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sábado, 24 de julho de 2010

Maria Mendes - Coimbra - Avril au Portugal

Quando, há mais de sete décadas, a dupla Raúl Ferrão e José Galhardo escreveu a canção “Coimbra”, certamente jamais imaginaria que a mesma se iria tornar numa das mais conhecidas canções portuguesas em todo o mundo (senão a mais conhecida), tendo sido tal canção a fonte de ínumeras versões, principalmente instrumentais. Sob o título de “Coimbra”,April in Portugal” ou “Avril au Portugal”, foram dezenas os artistas que, de uma forma ou outra, incluíram uma versão desta canção num disco seu. Entre as dezenas de exemplos possíveis, temos desde logo Louis Armstrong que popularizou a canção à escala mundial, com o título de "April in Portugal" (e nova letra) passando por Bing Crosby e mais recentemente por Caetano Veloso, sem esquecer Amália Rodrigues, também ela cantora internacionalmente conhecida.
Pese embora tenha sido escrita em finais dos anos trinta, tal canção foi sendo sucessivamente rejeitada pelo público como canção de teatro de revista, circuito no qual Raúl Ferrão se inseria enquanto encenador e produtor. Somente em 1947 é que "Coimbra" teria algum reconhecimento, embora reduzido, quando a mesma foi utilizada enquanto canção serenata no filme Capas Negras de Armando Miranda. Contudo, o verdadeiro qui pro cuo, no que diz respeito à popularidade desta canção só aconteceria já na década de 50, quando Amália Rodrigues, mercê do grande sucesso internacional então conseguido, começou a incluir “Coimbra” no seu repertório, principalmente quando cantava no estrangeiro.
Mais do que a beleza dos locais que esta canção invoca, “Coimbra” ou “April in Portugal”, encerra em si também uma melodia de rara beleza, com uma estrutura harmónica só ao alcance das mais belas melodias de sempre. Curiosamente, são de Raúl Ferrão (música) e José Galhardo (letrista) a autoria de algumas das mais belas e populares canções portuguesas, como é o caso de “Lisboa Antiga” ou “Lisboa não sejas francesa”, também elas versionadas por artistas internacionais.
Das dezenas de versões desta canção são de destacar, para além das diversas versões orquestrais instrumentais, também versões em ritmos de salsa, mambo, acordeão, carrilhão, jazz, entre outros estilos.
Não certamente tão recorrente é a versão disco de “Coimbra”, numa mescla de português/francês que apresentamos hoje aos nossos leitores. A intérprete é Maria Mendes neste single de 1978 gravado para a etiqueta francesa Togo Saga Music. De destacar, que o lado B do disco é composto pelo tema “Girassol” com letra da própria artista, sendo que os arranjos de ambas as músicas ficaram a cargo de Gilbert Grilli. Não sendo propriamente um estilo musical que acompanhemos de perto, não podemos deixar de ficar indiferentes aos excelentes arranjos, nomeadamente a secção de metais que enriquece em muito esta interessante versão de "Coimbra".


Clique no Play para ouvir um excerto de "Coimbra"

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(OU) TRAVOLTA NA MÚSICA PORTUGUESA


Em 1977, estreou nos cinemas um dos filmes que mais marcou a década de 70 e que contribuiu para a massificação do disco-sound como género musical dominante nas pintas de dança, renegando para segundo plano o rock & roll, tal como antes este renegara para segundo plano o swing e a suas Big bands. Falamos obviamente de Saturday Night Fever (“A febre da sábado à noite”), dirigido por John Badham e que consagrou John Travolta a nível mundial, através da sua interpretação da personagem Tony Manera, jovem trabalhador numa loja de tintas que, aos fins de semana saía do anonimato, fazendo sucesso junto das pistas de dança.
Ora, para muitos cépticos seria impossivel imaginar que também o Zé Povinho, personificando a labuta semanal do povo português, poderia também com o seu airoso perfil campestre fazer sucesso nas pistas de dança portuguesas, tal como assim o fez Travolta em "Saturday Night Fever", ao ponto de Zé Povinho poder ser mesmo apelidado de “Zé Travolta”. Contudo, o impossível, principalmente na música, é palavra desconhecida. Principalmente para Shegundo Galarza e sua equipa que, dois anos após Saturday Night Fever, não hesitou em aliar o novo som mundial ao nosso tradicional som das Marchas Populares, tendo o resultado sido um interessante álbum de “disco-marcha”, tão tipicamente português.
Vertido em dois longos medleys que preenchem uma faixa de cada um dos lados do disco, “(Ou)Travolta na Música Portuguesa”, faz jus ao título de capa, na medida em que Shegundo Galarza com a sua versatilidade e rigor, conseguiu dar uma “outra volta” a temas popularizados nas Marchas de Lisboa, transportando-os directamente para as pistas de dança. Aliás, tal não terá sido por mero acaso, visto que, mesmo tecnicamente a marcha popular e o disco sound são ritmicamente similares.
Acresce ainda destacar o interessante grafismo presente na capa do disco, com um Zé-Povinho, com calças e botas de dança encarnado Travolta, ao mesmo tempo que da cintura para cima mantêm o figurino tradicional português.

Clique no Play para ouvir um excerto do disco

Boom 5004 (72133)- Edição Especial para os sócios do Círculo de Leitores.

Lado A :Lá vai Lisboa/ Marcha do Centenário/Lisboa dos Milagres/Cheira a Lisboa/Lisboa dos Manjericos
Lado B :S. João Bonito/ Cantiga da Rua/Grande Marcha de Lisboa/ Lisboa à noite/Marcha do bairro alto

Shegundo Galarza - Arranjos e direcção musical, teclas, efeitos
José Nabo – Baixo
João Henrique – Produção, viola, efeitos
Ramon Galarza – Bateria/percussão/efeitos
Metais : Constantino Jesus, António Gomes, Idalino Roque, Gilberto Mota
Coros : João Henrique, Paulo de Carvalho, Rosa do Canto, Dulce Neves e Joana.
Som: José Fortes
Gravado na Rádio Triunfo em 8 pistas (dolbizadas)
Capa : Vitor Mesquita