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domingo, 21 de fevereiro de 2010

CHEGOU A YENKA ! TEREZITA GALARZA


Em 1965, o duo Jonnhy & Charley Kurt lançou na Europa um disco com uma canção que se transformou na canção desse Verão. Tal canção chamava-se “La Yenka” e tinha a particularidade de ser cantada acompanhada por uma engraçada coreografia, que rapidamente se transmutou numa dança recorrente nos meados da década de 60 em toda a Europa.
Contrariamente ao que acontece hoje em dia, em que quase todas as composições de grande sucesso são coreografias disfarçadas de canções, promovidas por grandes produções videográficas, nos anos 60 eram poucas as bandas que juntamente com o lançamento de uma determinada canção as faziam acompanhar por um videoclip. A Europa continental não fugia a essa regra e tal como assim sucedeu em Portugal, face à ausência de um videoclip oficial, a contracapa do disco trazia impressa ilustrações que ensinavam os ouvintes a dançar a yenka seguindo cinco passos obrigatórios: saltando para a esquerda duas vezes, saltando para a direita duas vezes, um salto à frente e um salto atrás, culminando com três saltos à frente.


A yenka apareceu em Portugal numa época em que começavam a nascer em Portugal as primeiras bandas pop rock, embora ainda numa fase muito embrionária e tímida, contrariamente ao “yé yé” que era já moda e fenómeno musical bastante divulgado, nomeadamente através dos inúmeros festivais e concursos de Yé Yé que proliferavam um pouco por todo o país. Liricamente inofensivas para o regime político de então, muitas dessas canções yé yé foram autênticos sucessos em Portugal, fossem elas composições originais ou simplesmente versões de composições estrangeiras. Também assim o é a versão portuguesa de “A Yenka”, interpretada por Terezita Galarza, com letra adaptada para português de Hernâni Correia e com arranjos de Shegundo Galarza (que mais podia ser ?), uma canção interpretada pela voz de uma rapariga ainda menina que, contudo, consegue convidar com voz convincente todos os ouvintes (principalmente os mais novos) a juntar-se a ela e a dançar a yenka, segundo as instruções que constavam na contracapa do disco.
Desconhecemos o parentesco de Terezita Galarza com Shegundo Galarza, embora não hesitemos em afiançar que, seguramente, seriam familiares bem próximos devido às parecenças faciais destas duas figuras. Igualmente desconhecemos o percurso musical de Terezita Galarza, se é que o mesmo alguma vez existiu, ou se este disco se tratou de uma mera aventura musical da família Galarza.
Os restantes temas do disco são um reflexo das novas tendências da música que Portugal começava a assimilar a par do fado e que, em certa medida, se mantiveram quase que estanques até finais da década de 60, altura em que, como veremos mais para a frente, o verdadeiro movimento de rock de identidade própria portuguesa começa a emergir, renegando para segundo plano o (tão injustamente) apelidado de nacional-cançonetismo.


Clique no Play para ouvir um excerto do disco

Terezita Galarza acompanhada pelo Conjunto de Shegundo Galarza

1. Chegou a Yenka (Shegundo Galarza – Hernâni Correia)
2. Quero ser alguém (Shegundo Galarza – Hernâni Correia)
3. Chica yé yé (António Algueró – António Guijarro)
4. Olha o palhaço (José Santos Rosa – Hernâni Correia)
Alvorada 60772 (E.P.).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(OU) TRAVOLTA NA MÚSICA PORTUGUESA


Em 1977, estreou nos cinemas um dos filmes que mais marcou a década de 70 e que contribuiu para a massificação do disco-sound como género musical dominante nas pintas de dança, renegando para segundo plano o rock & roll, tal como antes este renegara para segundo plano o swing e a suas Big bands. Falamos obviamente de Saturday Night Fever (“A febre da sábado à noite”), dirigido por John Badham e que consagrou John Travolta a nível mundial, através da sua interpretação da personagem Tony Manera, jovem trabalhador numa loja de tintas que, aos fins de semana saía do anonimato, fazendo sucesso junto das pistas de dança.
Ora, para muitos cépticos seria impossivel imaginar que também o Zé Povinho, personificando a labuta semanal do povo português, poderia também com o seu airoso perfil campestre fazer sucesso nas pistas de dança portuguesas, tal como assim o fez Travolta em "Saturday Night Fever", ao ponto de Zé Povinho poder ser mesmo apelidado de “Zé Travolta”. Contudo, o impossível, principalmente na música, é palavra desconhecida. Principalmente para Shegundo Galarza e sua equipa que, dois anos após Saturday Night Fever, não hesitou em aliar o novo som mundial ao nosso tradicional som das Marchas Populares, tendo o resultado sido um interessante álbum de “disco-marcha”, tão tipicamente português.
Vertido em dois longos medleys que preenchem uma faixa de cada um dos lados do disco, “(Ou)Travolta na Música Portuguesa”, faz jus ao título de capa, na medida em que Shegundo Galarza com a sua versatilidade e rigor, conseguiu dar uma “outra volta” a temas popularizados nas Marchas de Lisboa, transportando-os directamente para as pistas de dança. Aliás, tal não terá sido por mero acaso, visto que, mesmo tecnicamente a marcha popular e o disco sound são ritmicamente similares.
Acresce ainda destacar o interessante grafismo presente na capa do disco, com um Zé-Povinho, com calças e botas de dança encarnado Travolta, ao mesmo tempo que da cintura para cima mantêm o figurino tradicional português.

Clique no Play para ouvir um excerto do disco

Boom 5004 (72133)- Edição Especial para os sócios do Círculo de Leitores.

Lado A :Lá vai Lisboa/ Marcha do Centenário/Lisboa dos Milagres/Cheira a Lisboa/Lisboa dos Manjericos
Lado B :S. João Bonito/ Cantiga da Rua/Grande Marcha de Lisboa/ Lisboa à noite/Marcha do bairro alto

Shegundo Galarza - Arranjos e direcção musical, teclas, efeitos
José Nabo – Baixo
João Henrique – Produção, viola, efeitos
Ramon Galarza – Bateria/percussão/efeitos
Metais : Constantino Jesus, António Gomes, Idalino Roque, Gilberto Mota
Coros : João Henrique, Paulo de Carvalho, Rosa do Canto, Dulce Neves e Joana.
Som: José Fortes
Gravado na Rádio Triunfo em 8 pistas (dolbizadas)
Capa : Vitor Mesquita

sábado, 12 de setembro de 2009

Fernando Ribeiro

Shegundo Galarza foi, sem sombra de dúvida, um dos músicos e maestros mais talentosos que alguma vez passou por Portugal. Radicado em terras lusas desde a década de 40, durante mais de seis décadas, lançou um infindável número de discos, ora em nome próprio, ora como arranjador de dezenas de músicos com os quais trabalhou, passando por todos géneros musicais, desde o clássico, o popular ao jazz. Ficaram célebres os famosos discos de Shegundo Galarza para a etiqueta “Estoril”, bem como outros tantos, que, mais à frente, na devida altura, abordaremos. Dos músicos com os quais trabalhou, uns são sobejamente conhecidos (tais como Amália Rodrigues, Tony de Matos, Maria da Fé ou José Cid) e outros, certamente menos conhecidos e que, nos tempos de hoje, deixaram de ter protagonismo e, quiçá, ficaram para sempre perdidos no esquecimento.
Cabe-nos hoje recuar um pouco no tempo, e no panorama musical português dos anos 60 e 70, altura em que a panóplia de estilos musicais florescia sem quaisquer reservas (embora com privilégio para o fado), para encontrarmos imensos discos de acordeonistas que, de uma forma mais ou menos conseguida (tais como Eugénia Lima, Filipe de Brito, Isidro Baptista, Tino Costa, Victor José,  entre outros) atingiram algum sucesso nos meios mais populares e até a nivel de todo o território nacional.
Um dos acordeonistas que, infelizmente, não é conhecido (nem reconhecido) na actualidade é  Fernando Martinho Cordeiro Ribeiro, mais conhecido pelo nome abreviado de Fernando Ribeiro que, para além de executante do acordeão, era também compositor e orquestrador, sendo um acordeonista virtuoso, que teve a honra, de tocar acompanhado pela secção de violinos dirigida pelo também virtuoso Shegundo Galarza. Através do disco que hoje apresentamos, assistimos a um encontro entre a música de raiz popular protagonizado por Fernando Ribeiro e a dimensão orquestral da música erudita. Dois estilos mas um resultado comum: Portugal popular elevado à grandeza orquestral.

Pretendemos de forma muito simples relembrar, por um lado, Shegundo Galarza (que toda a gente conhece) e, por outro lado, trazer à memória as nossas raízes populares interpretadas por Fernando Ribeiro (hoje um perfeito desconhecido). Aliás, não só se invocam as memórias das nossas raízes, através do som popular do acordeão, como também os próprios títulos das canções espelham aquilo que hoje se vai perdendo cada vez mais, tais como as desgarradas, os viras, as brincadeiras entre parreiras, os despiques algarvios, entre muitos outros...pesar do perfeito desconhecimento do virtuosismo das gravações de Fernando Ribeiro, este acordeonista gravou, desde 1946 para a frente, inúmeros discos, para diversas editoras nacionais e estrangeiras (como por exemplo, a Rapsódia, Estúdio, Belter, Alvorada ou Parlophone), acompanhado na grande maioria das vezes pela sua esposa, Fernanda Guerra, também acordeonista que conheçeu em 1948 e com a qual viria a casar em 1955. Curiosamente, foi a partir do casamento com Fernanda Guerra que o seu sucesso aumentou em grande parte devido ao Duo que entretanto criara com a sua esposa.
Principalmente desde a década de 60 para a frente para além das suas actuações a solo, acompanhou dezenas de artistas portugueses bem conhecidos, tais como Tony de Matos, Francisco José, Carlos do Carmo, entre muitos outros. O seu sucesso levou-o a conhecer meio mundo, tendo actuado em quase toda a Europa, E.U.A. Austrália, sem olvidarmos as nossas então províncias ultramarinas. Compôs centenas de obras para acordeão (desde o popular ao erudito) e para teatro de revista , onde, aliás, trabalhou entre 1987 e 1996, compositor , arranjador e ensaiador de actores no Teatro Maria Vitória, findando o duo que até então manteve com a sua esposa.
Mais um disco e um artista que aqui nos apraz, orgulhosamente, divulgar para que a sua memória musical perdure, pelo menos nos recônditos mundos da Internet. Qualquer informação adicional sobre este músico, pois a nossa resume-se ao disco que em questão, será sempre bem vinda, para aos poucos construirmos uma verdadeiro enciclopédia de ilustres desconhecidos portugueses.

Clique no Play para ouvir um excerto do disco