Tyree Glenn Jr. (saxofone-flauta) e Van Dixon (trompete) que também assinam vocalmente três dos quatro temas presentes neste E.P. com particular destaque para a vivaz versão do famoso tema de Sam Cooke “Hold on I'm coming”.



No entanto, a particularidade maior deste disco é a excelente versão em inglês da canção vencedora do Festival da Canção de 1968 “Verão”, interpretada por Carlos Mendes e que, neste disco a eleva a uma versão digna de registo internacional.
Teria o Trio Barroco pretensões de se internacionalizar?... Tudo neste trabalho nos parece indicar nesse sentido - o uso da língua inglesa, a escolha dos temas, os músicos convidados, etc… No entanto, sobre essa possibilidade e pelo que dispomos, apenas podemos conjecturar. O que podemos sim afirmar é que, sem dúvida, esta era uma banda de grande qualidade musical e que tinha condições para se impor no mercado discográfico (pelo menos, no nacional) como uma alternativa ao “main-stream” povoado pelas bandas de Yé Yé.
Dada a conjuntura musical da época, o projecto Trio Barroco, acabou naturalmente por ter uma curta existência, deixando, contudo, um interessante legado na música nos finais da década de sessenta.





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quinta-feira, 17 de março de 2011

José Fernandes - O Poeta Cavador do Mucifal

Não podemos ficar indiferentes ao disco que recentemente nos chegou às mãos, não fossemos nós da mesma terra que o assim conhecido na literatura portuguesa como o "Poeta Cavador". Aliás, ainda nos lembramos de um dos nossos livros da Escola fazer referência aos seus versos e de uma fotografia sua, a preto e branco, tirada certamente no final do século XIX, na qual podemos apreciar a figura de um homem simples, da lavoura, com pouco à vontade para ser fotografado. Falamos de Manuel Alves, o Poeta Cavador, que nasceu em Vale de Boi, freguesia da Moita em Anadia, tendo sido um poeta repentista e analfabeto, sendo que o seu nome apenas ficou para a história pelo facto de Tomás da Fonseca ter um dia compilado os seus versos e simultaneamente lhe atribuído o cognome de Poeta Cavador. Manuel Alves, apesar de analfabeto, foi também um boémio da noite coimbrã, cantando fado, chegando mesmo a privar com o célebre fadista Hilário. Infelizmente, faleceu em 1901, pouco antes da gravação do primeiro registo sonoro em Portugal (pois descobertas recentes atribuem a 1902 a primeira gravação alguma vez registada) e, obviamente, não chegou a gravar qualquer canção. Percurso inverso teve outro Poeta Cavador, não de Anadia mas sim do Mucifal (aldeia do concelho de Sintra) que em 1984, depois de mais de cinco décadas a escrever versos e canções, gravou o seu primeiro disco, acompanhado pelo Conjunto da União Mucifalense. Falamos agora de José Fernandes Badajoz, que interpretava os seus poemas e as sua música, animando festas de beneficência, Carnavais, embora sempre com um carácter não profissional, uma vez que a carreira de artista sempre lhe passou ao lado, apesar de algumas propostas nesse sentido terem sido feitas. Ao contrário de Manuel Alves, José Fernandes não seria analfabeto, pois ele próprio guardou durante anos os escritos que mais tarde serviriam de base à gravação dos 12 temas que constituiem o L.P. que hoje apresentamos. Efectivamente, o disco é preenchido com canções escritas entre 1934 e 1983, tematicamente nada surpreendentes face ao cognome que partilhava com Manuel Alves. Na verdade, as letras estão na sua grande maioria relacionadas com a Natureza, fazendo uma apologia ao orgulho da terra e das colheitas e à peculiar sabedoria que muitas vezes só as gentes do campo possuem devido precisamente a essa forte ligação entre a terra e a Mãe Natureza. Versos como "A minha casinha tem/ Uma vista confortável/ Dela tudo vejo bem/ Respirando um ar saudável" ou "Do campo é que vem/ o pão que todos comemos/ Do pão é que vem/ O vinho que nós bebemos/ E mesmo p'ra quem/ só p'la cidade suspira/ No campo é que tem/ ar puro que se respira", ilustram bem a realidade que José Fernandes quis realçar, quando aos 63 anos, gravou este disco. Gravado quase 100 anos depois de o outro Poeta Cavador ter cantado os seus fados em Coimbra, José Fernandes recorreu a um estilo musical bem diferente para dar forma aos seus versos, num registo bem mais popular, alegre, em clara homenagem à sua terra e às suas raízes, escondendo palavras de esperança e de exaltação aos trabalhadores do campo, segundo ele muitas vezes injustamente considerados rudes e mal-educados. Provavelmente terá sido este o único disco de José Fernandes, de edição de Autor, com sucesso diminuto em Portugal mas com largo reconhecimento na aldeia do Mucifal, onde o seu nome já é nome de Rua. Da nossa parte, deixamos aos ouvintes um excerto do disco deste Poeta Cavador, aliás, Poeta Cantador.


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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Henrique Cordeiro e Ariovalda Maria

A comunidade portuguesa radicada nos Estados Unidos da América, nomeadamente a açoriana radicada na California, é bem maior do que aquela que porventura possamos imaginar. Sendo assim, é natural que nessas comunidades surjam muitas vezes músicos portugueses com registos musicais naturalmente virados para a comunidade lusa radicada no estrangeiro. Nada mais óbvio. Não surpreende também que muitos desses músicos conservem bem vivas as raízes musicais da terra-mãe, cantando temas intimamente ligados ao que de mais português há em nós. Um dos temas mais simbólicos do nosso universo musical, é a conhecida “Júlia Florista” com letra de Joaquim Pimentel e música de André Vilar, um fado cantado por dezenas de ilustres intérpretes da nossa canção. Outro dos temas mais conhecidos da música popular portuguesa, é a canção do folclore açoriano “Olhos Negros”, também ela gravada de forma recorrente pelos mais diversos artistas, sendo actualmente conhecida a versão de Teresa Salgueiro.
Os intérpretes desses conhecidos temas, cujo nome apresentamos hoje, são também eles cantores radicados nos Estados Unidos, provenientes dos Açores, cujo nome em Portugal é totalmente desconhecido da quase totalidade dos portugueses. Falamos de dois irmãos : Henrique Cordeiro e de Ariovalda Maria, aqui acompanhados pelo “famoso” Conjunto Ibérico (conforme descrição da capa – uma vez que na contracapa a informação é inexistente), num E.P. gravado pela etiqueta Vance Records.

Sobre esse duo pouco conhecemos, para além do facto de serem ambos cantores açorianos com raízes discográficas que já remontam, pelo menos, ao ano de 1955, quando os dois pertenciam ao grupo Artistas Unidos. Henrique Cordeiro tem diversos registos musicais gravados, quase todos editados nos Estados Unidos, o mesmo sucedendo com Ariovalda Maria. Relativamente ao disco que apresentamos hoje aos nossos ouvintes, segundo informações de um dos membros da formação da altura do denominado Conjunto Ibérico, o mesmo foi gravado em princípios de 1968, numa única sessão de gravação, num dia em que chovia torrencialmente (facto que acrescenta a titulo de curiosidade). Já nessa altura o Conjunto Ibérico sofrera alterações na sua formação, sendo que dois dos seus membros originais se tinham afastado e formado um outro conjunto. Desta forma, conforme nos esclarece, João Cardadeiro, os membros que participaram na gravação deste disco foram: Belmiro Silva, saxofone e director do conjunto, João Cardadeiro* na guitarra electrica, Francisco Rosa na viola-baixo e Manuel Ildeberto "Burt" Gonçalves na bateria.
Os dois músicos que se ausentaram do grupo antes da gravação deste E.P. foram foram Aniceto Batista (entretanto falecido) e José Elmiro Nunes, agora radicado em Lisboa, tendo este último originalmente acompanhando Carlos do Carmo, sendo ainda hoje em dia acompanhante de muitos outros fadistas da nova vaga, entre os quais Ana Moura.
Para além da falta de informação constante no disco, que nos encarregámos de desvendar, há ainda que registar como ponto de interesse, o recurso a um saxofone neste tipo de formação musical como instrumento solista no tema Júlia Florista, com naturais influências americanas. Do mesmo, tal como também no tema Olhos Negros, há ainda o recurso a uma guitarra eléctrica, que se destaca, mais uma vez em completo arrepio com a instrumentalização base dos conjuntos típicos portugueses.

* A quem agradecemos, não só a oferta do disco, como também todas informações relativas à gravação destes temas.

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domingo, 10 de outubro de 2010

ZÉ DA VESGA (ZÉ DO POVO)

Nos meses imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, Portugal assistiu a uma proliferação quase desmedida de música de intervenção, fosse ela transvestida sob o modo de canção política ou fosse uma mera continuação do canto de intervenção do pré 25 de Abril. Desse modo, assistiu-se sobretudo a uma utilização do fado (outrora canção conotada com o Regime) como instrumento de divulgação da critica social e política, facto que, por si só, demonstra a grande viragem ocorrida na escolha da temática e das palavras utilizadas na música portuguesa até aos nossos dias. No entanto, não só através do fado se veiculavam as novas palavras do pós 25 de Abril. A esse género associaram-se outros também (injustamente) associados ao Regime, como a música ligeira e a própria musica popular.

Como consequência do grande fluxo emigração ocorrido na década de 60, muitos artistas portugueses fizeram a sua carreira no estrangeiro, não tendo tido muito contacto com a realidade social portuguesa, senão através de noticias partilhadas à distância. No entanto, tal facto não era necessariamente sinónimo de que tais artistas (ou pelo menos parte deles) se encontravam desatentos ao que se passava no país, principalmente no pós 25 de Abril. Ora, um desses artistas que viveu muitos anos no Canada - segundo informações não confirmados já se encontra radicado em Ovar – é José Ferreira Soares, mais “conhecido” por Zé do Povo, Zé da Vesga ou "João Mora Cá" que em pleno verão quente de 1975, lança um E.P., gravado no Canada pela etiqueta Precision Record, num estilo (muito) satírico e bem humorado, através do qual apresenta a sua visão sobre a instabilidade política que se fazia sentir em Portugal, que em pouco de mais de um ano de liberdade, já tinha conhecido seis governos diferentes.

Trata-se de um registo musical manifestamente virado para o sentimento generalizado do povo, o qual ainda se encontrava desconfiado dos ideais de liberdade e de igualdade proclamados pelos generais da revolução, que demoraram a impor-se na sociedade portuguesa. Zé da Vesga, autor e compositor de textos literários e musicais, com posteriores passagens pelo fado, utiliza neste disco, um registo de música baile bem animado, perfeitamente coadunado com o seu irónico registo vocal, constatando situações que, de certa forma, ainda se mantêm actuais. Sobre o seu percurso musical pouco conhecemos, sabendo, no entanto, da existência de um LP e de um outro E.P. denominado “Disquinhos do Zé do Povo”,com os temas “Cravos de 25 d´abril / O grande camaleão / A grande caserna / O punhal e a Rússia”, provavelmente também da mesma editora.
Zé da Vesga, apresenta-se acompanhado pelo, para nós desconhecido Conjunto Capas Negras, conforme se pode ver na capa do E.P. Para finalizarmos, permitam-nos chamar ainda a atenção para a interessante componente caricatural presente na capa, que por si só já transmite para os ouvintes todo o sentimento das músicas constantes deste disco.




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sábado, 24 de julho de 2010

Maria Mendes - Coimbra - Avril au Portugal

Quando, há mais de sete décadas, a dupla Raúl Ferrão e José Galhardo escreveu a canção “Coimbra”, certamente jamais imaginaria que a mesma se iria tornar numa das mais conhecidas canções portuguesas em todo o mundo (senão a mais conhecida), tendo sido tal canção a fonte de ínumeras versões, principalmente instrumentais. Sob o título de “Coimbra”,April in Portugal” ou “Avril au Portugal”, foram dezenas os artistas que, de uma forma ou outra, incluíram uma versão desta canção num disco seu. Entre as dezenas de exemplos possíveis, temos desde logo Louis Armstrong que popularizou a canção à escala mundial, com o título de "April in Portugal" (e nova letra) passando por Bing Crosby e mais recentemente por Caetano Veloso, sem esquecer Amália Rodrigues, também ela cantora internacionalmente conhecida.
Pese embora tenha sido escrita em finais dos anos trinta, tal canção foi sendo sucessivamente rejeitada pelo público como canção de teatro de revista, circuito no qual Raúl Ferrão se inseria enquanto encenador e produtor. Somente em 1947 é que "Coimbra" teria algum reconhecimento, embora reduzido, quando a mesma foi utilizada enquanto canção serenata no filme Capas Negras de Armando Miranda. Contudo, o verdadeiro qui pro cuo, no que diz respeito à popularidade desta canção só aconteceria já na década de 50, quando Amália Rodrigues, mercê do grande sucesso internacional então conseguido, começou a incluir “Coimbra” no seu repertório, principalmente quando cantava no estrangeiro.
Mais do que a beleza dos locais que esta canção invoca, “Coimbra” ou “April in Portugal”, encerra em si também uma melodia de rara beleza, com uma estrutura harmónica só ao alcance das mais belas melodias de sempre. Curiosamente, são de Raúl Ferrão (música) e José Galhardo (letrista) a autoria de algumas das mais belas e populares canções portuguesas, como é o caso de “Lisboa Antiga” ou “Lisboa não sejas francesa”, também elas versionadas por artistas internacionais.
Das dezenas de versões desta canção são de destacar, para além das diversas versões orquestrais instrumentais, também versões em ritmos de salsa, mambo, acordeão, carrilhão, jazz, entre outros estilos.
Não certamente tão recorrente é a versão disco de “Coimbra”, numa mescla de português/francês que apresentamos hoje aos nossos leitores. A intérprete é Maria Mendes neste single de 1978 gravado para a etiqueta francesa Togo Saga Music. De destacar, que o lado B do disco é composto pelo tema “Girassol” com letra da própria artista, sendo que os arranjos de ambas as músicas ficaram a cargo de Gilbert Grilli. Não sendo propriamente um estilo musical que acompanhemos de perto, não podemos deixar de ficar indiferentes aos excelentes arranjos, nomeadamente a secção de metais que enriquece em muito esta interessante versão de "Coimbra".


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quinta-feira, 13 de maio de 2010

O MUNDO EM FÁTIMA

Enquanto hoje se celebra com alguma euforia (e exagerada cobertura mediática) a vinda do Papa Bento XVI ao Santuário de Fátima, cabe-nos recuar 43 anos no tempo e ir de encontro ao que por cá se passava em Fátima precisamente neste dia. A 13 de Maio de 1967, decorria em Fátima as comemorações do Cinquentenário das Aparições.
Ao contrário do que sucedeu em 1982, por altura do jubileu, em que a visita de João Paulo II foi vista com naturalidade e aceitação por parte de todas as altas patentes do Estado Português, o mesmo já não se poderá dizer em relação à visita de Paulo VI em 1967. Com efeito, a assombrar a visita papal estavam duas questões que foram decisivas para o Vaticano despolitizasse a visita do Papa a Portugal: em primeiro lugar a guerra colonial que Portugal, orgulhosamente só, insistia manter, ao arrepio do que se passava nos outros países europeus; e em segundo lugar, o facto de um ano antes, Salazar ter censurado a visita do Papa à Índia, que, como se sabe, iniciara o princípio do fim do império colonialista português, com a anexação de Goa, Damão e Diu. Por essas (e outras razões) a visita do Papa a Portugal foi tudo menos pacífica,tendo sido desencadeada, uma das mais fortes operações de segurança já alguma vez vistas em Portugal.
Devido ao clima de tensão criado, o Peregrino da Paz, como era apelidado Paulo VI, não se deslocou a Lisboa, tendo aterrado na base de Monte Real e seguido directamente para a Cova da Iria, local das celebrações. Talvez somente suplantado pelas últimas visitas a Fátima de João Paulo II, a celebração da Eucaristia pelo Papa Paulo VI concentrou a 13 de Maio de 1967 a maior aglomeração de fieis jamais reunida em Fátima.
Para além dos fieis e peregrinos, em Fátima, estiveram igualmente reunidos 7 cardeais (responsáveis pela Oração aos Fiéis), meia centena de Arcebispos e Bispos, membros do Corpo Diplomático e variadíssimas colectividades religiosas, nacionais e estrangeiras. Curiosamente, apesar da aparente resistência, as mais altas figuras do nossa da Nação, estiveram presentes em massa, embora a título meramente particular. Por essa razão, Paulo VI não foi considerado visita de Estado, nem hospedado a expensas do Estado por não ser seu convidado, tendo sido antes hóspede do Bispo de Leiria.

Da homilia de Paulo VI, destaca-se o facto de ter vindo a Portugal rezar pela Paz no Mundo (numa clara alusão à guerra colonial), proferindo-se célebres (e sábias) palavras “Homens, sede homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo... Recomeçai a aproximar-vos uns dos outros com a intenção de construir um mundo novo”. Paulo VI rezou a missa, tendo a Oração dos Fieis sido recitada em 8 línguas diferentes, num apelo aos governantes para que o fizessem, com justiça e com verdade (hoje, 43 anos depois, é mais actual do que nunca esse apelo). De todos esses momentos, o momento mais marcante terá sido, sem dúvida, a homilia de Paulo VI que, mesmo num português por vezes mal soletrado mas perfeitamente inteligível, consegue apelar de uma forma particularmente emotiva à paz no mundo, não o fazendo somente através de palavras de circunstância facto que, como é evidente, só poderá assumir contornos de manifesta sinceridade.
Parte dos registos desse dia, ficaram registados em disco, num LP de edição cuidada da Editora Alvorada, em estilo gatefold (capa de abrir), facto raro para a época, devido ao custo elevado de impressão dos discos. Todo o disco é um documento histórico, desde o aspecto artístico e gráfico, passando pela reportagem fotográfica contida no seu interior, até ao registo aúdio propriamente dito. De facto, quem adquirir este disco poderá escutar os momentos correspondentes à entrada do Papa no Santuário, os cânticos arrepiantes em uníssono de um milhão e meio de fieis, a Oração dos Fiéis, a Bênção dos Doentes que se encontravam no Santuário e parte (pensamos nós – ou a totalidade ?) da homilia papal.
Para os leitores interessados, deixamos um largo excerto de tal documento histórico.

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domingo, 9 de maio de 2010

SAGA - HOMO SAPIENS


A banda Saga, apesar de ter sido uma das mais originais bandas portuguesas dos anos 70, teve um percurso bastante efémero, tendo gravado apenas um disco, com o título de “Homo Sapiens”. Devido a esse carácter efémero o nome da banda é hoje praticamente desconhecido dos portugueses, facto para o qual contribuiu o estilo menos comercial que a banda adoptou, de acordo com a nova vaga de rock que paulatinamente se começava a instalar um pouco por todo o mundo.
Liderada por José Luis Tinoco, os Saga lançam com “Homo Sapiens” um dos discos mais aclamados pela crítica nesse ano, com temática centrada em torno da criação do Mundo e da sua quase destruição pela Segunda Guerra mundial, com especial destaque para o lançamento das primeiras bombas atómicas. Trata-se de mais um álbum de rock progressivo sinfónico, numa vertente bastante experimental à imagem de muitos registos musicais dos anos 70, com temas ora cantados ora narrados, transformando este conjunto de canções num trabalho literário e musical muito forte, como se de um autêntico cenário auditivo se tratasse. Os temas “Invasão” e "Hiroshima" são disso um exemplo, roçando a fronteira do teatro musical acompanhado por excelentes instrumentalizações plenas de dramatismo.
Apesar da contemporaneidade que se quis retratar com aquele trabalho musical, para além das letras escritas por José Luis Tinoco, foram adaptados muitos poemas de poetas da portugueses da Alta Idade Média, como é o caso de Nicolau Tolentino e Sá de Miranda, que se uniram ao dramatismo deste trabalho musical corporizado no seu expoente máximo através dos poemas declamados por Sinde Filipe.
Apesar de estarmos perante um dos mais importantes discos já alguma vez gravados, não existe ainda por parte de qualquer editora portuguesa, a sua reedição em cd. Este disco foi reeditado apenas por uma editora coreana em 2001, sendo hoje um dos discos de vinil portugueses mais procurados no mundo inteiro. O facto de as editoras estrangeiras aproveitarem o que de melhor se faz em Portugal, impedindo assim o esquecimento geral de bons trabalhos musicais, já começa a ser recorrente, tendo aliás ocorrido com imensas bandas portuguesas da década de 70. Para os que não conhecem este trabalho, deixamos aqui um excerto do disco.


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sábado, 1 de maio de 2010

O Primeiro de Maio


Em Maio de 1974, celebrou-se pela primeira vez em Portugal após longos anos de interregno, o Primeiro de Maio, cinco dias após a Revolução dos Cravos, num clima de verdadeira tensão, onde eram esperados alguns confrontos e reacções provindas de sectores não familiarizados com as novas ideias que rapidamente emergiam após a recente revolução de Abril. No entanto, contrariamente ao esperado, as celebrações do dia 1 de Maio em Portugal, acabaram por ser pacíficas, transformando-se numa verdadeira manifestação espontânea e numa festa da união popular e dos trabalhadores portugueses.
O mote “O povo unido jamais será vencido” foi repetido vezes sem conta por milhares de manifestantes no conjunto global de manifestações que se deram um pouco por todo o país. Associada a este evento, a Emissora Nacional transmitiu durante mais de 6 horas de emissão uma reportagem contínua sobre o evento através dos seus emissores regionais, da Madeira e dos Açores e ainda através do Rádio Clube de Moçambique e da Emissora Oficial de Angola. Ainda sobre a égide do Movimento das Forças Armadas, a manifestação do 1.º de Maio de 1974, foi uma das primeiras manifestações da liberdade de expressão em Portugal após o 25 de Abril de 1974. Conforme se refere no pequeno texto escrito na capa gatefold do disco vinil que regista para a posterioridade esse momento, aquele dia tratou-se, sem dúvida, de “uma jornada de luta por uma vida melhor” de todos os trabalhadores portugueses, os quais, de acordo com a legislação em vigor à época, lutavam por direitos que embora hoje sejam constitucionalmente reconhecidos como fundamentais, na altura nem sequer existiam e que, certamente, começaram a materializar-se nas manifestações de massas do 1.º de Maio.
Aos microfones da Emissora Nacional, falaram várias personalidades, trabalhadores, ex-presos políticos e até ex-músicos exilados (como é o caso de Luís Cília, cuja voz também é possível ouvir neste disco), num relato radiofónico impressionante, sobretudo para as gerações mais novas, as quais poderão , através deste registo, fazer um esforço imaginativo de memória, recuando atrás no tempo e tendo a percepção da realidade portuguesa nos dias que imediatamente se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Excertos dessas seis horas de emissão foram registados em disco, sendo hoje, no dia em que se comemoram 36 anos após o registo desse conteúdo discográfico, o momento ideal para partilharmos com os nossos ouvintes a memória desse dia.

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