sábado, 8 de fevereiro de 2014

Beatriz de Sousa Santos - Uma vedeta totalmente ignorada

Uma das figuras mais distintas da música portuguesa de todos os tempos é também simultaneamente uma das mais esquecidas pela nossa imprensa (mesmo a especializada). Cabe-nos a nós contribuir para que a memória de alguns sobreviventes dessa época não se esmoreça, bem como contribuir para que outros fiquem a conhecer (ainda que com algumas décadas de distância) essa grande pianista que foi Beatriz de Sousa Santos.
Beatriz de Sousa Santos era uma artista peculiar e foi esse aspecto que sempre a caracterizou. De facto, não podemos olvidar que na época de 40 e 50 foi uma das poucas mulheres que se destacou como instrumentista num universo predominantemente masculino. Contudo, a singularidade de Beatriz de Sousa Santos vai muito para além disso, pois outras mulheres solistas instrumentistas co-existiram na mesma altura. O que mais se destaca é simplesmente a linha artística que a mesma seguiu, pois embora tivesse adoptado como instrumento de eleição o piano, afastou-se da linha clássica da altura, aderindo aos ritmos modernos sobre teclas e à improvisação sobre temas estrangeiros aprendidos de ouvido em noites às claras junto ao seu rádio receptor.

Em inícios de 1944, o director musical da NBC, enviou-lhe um telegrama com uma proposta milionária para actuar nas emissões normais daquela estação. O telegrama tinha os seguintes dizeres: “Oferecemos contrato de executante de piano, música moderna, com ordenado anual de dez mil dólares para actuar nas emissões normais da N.B.C. Queira responder”. 
Contudo, contrariamente ao que fora noticiado na época com grande destaque na imprensa, Beatriz de Sousa Santos, acabou por recusar tal convite, ficando-se por Portugal onde fez toda a sua carreira, fosse como pianista residente do Hotel Mundial (onde terá permanecido cerca de 19 anos), seja na Emissora Nacional, onde colaborou com assiduidade com Mota Pereira, no Centro de Preparação de Artistas de Rádio, desde a sua fundação em 1947. Não deixa de ser curioso que Beatriz de Sousa Santos chegou a confessar ter medo das audiências de milhões de ouvintes nos Estados Unidos ao mesmo tempo que admitia ser um sonho trabalhar com os coros de All Johnson, ou conhecer Bing Crosby ou Vera Lynn, que na altura fariam furor na N.B.C. Terá sido a sua exagerada modéstia que a impediu de se tornar mundialmente famosa, não duvidamos.
Beatriz de Sousa Santos, nos anos 40


Temos plena consciência que as novas gerações provavelmente nunca ouviram falar de Beatriz de Sousa Santos, pois o apogeu da sua carreira ocorreu há mais de 50 anos , durante as décadas de 40 e de 50 do século passado. No entanto, não deixamos de lamentar que tão ilustre e mediática figura não conste em qualquer obra de carácter enciclopédico virada para a música ou para as artes e o espectáculo. Uma verdadeira lacuna. Veremos o que o futuro nos reserva.
Escusado será dizer, como aliás bem se salienta no blogue “Isto é Espectáculo” que Beatriz de Sousa Santos morreria na miséria, totalmente esquecida pelo público e por aqueles que outrora do seu talento se serviram para promover a imagem da cultura e do talento dos portugueses.
Caso algum leitor disponha de mais dados sobre esta figura incontornável gostaríamos que entrasse em contacto connosco. Para já, deixamos para os nossos ouvintes e leitores uma pouco da música de Beatriz de Sousa Santos.



Beatriz de Sousa Santos 
Alvorada MEP 60209
A1) Canção do mar - Estoril - Sempre que Lisboa canta 
A2) Chove lá fora - La paloma - Cielito lindo
B1) Flamingo - Woman in love
B2) La piu bella del mondo - Parole e musica - Chau Chau bambina

Clique no play para ouvir a última canção do lado B.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Alberto Ramos - Falecimento

Foi com enorme pesar que soubemos, pela família de Alberto Ramos, que este faleceu ontem em Cascais aos 83 anos. Infelizmente, por falta de tempo (devido aos nossos afazeres profissionais) não nos foi possível actualizar com mais informação e na devida altura o texto que aqui escrevemos sobre Alberto Ramos, que gentilmente entrou em contacto connosco, após leitura desse texto. 
Infelizmente também, por motivos de saúde daquele, também não conseguimos em devido tempo encontrar-nos pessoalmente com Alberto Ramos, que nos iria contar histórias de uma longa vida dedicada ao espectáculo.
Ainda assim, conseguimos ainda em vida deste presenteá-lo com um CD com cópia de todas as suas gravações dos seus discso que se haviam extraviado, para grande seu grande contentamento. É este lado mais humano do nosso blogue que tanto nos orgulha.
A toda a família, deixamos as nossas sentidas condolências.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Santinho das Neves - Arriba a leva

São poucos os artistas que conhecemos que conseguiram conciliar a actividade artística com qualquer outro tipo de actividade profissional. Em regra, a primeira era preterida em favor da segunda, face à escassez de espectáculos regulares e, sobretudo, porque do ponto de vista financeiro a vida artística era pouco atraente para a esmagadora maioria dos artistas.
Ainda mais raro era a conciliação das lides do espectáculo com o desporto. Não porque existisse um antagonismo necessário entre estas actividades, ou uma suposta incompatibilidade entre a vertente física e a vertente mais artística do ser humano, mas sim porque também neste domínio não existiam grandes oportunidades de prosseguimento de uma carreira desportiva em regime profissional. Ainda assim, de memória, relembramos, por exemplo, entre outros, o caso da cançonetista Manuela Novaes que se sagrou campeã nacional de lançamento do disco e do ex-futebolista Diamantino (não confundir com Diamantino Miranda, glória do Benfica) que também gravou discos, ou ainda de um caso bem mais conhecido a nível mundial: Júlio Iglésias, guarda-redes (suplente) do Real Madrid, que atingiu sucesso à escala planetária.


O caso que recuperamos hoje do esquecimento é também de um atleta do Sporting Clube de Portugal (entre outros clubes) de nome Manuel Santinho das Neves, que foi nada mais, nada menos do que 10 vezes campeão nacional de lançamento do dardo. Para uma parca biografia da sua carreira, socorremo-nos da contracapa do disco, onde se pode ler que Santinho das Neves começou a cantar e a tocar viola ainda em garoto, tendo começado a cantar em público nas suas deslocações ao estrangeiro, em Copenhaga, Malmo, Amsterdão e nas ex-colónias portuguesas. Contudo, o seu compromisso com o atletismo foi retardando a gravação do seu primeiro disco (e único que dele conhecemos), cuja produção, aliás, foi interrompida por diversas vezes devido a competições no estrangeiro.
Não deixa de ser curioso o facto de aí se escrever também que este era o primeiro disco de um português que, em Portugal era conhecido apenas como atleta mas que no estrangeiro era conhecido sobretudo como um artista. È que na verdade, em Portugal, Santinho destacou-se sobretudo no atletismo, principalmente na disciplina do Lançamento do Dardo, quando “na época de 1959, durante o Torneio Primavera, conseguiu um surpreendente lançamento de 64,03m, que era simultaneamente Recorde Nacional e Recorde Ibérico. Posteriormente melhorou várias vezes esse recorde, até o fixar em 71,38m, durante um Portugal-França disputado em Julho de 1966, uma marca que perdurou mais de 18 anos. A sua carreira teve altos e baixos, em grande parte porque se radicou em França, pelo que só vinha a Portugal na altura das competições principais, mostrando-se sempre disponível para ajudar o Sporting e destacando-se pela positiva com os 5 títulos de Campeão de Portugal do Lançamento do Dardo, obtidos entre 1962 e 1972, quatro dos quais em representação do Sporting (1962, 1967, 1971 e 1972) e um enquanto atleta individual (1965).” 

Foto e texto em itálico, da Wikipedia do Sporting, in http://www.forumscp.com/wiki/index.php?title=Santinho_das_Neves
Em termos de vida artística, desconhecemos se Santinho das Neves tenha gravado discos em França, ou se o disco que hoje apresentamos não terá passado de uma mera aventura isolada. No entanto, apesar de não se tratar de um disco surpreendente, não podemos deixar de salientar os interessantes arranjos de Jorge Machado, que dão aos quatro temas que compõem o disco um salutar equilíbrio entre a vertente orquestral e a vertente popular das canções que o compõem,  “Sapatinho” e “Arriba a leva” (de cariz popular)  e os restantes dois temas “De cabeça à roda“ e “Ver o mar”, curiosamente com música do também atleta e respeitado sportinguista Moniz Pereira, também elas num registo a lembrar o canto popular. 

Fica então um excerto destas quatro canções para os nossos leitores.


Santinho das Neves 
RCA Victor TP 596
A1) De cabeça à roda (Moniz Pereira - Fernando Correia)
A2) Sapatinho (Popular - Arranjos - Jorge Machado)
B1) Ver o mar (Moniz Pereira - Emílio Vasco)
B2) Arriba a leva (Popular - Arranjos Jorge Machado)

sábado, 16 de novembro de 2013

Conjunto de Bártolo Valença - Na quinta do Zé Tomás

Abordaremos hoje um artista que outrora teve importante mediatismo em Portugal, tendo realizado inúmeras tornées no estrangeiro, ora acompanhado pelos seus “Rapazes do Ritmo” ou mais tarde com a “Rapsódia Portuguesa”, este último um grupo popular de expressão artística bastante diversificada, conforme explicaremos adiante. Durante várias décadas foi presença assídua em algumas das mais populares casas de fados de Lisboa, embora tivesse sido, ironicamente numa boite que permaneceu mais anos seguidos enquanto músico residente. Falamos, naturalmente, de Bártolo Valença.
É difícil quantificar em qual dos dois grupos acima referidos Bártolo Valença atingiu maior notoriedade. Se no grupo popular “Rapsódia Portuguesa”, fundado mais tarde, no qual conjugou as danças com o folclore, ou se nos “Rapazes do Ritmo”, com o qual editou inúmeras gravações comerciais e no qual se estreou (provavelmente) no início dos anos 50. No entanto, inclina-mo-nos para os Rapazes do Ritmo, designação ligeiramente enganadora para os menos informados e que poderá induzir em erro, na medida em que os Rapazes do Ritmo não eram nenhum “conjunto de ritmo” ao jeito de Shegundo Galarza ou de Mário Simões, mas antes um grupo que apresentava uma música toponímica e popular-humorística, com recurso a instrumentos de cariz tradicional.

No que à sua longa carreira diz respeito, em poucas linhas, poderemos dizer que (ao contrário do que se possa pensar) a mesma não teve o seu início na música e que tampouco foi Bártolo Valença o fundador dos Rapazes do Ritmo. Efectivamente, a sua tendência artística sempre foi para o bailado, mas foi quando surgiu o convite para substituir o vocalista original desse conjunto (cuja identidade desconhecemos) que surgiu a sua grande oportunidade para singrar na vida artística, tendo assumido as funções de coordenador do conjunto e de executante. Depois de uma estreia num programa rádio publicitário, os Rapazes do Ritmo alcançaram grande êxito durante mais de 7 anos consecutivos, tendo o auge de popularidade sido atingido na década de 50 e apenas refreado quando Bártolo Valença, paralelamente com os Rapazes do Ritmo, decide fundar a Rapsódia Portuguesa.
Sobre aquele aspecto, conforme realçava o próprio artista, nunca houve realmente uma transformação dos Rapazes do Ritmo em Rapsódia Portuguesa, na medida em que ambos coexistiam, passando aqueles a fazer parte deste conjunto, numa tentativa (conseguida) de divulgação do folclore português. “A Rapsódia Portuguesa” era composta por 16 elementos, uma verdadeira aguarela de danças e cantares da nossa terra, exigindo de todos um grande esforço físico e artístico despendido por actuação, combinado tradições do Ribatejo, fado bailado, bailinhos da Madeira, cantares da Nazaré e de Trás-os-Montes, entre outras evocações.
Foto da Rapsódia Portuguesa, com Bártolo Valença em primeiro plano.
A longevidade de Bártolo Valença fazia, à data do seu eclipse, inveja a muitos outros artistas. De facto, manteve-se em cartaz, sem interrupção, desde 1956 pelo menos até 1971 (cerca de 9 anos no Restaurante Faia e 7 anos no famoso Maxime), apresentando, conforme se referiu, música vincadamente portuguesa ou de características folclóricas, cantando, dançando, representando, fazendo humor e apresentando o seu espectáculo em vários idiomas. Bártolo considerava-se um verdadeiro animador (mais comummente, um show-man, ou M.C. - Mestre de cerimónias), o que efectivamente era, um verdadeiro homem-espectáculo, que percorria o folclore do norte minhoto ao Algarve litoral, durante cerca de 3 horas por noite nos seus espectáculos no Maxime.
A canção que escolhemos para hoje faz um resumo do ambiente do conjunto bem disposto, que eram os Rapazes do Ritmo e do espírito das suas canções: alegres, divertidas e populares. Não falta nesta recriação o zurrar do burro, a ovelha, a galinha, e muitos outros animais da quinta do Zé Tomás tão bem recriada neste curtos 3 minutos que hoje deixamos aos nossos leitores.  



Clique no Play para ouvir um excerto da canção

sábado, 19 de outubro de 2013

Cânticos Espirituais - Pelo Grupo Português Cantoras do Evangelho

Retomamos hoje o contacto com os nossos leitores com uma abordagem radicalmente diferente, isto se atendermos ao género de registos sonoros com que temos presenteado os nossos ouvintes até à presente data. Apresentamos, nada mais nada menos, do que aquilo que poderemos considerar como uma espécie de espirituais negros cantados por mulheres portuguesas brancas. Se tal, por si só, já não era nada vulgar à época, ainda mais interessante é o facto de tais espirituais serem cantados com letra portuguesa, embora a maior parte deles resulte de versões de espirituais americanos.
Os Cânticos Espirituais que apresentamos foram gravados algures em Moçambique (ou na África do Sul) por um denominado grupo “Cantoras do Evangelho“, distribuídos em formato EP pela etiqueta Sul-Africana Teal, provavelmente por portuguesas radicadas em Moçambique (ou na África do Sul). Através destes espirituais brancos, que fogem categoricamente da linha do blues, encontramos talvez a continuação (ainda que de outra forma) da veia evangelizadora iniciada pelos cristãos portugueses há séculos atrás, com particular incidência em África.


De salientar que existem naturalmente outras gravações de índole religiosa em Portugal, mas que na sua grande maioria pertenciam a intérpretes (Irmãs) que se faziam acompanhar ora rítmica ou coralmente, ou seja, à guitarra acústica (um pouco à imagem das irmãs americanas) ou então pelos coros de igreja ou de mosteiros. Cremos, portanto, tratar-se de um registo invulgar. 
No que às intérpretes diz respeito, estamos na presença de duas solistas, Angelina Oliveira e Júlia do Cerro, esta última que aparentava ter alguma popularidade, de acordo com a informação vertida na contracapa do disco. O acompanhamento é rico, através do piano de Joan Potgieter, o orgão de Kitty Wilson e o violino e bandolim de J. do Cerro Guerreiro, provavelmente Joaquim do Cerro, um pastor-missionário evangélico que foi em missão para Moçambique em 1947. A invulgaridade deste disco parece sair ainda mais reforçada se atendermos ao facto de Joaquim do Cerro ser um católico protestante, facto que nos poderá conduzir à conjectura de estarmos perante espirituais de base protestante. Ficará certamente a dúvida, até que alguém nos esclareça, bem como a dúvida de qual o grau de parentesco ou afinadade da solista Júlia do Cerro com Joaquim do Cerro.

Contracapa do disco, com imagens das solistas
Como é evidente, este grupo português “Cantoras do Evangelho” não teria nenhuma vertente comercial, nem as suas componentes qualquer pretensão de estrelato, bem pelo contrário. A reserva e o anonimato destas evangelizadoras por certo fez com que com o decorrer dos anos se tornasse impossível recolher qualquer informação sobre estas intérpretes restando apenas os cânticos e a mensagem de fé neles incorporada para a posterioridade.



Clique no Play para ouvir um excerto das canções

sábado, 12 de outubro de 2013

Abel de Melo - De viva voz

O disco que escolhemos para hoje tem como figura central um ilustre desconhecido, de nome Abel de Melo, cantor que lançou para o mercado algumas canções no período imediatamente ao 25 de Abril de 1974 e que desde então imergiu no anonimato. À primeira vista poderia tratar-se de mais um (de entre muitos) cantores e baladeiros de mensagem política e panfletária do chamado “período revolucionário em curso”. No entanto, neste disco, o interprete afasta-se substancialmente do rótulo de baladeiro panfletário, socorrendo-se de uma sonoridade de cariz funk-rock, inserida já num conceito amplo de canto de intervenção. Ou seja, as canções deste single afastam-se de forma radical da linha musical da maioria dos cantores de protesto, alicerçando-se antes numa poética mais rica, em contraposição com a poesia fácil e até pobre de muitos outros, na qual quase sempre pão rimava com a palavra produção ou revolução.
Assim, é a música propriamente dita que assume um papel muito importante neste disco, sendo a sua força bem notória, bem mais do que as palavras, embora não olvidemos que estas também sejam entoadas com uma forte mensagem a elas associada, numa corrente apologística da mudança de regime e de esperança, dirigidas a um destinatário colectivo, o povo.


Curiosamente, de Abel de Melo, conhecemos ainda um registo musical marcadamente mais intimista, em que são apenas as palavras e a nua guitarra que compõem o disco, o que não deixa de ser enigmática a razão de tal viragem... No entanto, já antes Bob Dylan se transmutara radicalmente e a qualidade da sua música manteve-se intocável. E o mesmo se dirá de Abel de Melo, que tanto num como no outro disco referido, interpreta excelentes canções. No que a este disco diz respeito, salienta-se desde logo que é um interessante registo, facilmente enquadrável numa onda “groove”, pouco comum no contexto da época, um género musical claramente sem (tanta) conotação com o cariz político partidário, talvez pretendendo assim demarcar-se da corrente principal dominante na música interventiva do pré-25 de Abril. É, portanto, sem dúvida alguma, um disco de pop-rock, disfarçado de música de intervenção, embora a inversa também seja verdadeira. Por outro lado, salienta-se a interessante associação com Mike Sergeant, um dos melhores arranjadores “portugueses”, que assumiu os arranjos e direcção do conjunto que acompanhou Abel de Melo. Mais uma vez, não há qualquer informação no que diz respeito à ficha técnica do disco, para além da mencionada, o que é pena, pois de facto o disco resultou num excelente trabalho, com arranjos extremamente conseguidos que dão uma frescura às respectivas temáticas, em contraposição com o estilo mais sofrido de outros intérpretes da época. Sabemos, contudo, que um anterior single de Abel de Melo, gravado em finais de 1974, com os temas “Alerta Camarada” e “Criança Loira”, também com arranjos de Mike Sargeant, teve como acompanhantes o próprio Mike Sergeant, Filipe Zav, Daniel Louis e José Machado, pelo que poderemos muito bem admitir como possível, dada o curto lapso temporal existente entre um single e outro e a mesma editora, que o trabalho que hoje apresentamos tenha como músicos os mesmos acima referidos.
Já no que diz respeito a Abel de Melo, dele não obtivemos, até ao momento, qualquer informação, embora suspeitemos que se terá transformado num fadista, em conformidade com a gravação que encontramos no youtube, mas sobre a qual não existem grandes comentários que nos permitissem saber algo mais sobre este misterioso cantor.


Clique no Play para ouvir um excerto deste single

Abel de Melo 
Ad Libitum SIN 231
Lado A - De viva voz (Abel de Melo/ José Viana) 
Lado B - Balada para um poeta (Abel de Melo/ Manuel José Caldeira)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Maria Amália - Tomem lá beijinhos

Por vezes, através dos textos que publicamos no Bairro do Vinil, temos conseguido entrar em contacto com diversas pessoas ligadas à vida artística que nos têm fornecido informações privilegiadas não só sobre si próprias como também sobre outros parceiros das lides musicais. De todos esses contactos que temos mantido nos últimos meses, há ainda alguns mistérios que conjuntamente continuamos a tentar desvendar. Há um caso que para nós era até há pouco tempo ainda um mistério na medida em que nem nós, nem a diversa gente ligada ao fado com quem temos contactado, conseguia descortinar quem tinha sido tal personagem. Falamos da fadista Maria Amália, uma fadista que na década de 50 gravou, pelo menos, 3 EP's para a popular editora Alvorada, num conjunto total de 12 fados, a sua grande maioria da dupla João Mateus Junior/ Walda Rodilles Mateus.

O mais curioso de tudo (e também o que mais nos intrigava) é o facto de pelo menos uma das suas criações ser um fado sobejamente conhecido no universo dos fadistas. O tema tem o sugestivo título de “Toma lá beijinhos” da autoria da dupla atrás referida, sendo o seu refrão cantarolado por muitos fadistas que, ainda que hoje não se recordem da letra completa mas que do seu refrão não se esquecem, conforme tivemos ocasião de constatar nas diversas conversas que mantivemos com alguns dos fadistas mais “antigos” sobre este assunto.
Acresce ainda referir (acentuando ainda mais o mistério sobre Maria Amália) que das 3 (bonitas) capas de discos que lhe conhecemos não consta qualquer fotografia da fadista. O mesmo se diga relativamente à contracapa. Por outro lado, de toda a imprensa da época à qual temos tido acesso não encontrámos ainda qualquer referência à fadista Maria Amália, embora tenhamos que admitir que no campo do fado nos faltam ainda muitas referências sobre as principais fontes de informação das épocas de 30 a 50 no que a este género diz respeito.
No entanto (como não desistimos facilmente nem à primeira nem à segunda tentativa) e como o nosso desejo em conhecer algo mais sobre esta fadista era realmente supremo, conseguimos apurar muito recentemente que Maria Amália terá abandonado a vida artística em 1960, altura em que emigrou para o Reino Unido, onde constituiu família juntamente com o seu marido, um cidadão nigeriano. Fruto desse casamento nasceram vários filhos, muitos deles hoje ligados à vida artística.
Maria Amália, nos anos 50
Infelizmente, a vida é madrasta e a morte é efectivamente a única certeza que conhecemos ao longo da vida. Quando há poucos dias conseguimos identificar e saber do paradeiro de Maria Amália estávamos longe de imaginar que ainda há cerca de dois, três anos (altura em que começámos a procurá-la) ainda se encontrava viva e de boa saúde. Contudo,  Maria Amália (ou Maria de Lourdes, seu possível verdadeiro nome) faleceu recentemente no primeiro trimestre de 2013, com a idade provável de 80 anos, uma vez que terá nascido entre 1932 e 1933. Não conseguimos, portanto, estabelecer contacto com esta artista, com muita pena nossa. De igual modo não lográmos ainda estabelecer contacto com os seus descendentes, algo que acreditamos estar para breve, não fosse o mundo cibernético uma aldeia cada vem mais global e pequena.
Sobre Maria Amália restam-nos, para já, apenas os discos, a sua voz e uma única foto que conseguimos recuperar. Devido à ausência de informação, abreviamos ao máximo este texto, na esperança de regressarmos em breve com mais informações, fruto da ajuda dos nossos leitores e quem sabe, dos familiares de Maria Amália. 


Para elas, principalmente, tomem lá beijinhos...

Maria de Pádua - Dobadoira / S. João das Orvalhadas

Apesar do mediatismo (e algum vedetismo) proporcionado pela imprensa social da época a alguns cançonetistas, nomeadamente a partir da criação do Centro de Preparação de Artistas de Rádio da Emissora Nacional, a grande verdade é que eram poucos aqueles que se dedicavam exclusivamente à vida artística, dela retirando o seu sustento. A grande maioria, mais não eram do que artistas amadores que em determinado momento gozaram de alguma popularidade, através de esporádicas aparições em programas de rádio e em alguns Serões para Trabalhadores e que rapidamente se desvaneciam no anonimato.
Como é fácil de compreender, tais artistas raras as vezes conseguiam conciliar a sua vida profissional com a vida artística. Os homens viam-na ser interrompida (muitas vezes para sempre) pela obrigatoriedade do cumprimento do serviço militar. No que às mulheres diz respeito, a vida artística, na maior parte dos casos, não passava de uma mera experiência de meninas que precedia a devoção à vida do lar antes do anunciado  fim do percurso artístico. Aliás, o casamento foi mesmo umas principais razões para que muitas artistas da Emissora Nacional tivessem abandonado ou optado por um rumo diferente e mais reservado na sua carreira. Dois exemplos supremos são, sem dúvida alguma, Maria de Fátima Bravo (cuja voz se imortalizou na canção “Vocês sabem lá”) e Júlia Barroso (uma das primeiras vedetas da rádio e a primeira rainha da Rádio, eleita pelos leitores da popular revista Flama) que muito cedo abdicaram das suas carreiras em favor do casamento. Outros exemplos poderíamos deixar aqui, mas reservaremos os outros para uma próxima mensagem, uma vez que a que temos em mente para hoje tem por objecto uma outra temática.


Conforme referimos, também houve casos em que nomes mais ou menos conhecidos da nossa rádio conseguiram conciliar a sua vida profissional com a vida artística, mantendo a estabilidade dos seus empregos ao mesmo tempo que seguiam cantando e gravando discos. Dois desses exemplos são Maria de Pádua e Almerinda Stella, as quais partilhavam ainda uma interessante coincidência: ambas eram funcionárias dos Correios e ambas gravaram vários discos, seja em formato 78 rpm, seja mais tarde em formato 45 rpm. Se relativamente a Almerinda Stella obtivemos já a informação de que faleceu recentemente, o mesmo já não poderemos dizer sobre Maria de Pádua, cujo paradeiro e informações biográficas continuam a ser um mistério, dada a quase ausência de registos escritos na imprensa da época sobre tal artista. Nem mesmo, através do contacto com alguns artistas da década de 40 e 50 lográmos obter qualquer informação sobre o paradeiro de Maria de Pádua.
Ainda assim, recolhemos algumas informações que partilhamos com os leitores mais interessados na esperança de obtermos um retorno de informações sobre esta artista que há cerca de 60 anos atrás gozou de alguma popularidade.
Maria de Pádua, à saída dos Correios em 1954.

Maria de Pádua estreou-se na Emissora Nacional, muito provavelmente em Novembro de 1951 no programa "Passatempo", tendo (já depois de tirar a carteira profissional no ano seguinte) continuado a vida artística até pelo menos 1954, altura em que (numa entrevista) confessara já estar desiludida com a vida artística, devido à falta de oportunidades. Contudo, nessa mesma entrevista, simultaneamente manifestava o seu desejo em “triunfar custasse o que custasse, para depois se retirar com satisfação de ter provado que possuía algum valor“. Ou seja, pelo que podemos perceber com tal afirmação, era bem provável que por essa altura o fim da carreira artística e discográfica de Maria de Pádua estivesse a atingir o seu limite, não sendo alheio o facto de não se lhe conhecer nenhuma nova gravação para o catálogo Alvorada durante toda a restante década de 50, senão a recuperação de números antigos anteriormente gravados em 78 rpm para a etiqueta Melodia (Dobadoira e Orvalhadas de S. João) mais tarde incluídos num EP daquela editora lançado para o mercado em 1959, juntamente com outras duas interpretações de Maria Amélia Canossa e do Conjunto de João Aleixo.
Facto digno de registo é que Maria de Pádua cantava também em francês e em italiano, tendo ainda no seu repertório números regionais, género do qual terá sido uma das primeiras intérpretes. Não obstante tal mediatismo, Maria de Pádua, sempre teve oposição da família quanto à sua intenção de prosseguir com a vida artística, sendo para nós uma incógnita qual o rumo que a sua carreira tomou após 1954. Terá abandonado por vontade própria, descontente com o panorama musical da época, face à emergência das primeiras vedetas da canção ? Terá casado ? Terá emigrado para África na companhia de um suposto marido ? Seria o nome de Mária de Pádua um nome meramente artístico, face à abundância de “Marias” na Emissora Nacional ? Não sabemos. Apenas sabemos que era funcionária dos CTT, conforme já referimos anteriormente, exercendo o seu posto na Praça dos Restauradores, em Lisboa. A respeito dos CTT não deixa de ser curioso também que também nesse ano, foi gravado ainda para a mesma editora um disco do Coral dos CTT. Teria Maria de Pádua pertencido ao Coral dos CTT ? No referido disco, como era hábito na altura, a ausência de informação era a regra geral e, para não fugir à regra nenhuma referência à composição do coro encontramos no referido disco, pelo que também essa pista pouco nos ajudará de futuro. Resta-nos, mais uma vez e como já vem sendo hábito, aguardar que algum leitor nos ajude a encontrar o paradeiro desta artista, cujos excertos de duas canções aqui deixamos aos nossos leitores.


Clique no Play para ouvir um excerto de "Dobadoira" e  "S. João das Orvalhadas"

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dinorah Carmén - Não ameaces

Certamente que só alguns entendidos do fado (e mesmo assim só aqueles de uma faixa etária mais elevada) se lembrarão do nome de Dinora(h) Cármen. Afirmamos isto de forma categórica por duas razões: a primeira prende-se com o facto de Dinorah Cármen ter tido um percurso musical em terras lusas há já muitas décadas atrás e, por outro lado, pelo facto desse mesmo percurso ter sido relativamente efémero, na medida em que Dinorah ter-se-á radicado nos Estados Unidos ainda na década de 60, aquando do seu casamento com um cidadão norte-americano. Aliás, ao fazermos esta pequena incursão pela figura de Dinorah Cármen, pretendemos simultaneamente (re) lembrar alguns artistas portugueses que fizeram carreira fora de portas e que elevaram mundialmente o fado e a música portuguesa além-fronteiras quase como verdadeiros símbolos da nossa identidade nacional. Alguns desses exemplos são sobejamente conhecidos, tais como Francisco José e Alberto Ribeiro (no Brasil), António Rossano e Clara d'Ovar (em Paris) e no que aos Estados Unidos diz respeito, os nomes de Maria Marques ou Valentina Félix são incontornáveis, entre muitos outros. 

Contudo, o caso de Dinorah Cármen é para nós muito mais interessante e enigmático, não só pelas razões que apontámos como também por ter sido a única artista portuguesa (que conhecemos) que cantou para o então presidente americano, J.F. Kennedy. É que embora conheçamos (até pessoalmente) alguns artistas portugueses que cantaram para presidentes e reis,  o caso de Dinorah Carmen, por ter envolvido a figura do carismático presidente americano (ainda que como mero espectador) assume desde logo uma áurea com todo o simbolismo que não podemos olvidar, uma vez que na memória colectiva da história mais recente da Humanidade permanecerá durante muitos anos a celebre actuação e demonstração de afecto de Marilyn Monroe quando cantou os parabéns ao presidente Kennedy numa cerimónia oficial. Obviamente que, no que diz respeito a esta artista portuguesa, tal episódio foi um mero acaso, com pouca ou nenhuma expressão mas que mesmo assim merece ser registado. 

Foto de Dinorah Cármen, constante na contracapa do disco.
Sobre a vida e carreira de Dinorah Cármen  conforme já aflorámos, pouco sabemos. No entanto, podemos adiantar que se estreou nos anos 50 num programa radiofónico do famoso Marques Vidal, no RCP, tendo ganho o primeiro prémio de um concurso de fados, organizado pelo poeta Francisco Radamauto. O famoso episódio com o presidente Kennedy, terá ocorrido em 1961 nas Bermudas, onde Dinorah actuou durante 6 meses,  tendo sido nessa altura que cantou para o presidente americano, que se encontrava na assistência num espectáculo realizado num hotel local. Nesse mesmo ano, em Novembro e uma vez regressada a Portugal, voltou ao ambiente das casas típicas, onde actuava no Bairro Alto. Em Maio de 1965, depois de ter conhecido o seu futuro marido, num outro restaurante típico da capital, anunciou o seu casamento por procuração com um cidadão norte-americano no mês de Junho seguinte, tendo sido nessa altura que gravou o seu primeiro disco, aproveitando a sua estadia em Portugal. Desde então, não mais se ouviu falar de Dinorah Cármen   E é tudo, para já, sobre esta fadista.
Não nos espantaria, contudo,  se Dinorah Cármen tivesse abandonado por completo a vida artística (conforme era, aliás, sua vontade) após o casamento, tal como fizeram muitas outras artistas da época. Gostaríamos de recolher mais informações sobre esta fadista que tão curto legado nos deixou e cujas gravações (ainda que de má qualidade sonora) partilhamos com os nossos leitores, pelo que nos mantemos, como sempre, à espera dos comentários dos leitores.


Clique no Play para ouvir o tema "Não ameaçes" 
Dinorah Carmen 
Alvorada AEP 60728
Lado A1 - Não ameaçes (Túlio Pereira/ Carlos Conde)
Lado A2 - Alguém (Miguel Ramos/ Dr. Guilherme Pereira da Rosa) 
Lado B1 - Eu sei (Alfredo Marceneiro/ Júlio de Sousa) 
Lado B2 - Para que nasci, meu Deus (João Maria dos Anjos/ Armando Vieira Pinto)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eduardo Futre - Chuva vai, chuva vem

Apresentaremos hoje um nome totalmente obscuro da nossa música popular e cuja expressão discográfica foi praticamente nula. Falamos de Eduardo Futry, ou mais correctamente, Eduardo Futre, artista que atingiu grande popularidade há muitas décadas atrás, principalmente no período compreendido entre o final dos anos trinta e o ano de 1955 e cujo nome foi acidentalmente recuperado em finais dos anos 70, ainda a tempo da sua voz poder ficar registada numa gravação sonora.
O caso de Eduardo Futre não é, no entanto, caso único no universo musical português. Existiram muitos artistas que, não obstante a sua popularidade e consagração, não gravaram qualquer disco ou qualquer canção (Um dos casos mais flagrantes é a cançonetista Patrícia, que chegou a ser capa de revistas e ter largos espaços em revistas da época durante mais de duas décadas sem nunca ter gravado qualquer disco. E muitos outros exemplos poderíamos deixar aqui registados...). Naturalmente os tempos eram outros, não sendo demais relembrar os jovens leitores que gravar comercialmente dois lados de um disco de 78 rotações era um acontecimento muito raro para um artista português, não estranhando, aliás, que a maior parte das gravações de artistas portugueses eram efectuadas no estrangeiro.


Mas voltemos a Eduardo Futre, que se apresentava em palco acompanhado com uma viola negra que na altura ficou célebre, interpretando (um pouco ao jeito de Horacio Reynaldo) canções do folclore brasileiro, bem como alguns temas originais, imprimindo-lhe sempre com um cunho muito pessoal, ainda que sempre influenciado pelo folclore carioca.
Natural de Setúbal, Eduardo Futre começou a cantar com apenas 17 anos, numa sessão de fados no Solar da Alegria. Desde então a sua carreira não mais parou, tendo tido relativo sucesso na época, à semelhança de outros seus pares. Com efeito, Futre era também presença assídua nos Serões da F.N.A.T. e em alguns espectáculos de variedades da A.P.A, do qual chegou a ser artista privativo, tendo feito inúmeros duetos com a célebre cançonetista da época Maria do Carmo. Actuou ainda noutros espectáculos de variedades ao lado de artistas consagrados da época, como Tony de Matos, Maria José Valério, Eugénia Lima e Luis Piçarra, entre muitos outros.
Eduardo Futre, cerca de 1950
Contudo, conforme já referimos, Eduardo Futre nunca gravou comercialmente na época do seu apogeu enquanto intérprete e artista. Curioso é que, surpreendentemente e ao contrário do que se possa imaginar, Futre não gravou qualquer disco, não por dificuldades de logística, mas sim por ter recusado o cachet de 500$00 que, então lhe ofereciam, para ir gravar a Espanha (provavelmente para a Ibéria) alguns números do seu repertório. Na verdade, na altura, Eduardo Futre entendeu que tal cachet era desajustado face ao valor e popularidade que gozava na época. Sobre essa recusa, Futre viria muitos anos mais tarde a arrepender-se, conforme confessou numa entrevista publicada já na década de 70 numa revista de actualidades.
Paulatinamente, o nome de Eduardo Futre foi desaparecendo das escaparates do mundo do espectáculo, tendo também, à semelhança de muitos outros, saído da então Metrópele para o Ultramar, onde foi animador privativo num barco durante dois anos. Pouco tempo mais tarde,com o casamento e posterior fixação de residência em Lourenço Marques, reduziu drasticamente a sua actividade artística, empregando-se como mecânico, afinador de máquinas, entre outros empregos ocasionais. Porém, o abandono total da actividade artistica, foi algo que nunca se verificou plenamente, nem mesmo quando andou pelo estrangeiro até ao seu regresso a Portugal.
Foi aliás, em finais dos anos 70, que a Editora PortugalCantante, sabendo do seu regresso a Portugal, registou, aquelas que pensamos serem as únicas gravações em disco de Eduardo Futre, anunciando Futre como o regressado "cantor luso-brasileiro" (o que, conforme já referimos, não corresponde à verdade, pois Eduardo Futre é português).
Aquando da gravação do seu primeiro disco, por certo já ninguém conhecia ou se lembraria de Eduardo Futre, que um dia regressou a Portugal com a ilusão de que seu nome ainda perdurava na memória colectiva dos portugueses. Contudo, não terá sido, assim, cremos... O tempo dos espectáculos radiofónicos já havia passado e as grandes orquestras ao serviço da canção estavam então reduzidas a uma verdadeira manta de retalhos. Ainda assim, Eduardo Futre teve a ousadia de acreditar no relançamento da sua carreira, deixando para a história da música gravada as gravações que hoje deixamos aos nossos leitores.


Clique no Play para ouvir "Chuva vai, chuva vem" 
Eduardo Futre - "Cantor Luso-Brasileiro"
Portugalcantante PCEP-027
Lado A1 - Compadre tá tudo certo (Eduardo Futry)
Lado A2 - Dez anos (D.R.)
Lado B1 - Chuva vai, chuva vem (Eduardo Futry)
Lado B2 - Porteira, suba e diga (D.R.)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Maria José e o Seu Mini Trio - Avózinha


Apesar de não sermos propriamente grandes entusiastas de registos discográficos interpretados por crianças (principalmente quando estas interpretam canções sobre sentimentos e temáticas na sua essência reservadas aos adultos), deixamos hoje um breve apontamento sobre os "mini-interpretes" que outrora foram muito populares entre nós e com uma vasta discografia. Relembramos assim, os casos de Zezinha Pereira, Linucha (e as Cigarrinhas), Maria Armanda e, num nível já totalmente diferente destes, os Mini-Pop (que mais tarde estariam na génese dos Jafumega). Daqueles nomes, excluímos muitos mini-intérpretes do fado, onde sempre existiram (e existirão) miúdos espalhados pelos bairros de Lisboa e Porto, tais como a "miúda da Boavista" (Maria de Fátima), a "miúda de Odivelas" (Helena Santos) ou a miúda de Alcântara (a conhecida e popular Marina Mota), entre muitos outros...
Deixando para trás tais breves considerações, apresentamos hoje um desses fenómenos de popularidade que foi a pequena cantora Maria José que se apresentava nos espectáculos com o seu Mini Trio, composto por jovens meninos com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos e que alcançaram grande popularidade durante o ano de 1967.


Contrariamente a outros grupos de jovens e à semelhança dos Mini-Pop, Maria José e o seu Mini Trio não faziam "playback" em palco, apresentando-se antes com instrumentos reais, liderados por Maria José (7 anos, organista), Alberto Cruz (8 anos, bateria) e Primavera (10 anos, vocalista e violista). Sabemos que o grupo era de Vila Nova de Gaia e era dirigido pelos pai de Maria José e de Alberto Cruz, Sebastião Silva e António Louro da Cruz, respectivamente.
Apesar do carácter unitário do grupo, a génese deste mini trio aconteceu aquando da gravação prévia de um disco a solo de Maria José, tendo sido nessa altura que o jovem baterista Alberto Cruz foi convidado a participar no projecto e a formar um duo que rapidamente se tornou num trio. Apesar de terem tido na época diversas actuações dignas de registo em casinos na zona Norte e também noutras zonas de Portugal, o certo é que naturalmente este trio acabaria por se desfazer em pouco tempo. No entanto, a nossa curiosidade leva-nos a tentar saber se os membros deste mini trio seguiram qualquer carreira musical futura ou se tal projecto terá sido apenas uma efeméride circunstancial no tempo.

Maria José e o Seu Mini Trio - Ao vivo em 1967
Como sempre, ficamos à espera de qualquer contacto que complete este nosso texto e que nos permita completar a história deste mini-trio.
Para hoje, deixamos aos nossos leitores, a interpretação da famosa canção "Avozinha" de José Guimarães, cantada noutros tempos pela cançonetista Sílvia Maria, cuja interpretação nos parece muito sentida pela pequena Primavera.


Clique no Play para ouvir "Avozinha" 
Maria José e o Seu Mini Trio
Rapsódia EPF 5.493
Lado A1 - O Natal e o emigrante (José Guimarães-Maria José)
Lado A2 - Nasceu Jesus (José Guimarães-Maria José) 
Lado B1 - Avózinha (José Guimarães-Maria José) 
Lado B2 - Natal do menino orfão (José Guimarães-Maria José)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Conjunto Típico do Val - Já me chamam yé-yé

Nas décadas de 60 e 70 do século passado proliferavam em Portugal dezenas, senão mesmo centenas, de conjuntos típicos. Nessa altura, principalmente no Norte do país, houve um súbito aumento dos interpretes desse género musical, que curiosamente aconteceu ao mesmo tempo e com o mesmo ritmo do aumento do movimento yé-yé em Portugal, embora os conjuntos afectos a este movimento se encontrassem na sua grande maioria no Sul do país, mais concretamente em Lisboa. Coexistiam então dois estilos bem diferentes de música portuguesa, uma de raíz marcadamente popular, com recurso a instrumentos acústicos e um outro de matriz marcadamente anglo-saxónica, onde imperavam as versões de temas ingleses e a electrificação do som. Da temática abordada pelos conjuntos típicos ressaltava, sobretudo, a referência às festas e aos Santos populares, o elogio às virtudes das mulheres, o amor, o emigrante, histórias humorísticas sobre peripécias do quotidiano, entre outros temas. Paralelamente a esses temas recorrentes, começaram a surgir, com alguma repetição, quatro temáticas às quais atribuímos particular interesse histórico: a mensagem política do imediato após 25 de Abril (já aqui explorada), o surgimento da moda da mini-saia em Portugal, a apologia ao Portugal Ultramarino e, por fim, a satirização do yé-yé, levada a cabo pelos conjuntos típicos em algumas das suas canções.
É precisamente sobre este último tema que hoje dedicaremos algumas breves palavras. De facto, para além das grandes diferenças inerentes a esses dois estilos musicais, existiam aspectos extra música que acentuavam a grande diferença entre o yé-yé e a música popular, estando o primeiro naturalmente associado à rebeldia dos ritmos modernos, sendo imagem de marca as vestimentas mais arrojadas dos "chicos yé-yé" e as guedelhas bem mais desordenadas do que os executantes dos conjuntos típicos. Contrariamente, os elementos dos conjuntos típicos actuavam quase sempre de uniforme igual e personalizado, quase sempre com o predomínio das cores mais aguerridas como o vermelho e o azul, contrastando com os blusões negros dos rapazes dos ritmos modernos.

Naturalmente que tudo isto não passaria senão de um mero pormenor caso não tivesse existido por parte dos conjuntos típicos constantes referências nas suas canções aos hábitos dos elementos dos conjuntos de yé-yé. Por exemplo, não raras as vezes aconteciam sátiras aos guedelhudos do yé-yé, bem como a um suposto estilo cool que só os yé-yés dispuham e que lhes permitia impressionar com muito mais facilidade uma donzela da época do que uma pessoa dita normal.
Relativamente à mensagem de hoje, por mais que queiramos, não conseguimos separar da nossa memória a imagem da capa do disco de um conjunto yé-yé dos anos 60, na qual aparecem todos os membros da banda em cima das respectivas motorizadas, equipados com os respectivos instrumentos eléctricos e vestidos com os seus blusões negros. Ora, nem por acaso, o conjunto chamava-se Blusões Negros e ocupou um sério destaque na música portuguesa da época, sendo curiosamente um conjunto do Norte. Também hoje escreveremos sobre um conjunto típico nortenho, formado no dia 25 de Abril de 1963 e que ainda há poucos anos se mantinha em actividade, o Conjunto Típico do Val, da Trofa, que por mais do que uma vez satirizou o Yé-Yé: no seu primeiro disco, lançado para a Alvorada, em 1973 com o tema "Cabeludos" e pouco tempo mais tarde, ainda nesse ano, através do tema "Já me chamam yé-yé", canção cuja interessante letra acaba por resumir todo este já longo texto. De facto, nela está presente a referência aos cabelos compridos, à berraria do yé-yé e até à loira femme fatale dos anos 60, tudo isto tendo como denominador comum a todos os versos a famosa motorizada V5 que imperou pelas estradas portuguesas durante toda a década de 60 até aos anos 90... e não só... De facto, ainda hoje vemos por algumas das nossas estradas secundárias exemplares únicos dessa motorizada. Aliás, qual de nós é que não teve ou tem um familiar que já tenha tido uma V5 ? 

Reprodução de uma motorizada SIS Sachs V5

A canção que hoje escolhemos, mais do que uma simples canção de um conjunto típico, acaba por ser, em nosso entender, uma interessante imagem da época do yé-yé, ao ponto de o vocalista do Conjunto Típico do Val dizer que por ter uma V5 já lhe chamavam yé-yé. É certo que hoje os tempos mudaram e que, infelizmente, o Portugal "moderno" é hoje o reflexo de uma sociedade de kizomba e hip-hop, onde já nada nos caracteriza pela nossa genuinidade, a não ser mesmo o vazio que a nossa cultura vai atingindo.


Clique no Play para ouvir "Já me chamam yé yé" 

Conjunto Típico do Val 
Alvorada EP-60-1474 
A1 - Cristo amou (José Faria / Júlio Arlindo)
A2 - Rio Ave (José Faria / Júlio Arlindo)
B1 - Desfile na parada (António Mafra / arranjo José Faria e Júlio Arlindo)
B2 - Já me chamam yé-yé  (José Faria / Júlio Arlindo)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Maria Helena - Uma artista renascida


Confessamos que o texto sobre a artista que hoje trazemos à memória não estava, pelo menos para já, dentro das nossas cogitações imediatas. No entanto, um episódio que tem tanto de insólito como de lamentável, apressou-nos a escrever com urgência um texto sobre a artista brasileira Maria Helena, que durante alguns anos fez sucesso em Portugal, país que, aliás, sempre a tratou como se de uma verdadeira portuguesa se tratasse.
Conforme já referimos, Maria Helena era brasileira. Nasceu nos anos 40 , no estado de S. Paulo, no seio de uma família de alta aristocracia brasileira. Seus pais, empresários de profissão, incentivaram-na a tirar um curso de letras no Brasil. No entanto e contra a vontade da família, Maria Helena sempre quis ingressar no mundo do espectáculo, ansiando ser cançonetista, embora nunca tivesse tido aulas de canto para o efeito, tendo apenas tirado um curso de piano. Como que renunciasse a toda a vida abastada que os seus pais lhe poderiam oferecer, Maria Helena, já nos meandros da vida artística e integrada num conjunto local brasileiro (cujo nome não conseguimos apurar mas que tinha como elemento o pianista Robledo, que tocou com Agostinho dos Santos), teve a oportunidade de um dia vir a Lisboa em inícios dos anos 60 com o seu conjunto a fim de cumprir um contrato num cabaret lisboeta. Terá sido, portanto, nessa altura que Maria Helena veio a Portugal pela primeira vez, sempre contra a vontade da sua família. Uma outra versão sobre a primeira estadia de Maria Helena em Portugal existe ainda, que é a que temos lido em algumas revistas da época, referindo que Maria Helena terá vindo a Portugal como simples turista e que por cá ficou, após terem descoberto a sua voz por mero acaso. No entanto, parece-nos, pela análise da (escassa) "documentação" que temos sobre esta artista, que esta segunda versão não passará de um resumo romanciado e fantasiado sobre vinda de Maria Helena a Portugal pela primeira vez. De facto, o que podemos assegurar é que a sua vinda a Portugal, coincidiu o convite daquele conjunto brasileiro, que a descobrira poucos dias antes no Brasil e que poucos dias depois a convidara para seguir em digressão com eles para a Europa e nomeadamente para Portugal.

Capa do disco de Maria Helena

Segundo rezam as crónicas, a especial relação de Maria Helena com Portugal (e com Lisboa em particular) iniciou-se aquando dessa visita, altura em que ficou encantada com o nosso país, por aqui tendo ficado depois dessa actuação, dado o reconhecimento que a sua voz teve em diversos pontos do país e junto dos promotores e agentes artísticos portugueses. Na verdade, semanas depois estreava-se em Lisboa, no Maxime e pouco tempo depois surgiram convites para actuar em Barcelona, em Madrid e na Televisão Espanhola.
A carreira artística de Maria Helena em Portugal corria a um ritmo desenfreado, tendo sido transformada pelos portugueses numa verdadeira vedeta. Fez teatro, revistas e participou no filme "Pão, amor e totobola", tendo aliás gravado canções para esse filme, juntamente com Zeca do Rock. Em Maio de 1963, cedendo à vontade dos pais, parte para o Brasil, abandonando o teatro de revista, regressando com eles ao Brasil. No entanto, como o sangue que lhe corria nas veias era o da vida artística, voltaria meses mais tarde, para actuar temporariamente no Casino Estoril, para depois seguir imediatamente para Espanha. Em Janeiro de 1965, encontrava-se em Moçambique, actuando na boîte "A Cave", altura em que regressou a Portugal para gravar um disco, antes de seguir para a Venezuela, tendo percorrido ainda toda a então África Portuguesa e a então União Sul Africana em pouco mais de dois anos. Durante parte do ano de 1966, já regressada a Portugal, actuou no Teatro Maria Vitória, marcando o início da sua afirmação como vedeta do teatro de Lisboa.
Pese embora Maria Helena viesse a ser mais reconhecida em Portugal pela sua interpretação em teatro de revistas, cremos que o seu momento alto aconteceu quando, participou, representando Portugal, em Aranda do Douro, no Festival Hispano-Portugues da canção do Douro, de 1960. Aliás, foi mesmo ela que criou a canção "Meu rio Douro" (Canção tema do Festival desde a sua 1.ª edição), tendo ficado em primeiro lugar, facto que nunca acontecera antes com qualquer representante português.
E sobre a vida de Maria Helena, pouco mais sabemos. No entanto, quando por mero acaso desfolhávamos uma revista Plateia de finais de 1968, reparámos na triste notícia então relatada acerca do seu prematuro falecimento num Hospital de Madrid, após 7 meses de internamento numa dura batalha contra um cancro. A referida notícia, cujo recorte acima aqui deixamos, vinha acompanhada da respectiva foto de Maria Helena, não deixando margem para dúvidas: Maria Helena, segundo a revista Plateia, falecera (tal como a malograda Marina Neves) no auge da sua carreira, muito nova, vítima de uma grave enfermidade.
Notícia do falecimento de Maria Helena, em 1968

Contudo, para nosso espanto, e após consultarmos um interessante blogue palcoum.blogpsot.com, lemos uma mensagem na qual o responsável pelo blogue perguntava à comunidade de leitores sobre o que seria feito de Maria Helena, referindo, porém, que a última notícia de que dispunha sobre Maria Helena prendia-se com uma visita a Portugal entre finais dos anos 70 e inícios de 80 em Sintra, na quinta do empresário teatral Sérgio de Azevedo. Ora, como dispúnhamos da informação de que Maria Helena, infelizmente, havia já falecido vítima de cancro, prontamente demos conta do seu falecimento. Todavia, imediatamente a seguir, o responsável pelo mesmo blogue, publicou nova mensagem, colocando uma fotografia de Maria Helena em Portugal alusiva à sua última estadia em Portugal, em Sintra, desfazendo o grande equívoco da revista Plateia que noticiara uma década antes a sua morte.
Maria Helena em Portugal, nos anos 70 (cortesia palcoumblogspot.com)

Da nossa parte, e após análise da fotografia "postada" naquele blogue, não temos dúvidas em afirmar que se trata efectivamente da mesma Maria Helena e que, felizmente, a mesma não falecera uma década antes, vítima de cancro. Aliás, gostaríamos de esclarecer os nossos leitores que a nossa tarefa de recolha de informação sobre estes artistas privilegia a mais rigorosa informação possível, sendo certo que, devido à nossa idade, a única informação de que nos munimos é a da imprensa da época, ou então dos próprios artistas quando com eles mantemos alguma espécie de contacto. Sendo assim, jamais nos poderemos responsabilizar pela informação que retiramos das revistas que lemos se tal informação estiver completamente errada. De facto, já por diversas vezes Eunice Muñoz foi dada como morta pela nossa imprensa e bem recentemente Camilo de Oliveira (ou até o famoso Bon Jovi !) , sendo que todos eles se encontram bem e com saúde. Lamentamos profundamente que a imprensa não seja muito rigorosa e não se acautele devidamente na hora de lançar tão tristes e sérias notícias.
Cumpre-nos hoje tentar desvendar e esclarecer esse insólito equívoco sobre a vida de Maria Helena. No entanto, gostaríamos também de saber sobre o paradeiro actual de Maria Helena e sobre o seu percurso desde os anos 70 até à presente data, do qual quase nenhuma informação conhecemos.
Retribuindo, dedicamos também esta mensagem ao responsável pela manutenção do blogue "palcoum" (e de outros tantos mais) e que muito tem feito para preservar a memória dos nossos maiores artistas, nomeadamente na área do teatro e do espectáculo em geral.
Deixamos para os nossos leitores, dois temas cantados por Maria Helena, acompanhada pela orquestra de Ferrer Trindade, com destaque para "Com sete letras se escreve saudade" numa interpretação sentida, na qual Maria Helena encarna com perfeição esse sentimento único português, que se chama saudade.


Clique no Play para ouvir um excerto das canções
Maria Helena 
Alvorada AEP60467 
A1 - Fantasma do amor (Ferrer Trindade / José Correia) 
A2 - Com sete letras se escreve saudade (Ferrer Trindade / Anibal da Nazaré) 
B1 - Ninguém é de ninguém (Umberto Silva-Toso Gomes / Luis Mergulhão)
B2 - Custou dizer adeus (Costa Pinto / José Correia) 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Fernando Lito - Tiqui-Toc


Dedicamos o espaço de hoje a Fernando Lito Inácio de Sousa Magalhães, filho de uma cigana e de um mulato português, mais conhecido no mundo artístico pelo nome abreviado de Fernando Lito, cançonetista que surgiu no panorama artístico nacional em 1966. Antes, com 16 anos apenas e tal como muitos outros jovens aspirantes a artistas desse tempo, tentou frequentar o famoso Centro de Preparação de Artistas de Rádio (de onde saíram grandes cançonetistas portugueses dos anos 60, como Simone de Oliveira, Tonicha, António Calvário ou Madalena Iglésias, entre muitos outros). No entanto, era desejo dos professores do C.P.A.R. que o jovem Fernando Lito cantasse Jazz e canções anglo-americanas, as quais não o seduziam particularmente, facto que o levou a desistir da ideia de ingressar nos quadros da Emissora Nacional.
Como não se recusasse a desistir do seu sonho, Fernando Lito concorreu ainda no popular concurso "Do Céu caiu uma Estrela", promovido pela Agência Portuguesa de Revistas. Contudo, as suas aspirações esbarraram na obrigatoriedade de cumprimento do serviço militar, facto que o impediu de ir à final, para a qual, aliás, fora apurado. Não obstante tal contrariedade, ainda fez vários espectáculos na província e em Lisboa antes de partir para o Ultramar, nomeadamente no Coliseu dos Recreios, tendo tido também a sua estreia na RTP no programa "Parada Musical" realizado por Fernando Frazão e com locução de Carlos Cruz.
Na Guiné, onde cumpriu serviço militar, cantou principalmente para os membros das Forças Armadas Portuguesas que alí se encontravam em missão. Num desses espectáculos, em Jabadá, Fernando Lito cantou num palco improvisado ao ar livre em que os assistentes eram militares de metralhadoras na mão, prevenidos contra qualquer ataque da resistência rebelde.
Fernando Lito na Guiné Portuguesa
circa 1967
Uma vez cumprido o serviço militar e de regresso a Lisboa, foi contratado para espectáculos de televisão na América do Norte bem como para diversos espectáculos em Espanha e Norte de África. Concorreu a vários festivais, incluindo o famoso de Aranda do Douro, onde obteve o segundo lugar e em 1978 foi-lhe atribuído o prémio de interpretação no Festival da Canção Tâmega, do qual resultaria a edição de um disco.
A actividade de Fernando Lito não se centrou apenas na música, tendo sido também actor de revista. Segundo apurámos, teve uma grande actividade artística até 1978, altura em que tinha como projectos montar o seu próprio show, em parceria com José Guimarães e abrir um casa comercial de agenciamento de espectáculos, incluindo obviamente o seu próprio espectáculo.
Ao que sabemos, Fernando Lito voltou a editar, pelo menos, mais um disco posteriormente a esta altura já em 1990, mas sobre o qual poucas informações dispomos.
O disco que apresentamos hoje aos leitores coincide com o primeiro disco de Fernando Lito gravado para a editora nortenha Rapsódia, em regime de exclusividade, cujos arranjos de Rocha Oliveira particularmente apreciamos. Não conseguimos chegar à fala com Fernando Lito, apesar dos contactos telefónicos que conseguimos obter. Resta-nos, como sempre, a ajuda dos nossos leitores em descortinar o paradeiro deste intérprete que hoje recuperamos do baú do esquecimento.


Clique no Play para ouvir um excerto das canções

Fernando Lito
Rapsódia EPF 5.574
Lado A1 - Moira, morena, romã (José Vicente-Fernando Lito)
Lado A2 - Tiqui-Toc (José Lezaun/Fausto Turell-Fernando Lito)
Lado B1 - Deus te guarde (Francisco Ataíde)
Lado B2 - Quero um novo dia (Fernando Lito-Rocha de Oliveira)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Os Camaradas - Quem trabalha é que deve mandar

Quando há poucas semanas atrás publicámos no Bairro do Vinil um texto sobre o músico Tino Flores, tínhamos já em mente colocar imediatamente a seguir uma mensagem sobre um desconhecido e misterioso agrupamento musical denominado de "Os Camaradas", tendo por única referência um disco que adquirimos juntamente com o disco de Tino Flores e com outros discos de intervenção. Curiosamente, os comentários que emergiram após a publicação daquele texto precipitaram a publicação desta mensagem em cumprimento de uma espécie de dever e de compromisso para com os leitores, levantando um pouco do véu sobre esse misterioso agrupamento, do qual pouca ou nenhuma informação se sabe.
De facto, sobre "Os Camaradas" não conseguimos recolher qualquer informação, pelo menos até ao momento. Desde logo, a própria componente editorial do disco (à semelhança dos discos de Tino Flores) remete-nos igualmente para a ideia de tratar-se de edição de autor. Inclinámo-nos para esta tese, após observarmos com atenção o label do disco, no qual apenas constam o nome das músicas e a referência "OSC 2", sem qualquer referência a editoras ou "patrocinadores" do disco. Supomos também tratar-se do segundo disco deste agrupamento.
Por outro lado, o disco que adquirimos não tem qualquer informação na contracapa e embora a sua capa seja coloridamente apelativa (com cores vermelhas, pois claro) nenhuma informação dele podermos retirar. No entanto, desde logo ficámos com a ideia de que o disco dos Camaradas teria sido lançado em simultâneo ou então num período temporal muito próximo do disco de Tino Flores anteriormente apresentado pelo facto de os labels dos discos serem exactamente iguais, com o mesmo grafismo e igualmente editados em França. Tal constatação, remete-nos imediatamente para o campo das suposições, acreditando que o próprio Tino Flores poderá ter participado, de alguma forma, na produção deste disco. Na verdade podemos até ouvir numa das canções uma harmónica, à semelhança do disco de Tino Flores, onde também podemos encontrar igualmente a mesma sonoridade em algumas canções.
Facto que demos por assente à primeira audição é que não é Tino Flores que canta neste disco, pelo menos enquanto solista. Com efeito, as vozes dos intérpretes dos dois discos são manifestamente distintas. A identidade do vocalista dos Camaradas permanecerá um mistério que pretendemos desvendar com ajuda de todos aqueles que lerem este texto. Da composição do grupo, temos apenas a informação de que o músico Adão Gonçalves integrou-o em 1973, segundo informação colocada no Bairro do Vinil por um comentador geralmente muito bem informado.

Capa do E.P. "Os Camaradas" OSC 2

Confessamos que a nossa maior dificuldade prendou-se com o facto de permanecerem (mesmo após várias audições dos 4 temas que compõem este disco) algumas dúvidas sobre se o disco terá tido edição pré ou pós 25 de Abril. Sobre este aspecto, à primeira vista tudo indicaria tratar-se de um disco pré-25 de Abril, atendendo ao facto de o label do disco, conforme já referimos, ser igual ao do disco do Tino Flores e daí podermos eventualmente retirar a conclusão de ter sido editado em 1972 ou em 1973 (tendo por referência o período em que Adão Gonçalves integrou o grupo). É que as letras das canções, embora se tratem igualmente de músicas de conteúdo directo e sem floreados, têm um carácter dúbio ao ponto de poderem ser facilmente inseridas em qualquer um dos períodos acima referidos, isto tanto antes tanto depois do 25 de Abril. No entanto, arriscamos tratar-se de um disco já editado no pós 25 de Abril. Na verdade, através dele conseguimos vislumbrar algumas reminiscências do período conturbado dos primeiros meses imediatamente após a revolução dos cravos. Referências pontuais a pequenas liberdades, à repetição da palavra democracia inserida no contexto de governos pós salazaristas e nenhuma referência a qualquer primavera Marcelista colocam-nos numa quase certeza de tratar-se já de um disco editado em finais de 1974 ou inícios de 1975. O primeiro tema do E.P. "Quem trabalha é que deve mandar", a nosso ver desfaz qualquer dúvida. Contudo, sobre esta matéria, iremos deixar o espaço aos leitores para darem as suas opiniões para, daqui a umas semanas, refazermos o texto de hoje com informação já actualizada. 




Clique no Play para ouvir um excerto de "Os Camaradas"

Lado A) Quem trabalha é que deve mandar/ Democracia
Lado B ) Lá vai o comboio/ Ora vai, vai vai

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tino Flores - Organizado o povo é invencível

"Explorados nas fábricas e nos campos, carne para canhão na guerra colonial, emigrantes a fugir à fome, presos, torturados e massacrados pelos carrascos da burguesia, esta é a nossa vida. Sózinhos, isolados somos uma presa fácil nas mãos dos capitalistas. Quando nos unimos, quando nos organizamos, obrigamos os patrões e os oficiais e a polícia a recuar, fazemos greves e ganhamos, desertamos e roubamos armas, atacamos a guarda e fazemos com que ela fuja. Organizados e com armas conquistaremos o poder e exterminaremos essa corja de bandidos e parasitas que nos sugam o sangue e que nos lançam na miséria. Lutemos pela nossa unidade, organizemos reuniões nas fábricas, nos campos, nos quartéis, nos bairros onde vivemos! Discutamos os nossos problemas e organizemo-nos para a resposta vitoriosa contra os nossos exploradores! A união de todos os explorados criará um mundo novo onde terminará a exploração do homem pelo homem! A Guerra do povo é invencível. Em frente pela revolução popular!"

As palavras que acima escrevemos não estão aqui escritas por mero acaso. Na verdade estão igualmente estampadas na contracapa do disco que escolhemos para apresentar hoje no dia 25 de Abril. Trata-se de um disco que não sendo propriamente de um intérprete totalmente desconhecido, como é o caso de Tino Flores, merece honras de destaque pela sua raridade uma vez que os discos desse cantautor (principalmente os gravados no pré- 25 de Abril) são considerados dos mais raros de encontrar no mercado discográfico e, portanto, verdadeiras relíquias.

 À semelhança de outros cantores de intervenção exilados em França, foi também através da canção com mensagem de protesto que a voz Tino Flores chegou ao conhecimento de (alguns) portugueses. No entanto, para os que se interessam por este género de canção, é unânime a constatação de que Tino Flores é um caso totalmente à parte, diferenciando-se dos demais em muitos aspectos. Em primeiro lugar, os seus discos são genuinamente canções de protesto ao serviço de ideais e alvos bem definidos, como se de folk music se tratasse, tendo em conta o singelo acompanhamento de guitarra que servia de base às suas canções. Depois, porque as incendiárias palavras de Tino Flores não são preenchidas com quaisquer eufemismos ou floreados, sendo antes uma escrita directa contra a guerra e o fascismo, quase que rude e sem papas na língua, apelando directamente à consciência daqueles que considerava serem os explorados da sociedade, atingindo o seu auge com a canção "Isto só vai à porrada !", gravado já depois do 25 de Abril. Por outro lado, ao contrário dos outros cantores de protesto, que viam os seus discos ser editados sob a chancela de algumas editoras (ainda que lançados quase que clandestinamente) as edições de discos de Tino Flores tinham um carácter muito mais restrito, sendo edições próprias de autor, com capas trabalhadas de forma amadora e sugestivamente apelativas à luta e à revolta popular.
 Ao contrário de José Afonso ou Sérgio Godinho, por exemplo, que se tornou num músico de carreira com o decorrer dos anos, Tino Flores nunca seguiu (nem mesmo depois de ter regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974) qualquer carreira de músico profissional, pese embora tenha gravado alguns discos após a revolução. Tino Flores era, sobretudo, um músico de combate e de verdadeira resistência, conforme veio a demonstrar pelo seu contributo numa interessante parte da história do canto popular, como foi o Grupo de Acção Cultural, onde veio a ter um papel de verdadeiro destaque ao lado de José Mário Branco, Afonso Dias, José Júlio, entre outros. Para ilustrarmos um pouco desses cantos de revolta, deixamos um excerto de algumas das canções que compõem o E.P. do disco que hoje apresentamos, gravadas em 1972, algures em França.