São
poucos os artistas que conhecemos que conseguiram conciliar a
actividade artística com qualquer outro tipo de actividade
profissional. Em regra, a primeira era preterida em favor da segunda,
face à escassez de espectáculos regulares e, sobretudo, porque do
ponto de vista financeiro a vida artística era pouco atraente para
a esmagadora maioria dos artistas.
Ainda
mais raro era a conciliação das lides do espectáculo com o
desporto. Não porque existisse um antagonismo necessário entre
estas actividades, ou uma suposta incompatibilidade entre a vertente
física e a vertente mais artística do ser humano, mas sim porque
também neste domínio não existiam grandes oportunidades de
prosseguimento de uma carreira desportiva em regime profissional.
Ainda assim, de memória, relembramos, por exemplo, entre outros, o
caso da cançonetista Manuela Novaes que se sagrou campeã nacional
de lançamento do disco e do ex-futebolista Diamantino (não
confundir com Diamantino Miranda, glória do Benfica) que também
gravou discos, ou ainda de um caso bem mais conhecido a nível
mundial: Júlio Iglésias, guarda-redes (suplente) do Real Madrid,
que atingiu sucesso à escala planetária.
O
caso que recuperamos hoje do esquecimento é também de um atleta do
Sporting Clube de Portugal (entre outros clubes) de nome Manuel
Santinho das Neves, que foi nada mais, nada menos do que 10 vezes
campeão nacional de lançamento do dardo. Para uma parca biografia da
sua carreira, socorremo-nos da contracapa do disco, onde se pode ler
que Santinho
das Neves começou a cantar e a tocar viola ainda em garoto, tendo
começado a cantar em público nas suas deslocações ao estrangeiro,
em Copenhaga, Malmo, Amsterdão e nas ex-colónias portuguesas.
Contudo, o seu compromisso com o atletismo foi retardando a gravação
do seu primeiro disco (e único que dele conhecemos), cuja produção,
aliás, foi interrompida por diversas vezes devido a competições no
estrangeiro.
Não
deixa de ser curioso o facto de aí se escrever também que este era
o primeiro disco de um português que, em Portugal era conhecido
apenas como atleta mas que no estrangeiro era conhecido sobretudo
como um artista. È que na verdade, em Portugal, Santinho destacou-se
sobretudo no atletismo, principalmente na disciplina do Lançamento do
Dardo, quando “na época
de 1959,
durante o Torneio Primavera, conseguiu um surpreendente lançamento
de 64,03m, que era simultaneamente Recorde Nacional e Recorde
Ibérico. Posteriormente melhorou várias vezes esse recorde, até o
fixar em 71,38m, durante um Portugal-França disputado em Julho de
1966, uma marca que perdurou mais de 18 anos. A sua carreira teve
altos e baixos, em grande parte porque se radicou em França, pelo
que só vinha a Portugal na altura das competições principais,
mostrando-se sempre disponível para ajudar o Sporting e
destacando-se pela positiva com os 5 títulos de Campeão de Portugal
do Lançamento do Dardo, obtidos entre 1962 e 1972, quatro dos quais
em representação do Sporting (1962, 1967, 1971 e 1972) e um
enquanto atleta individual (1965).”
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Foto e texto em itálico, da Wikipedia do Sporting, in http://www.forumscp.com/wiki/index.php?title=Santinho_das_Neves |
Em
termos de vida artística, desconhecemos se Santinho das Neves tenha gravado discos
em França, ou se o disco que hoje apresentamos não
terá passado de uma mera aventura isolada. No entanto, apesar de não se
tratar de um disco surpreendente, não podemos deixar de salientar os
interessantes arranjos de Jorge Machado, que dão aos quatro temas que
compõem o disco um salutar equilíbrio entre a vertente orquestral e a vertente popular
das canções que o compõem, “Sapatinho” e “Arriba a leva” (de cariz popular) e os restantes
dois temas “De cabeça à roda“ e “Ver o mar”,
curiosamente com música do também atleta e respeitado sportinguista
Moniz Pereira, também elas num registo a lembrar o canto popular.
Fica
então um excerto destas quatro canções para os nossos leitores.
Santinho das Neves
RCA Victor TP 596
A1) De cabeça à roda (Moniz Pereira - Fernando Correia)
A2) Sapatinho (Popular - Arranjos - Jorge Machado)
B1) Ver o mar (Moniz Pereira - Emílio Vasco)
B2) Arriba a leva (Popular - Arranjos Jorge Machado)