sábado, 10 de dezembro de 2011

Francisco Stoffel - Canto para não chorar

Apesar de o fado não ser o nosso género musical de eleição, não poderíamos ficar indiferentes ao heróico acontecimento de o mesmo ter sido considerado há poucos dias atrás como Património Imaterial da Humanidade. É sem dúvida algo que deve encher de orgulho todos os portugueses, sejam eles ou não apreciadores de fado. De facto, se para os estrangeiros o fado simboliza apenas um género musical (ou erradamente a nossa “folk music”), a verdade é que para nós simboliza muito mais do que isso; o fado é algo verdadeiramente nosso, intrínseco e confundível com a própria alma portuguesa e que tem sobrevivido ao longo de séculos às grandes mudanças sociais e políticas que ocorreram na pátria lusitana.
Também nós, que fomos criados bem perto das margens do Mondego, e que ao longo dos últimos anos nos temos dedicado à pesquisa da música popular portuguesa, fomos aprendendo a apreciar o som da outra guitarra portuguesa e a deixarmo-nos seduzir muitas vezes pelas belas vozes que do fado emanam.
Queremos também deixar de lado, enquanto apreciadores do fado de Coimbra, a polémica (para aqui não chamada) da exclusão do Fado de Coimbra da candidatura do Fado a património imaterial da Humanidade. Por isso, dedicaremos a mensagem de hoje a um jovem fadista de Lisboa que, infelizmente, nunca passou de uma mera esperança e cuja saudosa voz muito apreciamos. Para tal, deixaremos nos parágrafos seguintes um pouco do que conhecemos sobre Francisco Stoffel e das gravações das 4 canções que compõem o seu único legado.
Há cerca de 45 anos atrás, em Dezembro de 1966, num dos salões do Hotel Tivoli decorreu um beberete oferecido pela editora de discos catalã Belter. Tratava-se do arranque em Portugal de uma das duas editoras espanholas que na época apostaram na gravação de artistas portugueses (a outra, era a madrilena Marfer). O referido cocktail serviu, portanto, para apresentar os primeiros discos lançados em Portugal de artistas portugueses dessa editora, tendo reunido em tal convívio António Calvário (até então o “rei da rádio”), Luis Guilherme, Alberto Ribeiro e Shegundo Galarza, que foram, juntamente com Francisco Stoffel, os primeiros artistas a gravar para a Belter e cujos discos iriam ser colocados à venda em toda a Espanha, Argentina, Angola, Moçambique, para além de Portugal (então metrópole).
No dia da apresentação dos artistas e dos discos aos órgãos de informação, para além da habitual sessão de autógrafos, foram oferecidas pastas com os discos gravados pelos 4 cançonetistas nacionais (Luís Guilherme, Calvário, Alberto Ribeiro e Francisco Stoffel). No entanto, dos quatro cançonetistas apenas três estiveram presentes, pois Francisco Stoffel falecera dias antes vítima de uma doença que os médicos na altura não conseguiram identificar.
Francisco Stoffel, nascido no Estoril, há provavelmente 66 anos, tinha apenas 22 anos quando faleceu, dias antes da apresentação do seu disco à comunicação social.
Stoffel, era, segundo o que apuramos na imprensa da época, a grande descoberta da Belter e a maior promessa de fado castiço para os tempos futuros, tendo chegado a actuar em programas da Rádio Televisão Portuguesa, embora não tenha chegado a conhecer os grandes palcos. As causas da sua morte nunca foram confirmadas, ainda que de acordo com um comentário que encontramos "postado" na internet (sempre sujeito a confirmação) poderá ter falecido vítima de uma forte insolação e das complicações posteriores. Stoffel, com uma voz única para um jovem de 22 anos, deixou-nos apenas 4 sentidos fados, sendo um deles, um fado bem conhecido, popularizado mais tarde por Carlos do Carmo, com o título de “Por morrer uma andorinha”, com música de Francisco Viana e letra de Frederico de Brito.


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terça-feira, 14 de junho de 2011

José Carvalhal - Recado ao Governo

Numa altura em que a intervenção de forças externas em Portugal é já uma realidade, através da denominada Troika (onde se insere o F.M.I.), são muitos aqueles que desesperam sem saber ao certo o que fazer para tentar travar uma crise que é já de dimensão europeia. Enquanto tal acontece, resta-nos o contentamento em saber que conservamos ainda a nossa independência, aparentemente garantida pela eleição de um novo Governo após o último sufrágio a que fomos submetidos. Seja qual for o destino da nossa governação, são já muitos os apelos ao sentido de responsabilidade de todos os responsáveis pela Nação em favor do bem comum, que se multiplicam de hora a hora, sejam eles efectuados de uma forma mais racional ou de uma forma mais desesperada.
Transpondo estas considerações (de índole quase utópica) para o panorama musical, aproveitamos para relembrar que os mesmos apelos que hoje são feitos através da blogosfera (ou através de manifestações espontâneas de gerações à rasca) são em tudo idênticos aos que surgiram de forma livre no imediato pós 25 de Abril, através da proliferação de dezenas de artistas provenientes de todos estilos musicais (desde os cantautores até ao próprio fado) que, de uma forma ou de outra, faziam ingerências e apelos muito directos à Governação.
Tal sucedeu, por exemplo em 1978, quando um desconhecido José Carvalhal gravou para a Editora Rapsódia (inserido numa série de EP's de cantares ao desafio e cânticos populares) o tema "Apelo ao Governo" que, bem vistas as coisas, permanece ainda bastante actual. Aliás, a importância destes discos, ao qual pouca gente atribui real valor, torna-se ainda mais evidente na época em que nos encontramos. De facto, versos expressivos como "Temos um país vencido por causa da politica / isso a mim me consome por ver tanta miséria / tendes os bolsos cheios e os pobres cheios de fome" transportam os ouvintes mais pessimistas para uma preocupante realidade que poderá estar mesmo aqui ao virar da esquina.
Pelo menos até 1984 (?) José Carvalhal, gravou mais de meia dúzia de discos, uns com uma vertente mais popular e outro com um carácter mais político, como é por exemplo o sugestivo disco gravado também em 1978 para a mesma editora com o título de capa "Com tretas não se governa". Podíamos estar enganados e pensar que José Carvalhal seria apenas um cantor de outros tempos e que estes discos de tempos idos que teimosamente continuamos a resgatar de destinos incertos, não voltavam a soar nos nossos giradiscos. No entanto, para espanto nosso, conseguimos apurar que ainda hoje José Carvalhal mantêm o estatuto de popular tocador de concertina e "cantador" ao desafio na freguesia distante da Ermida, no concelho de Ponte da Barca, aldeia quase deserta mas que teimosamente continua a sobreviver à desertificação total.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pancho & Kamel – Pedra Filosofal

Quando pensamos que a imaginação se encontra esgotada e que já não podemos surpreender ninguém com a descoberta de mais uma versão de uma canção conhecida, eis que nos chega às mãos uma inesperada e original interpretação do conhecido poema de António Gedeão “Pedra Filosofal”, imortalizado sob a forma de canção por Manuel Freire.
Já vários artistas portugueses gravaram esta canção, não fosse ela reconhecida por todos os quadrantes musicais como uma das mais belas canções alguma vez criadas por intérpretes portugueses. No entanto, desta feita socorremo-nos do duo Pancho & Kamel, composto por F. J. Amenabar (Chile) e Kamel Missaghian (Irão), dois artistas estrangeiros que (provavelmente) se encontravam a residir temporáriamente em Portugal e que tiveram a oportunidade de gravar este trabalho no nosso país para a etiqueta Riso & Ritmo, em data não anterior a 1970.
De facto, o "verdadeiro" nome deste duo é Dia Prometido, um duo psicadélico baseado em Espanha (acompanhado em estúdio com banda de suporte) com reportorio bastante eclético abrangendo versões instrumentais de temas rock, folk, world, jazz, clássica, além de temas originais.
Ao que pudemos apurar, os Dia Prometido lancaram quatro LP's e cinco Singles entre 1971 e 1975 pela Philips em Espanha, sendo este EP da Riso & Ritmo uma excepção, editado para o mercado português com a exclusividade do tema "Pedra Filosofal" que aparentemente não perfila em nenhum dos LP ou Singles da banda.



No aspecto musical, estamos perante um registo bastante simples, respeitando a linha da versão original, embora neste caso, a voz e a guitarra seguem acompanhadas do muito pouco usual santur, um instrumento milenar de origem persa, que ocupa um lugar de destaque neste tema, cabendo-lhe o registo da melodia da canção, passando a voz a ocupar um lugar declamativo.
Não podemos ficar igualmente indiferentes ao timbre exótico e sonoridade planante que o santur nos emana ao longo da interpretação de “Pedra Filosofal” que, juntamente com o facto de estarmos perante uma versão em castelhano, nos oferece uma interessante visão do poema de Gedeão, confirmando a dimensão universalista que só as grandes obras conseguem alcançar.

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Pancho & Kamel
RREP0089

1) Peace Meditation (Pancho & Kamel)
2) Pedra Filosofal (Antóneo Gedeão)
3) Improviso Persa (Pancho & Kamel)
4) Concerto de Aranjuez (Joaquin Rodrigo)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O 25 de Abril de 1974 - Conjunto Típico Francisco de Sousa

Quem pense que por estarmos a celebrar mais um aniversário do 25 de Abril de 1974, teríamos que escolher forçosamente uma canção de um cantautor/baladeiro dos anos 70 (preferencialmente ex-exilado em França) para ilustramos musicalmente este dia está muito enganado. Isto porque a canção de protesto, tal como nós a gostamos de dividir, teve duas fases bem distintas (quanto a nós, de interesse quase idêntico): a canção de intervenção pré-25 de Abril e a canção de protesto no imediato pós 25 de Abril, resultante da proliferação de mensagens políticas em tudo o quanto era canção, quase todas elas associadas (senão mesmo ao serviço) de partidos de esquerda.
Desse modo, estilos musicais tradicionalmente associados ao sectarismo do Estado Novo, como o fado e a música popular (nomeadamente através dos conjuntos típicos) passaram também eles a cantar os valores da liberdade e da democracia que o 25 de Abril de 1974 apregoou para Portugal. Artur Gonçalves (fado humorístico), Conjunto Típico Esperança (conjuntos típicos) e Januário Trindade (fado) são alguns dos exemplos associados a essa vertente da música de intervenção pós 25 de Abril a qual, em bom rigor, só se dizimaria com o surgimento em massa dos grupos de rock português e dos bailes de liceu, que depressa substituíram o protagonismo radiofónico dos cantores de Abril.


Para ilustrar esse fenómeno escolhemos a canção "O 25 de Abril de 1974" composta por Francisco de Sousa para o seu Conjunto Típico, tendo como solista Fernando Pereira. Trata-se, com efeito, de um disco que contém todas as características presentes nos discos de conjuntos típicos lançados com mensagem política a seguir ao 25 de Abril. Concretizando: na sua maioria eram lançados em formato E.P. (com quatro canções) sendo que dessas quatro composições, geralmente apenas uma tinha um conteúdo político, quase sempre o tema que dava título à capa do disco. As restantes canções continuavam a seguir, na linha "típica" de tais conjuntos a sátira aos desgostos de amor, as temáticas religiosas e, sobretudo, a apologia das tradições das diversas regiões do nosso país, através dos seus bailes e romarias. Nada mais correcta, a nosso ver, tal orientação, não fosse a opção por um caminho radicalmente inverso desvirtuar por completo o papel que os conjuntos típicos sempre tiveram na sociedade e costumes.
Nesta canção e da análise da sua letra resulta a curiosidade que a mesma terá sido escrita apenas dois meses após a Revolução dos Cravos, embora o disco apenas tenha sido lançado para o mercado em 1975. No entanto, a letra manteve-se inalterada, sem qualquer referência ao período conturbado que se viveu em Portugal imediatamente a seguir à Revolução. Dessa forma, a canção "O 25 de Abril de 1974", acaba por ser um testemunho politicamente apartidário, gravada num registo naturalmente alegre, como é costume no género musical sobre o qual nos debruçamos.
Acresce ainda, para finalizarmos, uma referência à sugestiva capa do disco, com um cravo estampado sobre um fundo vermelho, com um sugestivo título de Abril de 1974.

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RODA RPE 1374
A) O Abril de 1974/ Briga de amor
B) Jamais te posso esquecer/ Tenho saudades

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terça-feira, 19 de abril de 2011

Alfredo Santos - Rock Saloio

A partir dos anos 70, com o advento do pop rock português (embora este ainda não estivesse massificado), muitos dos nossos cantores populares (fossem os mais ou os menos conhecidos) de uma forma ou de outra acabaram por aventurar-se por esses então estranhos domínios. Desse modo, ora sob a forma de sátira (como é o caso dos conjuntos típicos relativamente ao Yé Yé) ou através de misturas de estilo popular com rock, foram lançados muitos discos de folclore, fado, etc, com canções tematicamente associadas às novas sonoridades anglo-saxónicas. Sem fazer um grande esforço de memória, lembramo-nos da série de discos PopFado de vários artistas, da canção “Fadista Yé Yé” ou até do extraordinário disco de Hermínia Silva com o Quarteto 1111 "A Hermínia Canta Yé Yé", entre outros discos que ilustram, por um lado, o antagonismo entre os diversos estilos musicais da época e, por outro lado, a tentativa de convergência entre os mesmos.

Para ilustrar esse fenómeno, apresentamos Alfredo Santos, o desconhecido artista que recuperamos hoje do esquecimento, com a canção Rock Saloio, editado pela etiqueta Roda sob a direcção musical de Shegundo Galarza, na qual canta de uma forma quase que perfeita a contraposição entre as festas dos arraiais e as chulas, substituídas pelo som do Yé Yé e pelo Rock, transpondo para o imaginário do ouvinte um baile popular ao som das novas modas, com a constante alusão ao rock saloio, termo tão correctamente utilizado na letra desta canção, na medida em que os saloios do outeiro despidos do seu típico barrete e colete adaptam as suas danças ao sons do rock sem contudo deixar de lado as suas raízes, ao ponto de o cantor chegar mesmo a dizer que esta nova dança "até parece a chula".


Visto de outro prisma, Rock Saloio ilustra também uma realidade de um Portugal pouco permeável às novas tendências sociais e culturais vindas do estrangeiro, especialmente nas zonas mais ruralizadas onde pouco ou quase nada chegava e quando chegava, o choque entre estas era evidente - “No outeiro já se baila a moda e só se dança o rock / pé ligeiro / pulam as Marias e os Maneis ad hoc / o vira virou já se acabou e tudo mudou lá fora / o rock saloio está na moda agora”.
De Alfredo Santos pouca ou nenhuma informação conhecemos para além da existência de mais um E.P. gravado para a mesma editora, ficando nós, como sempre, à espera que os nossos leitores (e ouvintes) desvendem um pouco mais dos misteriosos artistas que teimamos em apresentar.

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Alfredo Santos
Roda EP 1278
A) Anda daí Catraia/ Chegou o correio
B) Quero confessar-te/ Rock Saloio

sexta-feira, 25 de março de 2011

Trio Barroco + Tyree Glenn Jr. & Van Dixon - Summer

Tendo como principal mentor Pedro Osório, o Trio Barroco foi formado em 1968 juntamente com André Vilas Boas e Jean Sarbib, este último antigo companheiro de Pedro Osório no Quinteto Académico (um dos pioneiros grupos do rock português). Com um percurso éfemero no panorama musical português, o Trio Barroco na sua curta existência gravou apenas três E.P.s, com influências soul, jazz, funk e naturalmente o rock, ao qual de uma ou outra forma, todos os membros da banda estavam familiarizados.
Neste disco, destacam-se as participações dos músicos americanos Tyree Glenn Jr. (saxofone-flauta) e Van Dixon (trompete) que também assinam vocalmente três dos quatro temas presentes neste E.P. com particular destaque para a vivaz versão do famoso tema de Sam Cooke “Hold on I'm coming”.



No entanto, a particularidade maior deste disco é a excelente versão em inglês da canção vencedora do Festival da Canção de 1968 “Verão”, interpretada por Carlos Mendes e que, neste disco a eleva a uma versão digna de registo internacional.
Teria o Trio Barroco pretensões de se internacionalizar?... Tudo neste trabalho nos parece indicar nesse sentido - o uso da língua inglesa, a escolha dos temas, os músicos convidados, etc… No entanto, sobre essa possibilidade e pelo que dispomos, apenas podemos conjecturar. O que podemos sim afirmar é que, sem dúvida, esta era uma banda de grande qualidade musical e que tinha condições para se impor no mercado discográfico (pelo menos, no nacional) como uma alternativa ao “main-stream” povoado pelas bandas de Yé Yé.
Dada a conjuntura musical da época, o projecto Trio Barroco, acabou naturalmente por ter uma curta existência, deixando, contudo, um interessante legado na música nos finais da década de sessenta.


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quinta-feira, 17 de março de 2011

José Fernandes - O Poeta Cavador do Mucifal

Não podemos ficar indiferentes ao disco que recentemente nos chegou às mãos, não fossemos nós da mesma terra que o assim conhecido na literatura portuguesa como o "Poeta Cavador". Aliás, ainda nos lembramos de um dos nossos livros da Escola fazer referência aos seus versos e de uma fotografia sua, a preto e branco, tirada certamente no final do século XIX, na qual podemos apreciar a figura de um homem simples, da lavoura, com pouco à vontade para ser fotografado. Falamos de Manuel Alves, o Poeta Cavador, que nasceu em Vale de Boi, freguesia da Moita em Anadia, tendo sido um poeta repentista e analfabeto, sendo que o seu nome apenas ficou para a história pelo facto de Tomás da Fonseca ter um dia compilado os seus versos e simultaneamente lhe atribuído o cognome de Poeta Cavador. Manuel Alves, apesar de analfabeto, foi também um boémio da noite coimbrã, cantando fado, chegando mesmo a privar com o célebre fadista Hilário. Infelizmente, faleceu em 1901, pouco antes da gravação do primeiro registo sonoro em Portugal (pois descobertas recentes atribuem a 1902 a primeira gravação alguma vez registada) e, obviamente, não chegou a gravar qualquer canção. Percurso inverso teve outro Poeta Cavador, não de Anadia mas sim do Mucifal (aldeia do concelho de Sintra) que em 1984, depois de mais de cinco décadas a escrever versos e canções, gravou o seu primeiro disco, acompanhado pelo Conjunto da União Mucifalense. Falamos agora de José Fernandes Badajoz, que interpretava os seus poemas e as sua música, animando festas de beneficência, Carnavais, embora sempre com um carácter não profissional, uma vez que a carreira de artista sempre lhe passou ao lado, apesar de algumas propostas nesse sentido terem sido feitas. Ao contrário de Manuel Alves, José Fernandes não seria analfabeto, pois ele próprio guardou durante anos os escritos que mais tarde serviriam de base à gravação dos 12 temas que constituiem o L.P. que hoje apresentamos. Efectivamente, o disco é preenchido com canções escritas entre 1934 e 1983, tematicamente nada surpreendentes face ao cognome que partilhava com Manuel Alves. Na verdade, as letras estão na sua grande maioria relacionadas com a Natureza, fazendo uma apologia ao orgulho da terra e das colheitas e à peculiar sabedoria que muitas vezes só as gentes do campo possuem devido precisamente a essa forte ligação entre a terra e a Mãe Natureza. Versos como "A minha casinha tem/ Uma vista confortável/ Dela tudo vejo bem/ Respirando um ar saudável" ou "Do campo é que vem/ o pão que todos comemos/ Do pão é que vem/ O vinho que nós bebemos/ E mesmo p'ra quem/ só p'la cidade suspira/ No campo é que tem/ ar puro que se respira", ilustram bem a realidade que José Fernandes quis realçar, quando aos 63 anos, gravou este disco. Gravado quase 100 anos depois de o outro Poeta Cavador ter cantado os seus fados em Coimbra, José Fernandes recorreu a um estilo musical bem diferente para dar forma aos seus versos, num registo bem mais popular, alegre, em clara homenagem à sua terra e às suas raízes, escondendo palavras de esperança e de exaltação aos trabalhadores do campo, segundo ele muitas vezes injustamente considerados rudes e mal-educados. Provavelmente terá sido este o único disco de José Fernandes, de edição de Autor, com sucesso diminuto em Portugal mas com largo reconhecimento na aldeia do Mucifal, onde o seu nome já é nome de Rua. Da nossa parte, deixamos aos ouvintes um excerto do disco deste Poeta Cavador, aliás, Poeta Cantador.

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