domingo, 27 de dezembro de 2009

Zaca da Silva - Canção do Mar


Recentemente, veio-nos parar às mãos um interessante disco, gravado na África do Sul (onde há vários anos atrás residiam milhares de portugueses) que não hesitamos partilhar com os nossos ouvintes, dado o mistério que sobre si recai. Trata-se de um disco de “Zaca da Silva and His Trio” com o título de capa “Queme”. Para alguém menos atento, tal disco poderia ser facilmente confundido com um disco de música brasileira ou latino-americana. No entanto, após leitura atenta da contracapa do exemplar que adquirimos, chegamos à conclusão tratar-se de música portuguesa, tocada e cantada por intérpretes portugueses, oferecendo uma excelente amostra do virtuosismo dos músicos portugueses que procuraram a sua sorte além-fronteiras, nomeadamente oriundos de Portugal insular, como é o caso deste trio da ilha da Madeira.
Efectivamente este trio terá corrido mundo, tocando nos principais bares e hotéis de Luanda, Lourenço Marques (actual Maputo, onde permaneceram durante dois anos no hotel Girassol), encontrando-se há data da gravação deste E.P. como músicos residentes do Bal Tarabin Night Club em Joanesburgo. Terá sido durante a estadia deste agrupamento na África do Sul, que se criaram as condições para a gravação de um disco de Zeca da Silva and his Trio pela etiqueta sul africana RAVE (REP 42). De registar, para além da qualidade indubitável destes músicos, são também os interessantes erros de escrita que detectámos no alinhamento das canções que compõem o disco, associados, naturalmente à pronúncia da língua portuguesa através da língua inglesa. Efectivamente, só após a audição de cada um dos temas é que pudemos decifrar o verdadeiro alinhamento do disco e descobrir os títulos, que traduziremos para português correcto:
Zaca da Silva and his trio – Zeca da Silva e o seu Trio
Cancado do Mar – Canção do Mar
Queme – Quem é ?
Senhora da Nazare – Senhora da Nazaré
Never on sunday - Título correcto




O trio de Zeca da Silva foi para Moçambique pela primeira vez em 1960 e actuou no Hotel Girassol de Lourenço Marques, sendo na altura verdadeiramente um quarteto. Muito devido à qualidade que evidenciava, Zeca da Silva e o seu Conjunto, acompanharam a eleita Rainha da Rádio de Moçambique de 1960, Marinela, na gravação do seu primeiro disco para a Alvorada. Em 1961, o quarteto partiu para uma temporada na Rodésia, à semelhança do que era habitual nos conjuntos de jazz ou de ritmos modernos que se encontravam no Ultramar, que percorriam vários países africanos fronteiriços como a África do Sul, fixando-se aí em "boites" e Hoteis de renome, nomeadamente em Joanesburgo. Como era também bastante comum, estas formações sofriam contínuas alterações na sua composição. Por exemplo, depois de desfeito e refeito, em Dezembro de 1966, o quarteto de Zeca da Silva era apenas um trio formado por Carlos Rodrigues (baterista e vocalista) Fernando Guerreiro (contrabaixo, vibrafone e acordeão) e Zeca da Silva, ao piano. À data da gravação deste disco (data que ignoramos) era composto pelos seguintes elementos, todos eles (quase de certeza) provenientes da escola jazzística : Zeca da Silva (piano), Fernando Olim (guitarra), Artur Andrade (baixo) e Tony Oliveira (bateria e voz), todos eles participantes nas gravações deste disco.
O Trio Zeca da Silva, em 1966
Para além do interesse musical que este disco desperta, numa mescla de jazz com influências latinas, é o facto de este agrupamento ter revestido duas das mais populares canções portuguesas (Canção do Mar e Senhora da Nazaré), com uma instrumentalização totalmente apropriada ao Bal Tarabin Night Club, onde tocavam habitualmente, ou seja, musica ambiente de bar de hotel.
Á semelhança de outros artistas, já por nós comentados, desconhecemos por completo o antes e o depois desta formação quer em termos biográficos, quer em termos discográficos, uma vez que, pelo menos, em Portugal, não encontramos qualquer referência a Zeca (Zaca) da Silva e o seu trio, pelo que qualquer informação sobre este trio será sempre bem vinda, nomeadamente relativa à sua formação original e ano de dissolução definitiva.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A Caminho de Belém

Chegamos a mais um Natal e como é evidente, não podíamos deixar de invocar esta quadra festiva e todos os sentimentos que emanam da época natalícia. É neste dia que, aparentemente e por breves momentos, todos nós esquecemos o egoísmo próprio do Homem, dando lugar à partilha, à alegria e, sobretudo, à fraternidade entre todos, altura em que sobressai o reunir da família, enquanto uma das muitas manifestações da mensagem de Cristo. Tal como se escreveu na contracapa do disco, “não há Natal sem música, sem alegria, sem o repicar festivo dos sinos, sem a alegria das crianças.”.
Dados os enormes conflitos, consumismo desenfreado e guerras que assolam cada vez mais toda a humanidade, somos obrigados a reflectir em relação ao actual impacto que o Natal tem na sociedade contemporânea. Contudo, como o objecto do nosso blogue é diverso, não nos alongaremos demais nestas considerações laterais, lançando apenas para o ar uma interrogação mais do que batida: “Afinal o Natal não devia ser todos os dias ?”.



Pois bem, ao escolhermos hoje este tema conseguimos reunir, em pouco mais de 2 minutos, a alegria, os sinos de Natal (através dos onomatopaicos Coros da Orquestra de Resende Dias) e a alegria das crianças, não fosse “A caminho de Belém”, interpretado por uma criança de nome Nelinha Bigaíl.
À data do lançamento deste E.P. não era muito profícua a produção, em disco, de composições de Natal não populares, pois o seu espaço comercial era reservado quase em exclusividade às composições eruditas, circunscritas aos temas clássicos germano/ anglo-saxónicos de Natal.
Para além de Nelinha Bigaíl, interpretam este disco o Coral Sacro de S. Tarcísio da Igreja da Lapa, dirigido pelo Padre Manuel de Lima, Júlio Guimarães e a já referida Orquestra e Coro de Resende Dias.


Escolhemos, de entre os quatro temas do disco “Noite Santa, Noite Feliz”, uma composição de carácter profano, uma vez que aborda não só o Natal, como também a viagem dos Reis Magos na sua jornada até à gruta de Belém, sendo de destacar a particularidade de sobressair do arranjo instrumental o acordeão como instrumento solista.



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Lado A 1. Noite Santa, Noite Feliz (pelo Coral Sacro S. Tarcísio da Igreja da Lapa)
Lado A 2. Natal (Júlio Guimarães)
Lado B 1. A caminho de Belém (Nelinha Bigaíl e Coro e Orquestra de Resende Dias)
Lado B 2. Vamos ao presépio (pelo Coral Sacro S. Tarcísio da Igreja da Lapa)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Bocage - Sonetos Eróticos


Não somos propriamente grandes entendidos em literatura. Todavia iremos fazer uma breve incursão por esses domínios, aliando o gosto pela poesia e pela música, acrescentando-lhe ainda um outro (picante) aperitivo: o erotismo. Se a literatura e a música, de uma forma ou outra, têm sido exploradas em Portugal desde (pelo menos) a época pré-medieval, o mesmo já não se poderá dizer do erotismo enquanto temática da literatura, e muito menos do trio “música, literatura e erotismo” combinadas entre si. É isso mesmo que hoje pretendemos abordar, trazendo à memoria os famosos sonetos eróticos de Bocage (1765-1805), precisamente através da sua reprodução em disco, na voz de Andrade e Silva (que curiosamente, num sentido diametralmente inverso, participou como declamador em vários discos de histórias infantis da editora Estúdio).
Para além de efémeras referências ao erotismo em algumas cantigas de escárnio e de maldizer, durante muitos anos o erotismo na literatura portuguesa foi conotado marcadamente pela Ilha dos Amores de Luís de Camões.
Já com Bocage, poeta nascido no contexto do pré-romântismo, imperou a sua apetência natural para a libertinagem e transgressão da moral e dos bons costumes padronizados da época. Para além do homem viajado que foi, tal como Camões, foi já nos últimos anos da sua curta vida, que os seus primeiros poemas começaram a ser publicados. Contudo, só cerca de 50 anos após a sua morte, é que foram publicadas as “Poesias Eróticas, Burlescas e Satyricas” atribuídas a Bocage, que devido ao seu conteúdo, muitas vezes para evitar a sua apreensão judicial, eram impressas e editadas de forma clandestina.
Felizmente, os tempos mudaram e o disco que hoje apresentamos “Bocage – Sonetos Eróticos” (Estúdio EEP 50269), não precisou de ser impresso clandestinamente, bem pelo contrário. Podemos dizer, sem outras intenções, que foi tudo feito às claras. Como é evidente, num disco desta natureza, os arranjos musicais não se querem muito produzidos, mas minimalistas, razão pela qual apenas uma ambiência preenchida por notas de piano, acompanha a declamação de Andrade e Silva.
Convidamos os nossos leitores a ouvirem um trecho deste disco, adiantando desde já que apresenta conteúdo sexualmente explícito, ultrapassando mesmo os domínios do mero erotismo…

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Luiz Rego - Fernando Pessoa Bossa Nova


Foi com grande prazer que, literalmente, resgatámos, salvando-o de um provável triste destino o disco que hoje apresentamos aos novos ouvintes. Trata-se de um single, de Luiz Rego, personagem quase esquecida do panorama musical português, provavelmente um dos portugueses emigrantes mais respeitados, nomeadamente em solo francês, onde há muitos anos se radicou.
Nascido em 1944, oriundo de uma família anti-salazarista, Luiz Rego deixa Lisboa em 1962, ainda com 17 anos de idade, para evitar um eminente recrutamento para o serviço militar em Angola, tendo chegado a França, onde executou toda a espécie de trabalhos: primeiramente ocupado numa fábrica, depois como ajudante de cozinha, fez de tudo um pouco, até finalmente encontrar, por mero acaso (como muitas coisas na vida) os músicos que iriam influenciar para sempre a sua entrada para o mundo artístico, nomeadamente o mundo do espectáculo e da representação. Por essa razão, é hoje conhecido em França como músico, actor (tendo contracenado, entre outros, com Gérard Depardieu) dramaturgo e, maioritariamente, conhecido por comediante.
Através da formação de Les Problemes, grupo de rock de culto em França, o qual Luiz Rego ajudou a formar (enquanto baixista), deu o salto para o mundo da canção e mais tarde da representação. Efectivamente, desfeito o grupo Les Problemes, o mesmo deu origem a uma nova formação, Les Charlots, inicialmente um grupo de cómicos, adaptado mais tarde a formação de rock ao sabor da corrente ye ye e rockabilly.
Facto interessante é que, depois de Les Problemes se terem estreado na televisão francesa e do sucesso imediato que tiveram, quando o agrupamento se deslocou a Portugal pela primeira vez, Luiz Rego foi imediatamente detido e preso durante vários meses, por fuga ao serviço militar. Sendo, por isso, Luiz Rego, um dos poucos prisioneiros políticos portugueses a quem foi dedicado um título de uma canção, pelos outros elementos do grupo, intitulada "Ballade à Luis Rego, Prisonnier Politique", sendo quase certo que, Luiz Rego não terá participado na gravação desse E.P., lançado pela Etiqueta Vogue... precisamente por estar preso!

Facto menos conhecido é que, aproveitando o talento comprovado que lhe era reconhecido, Luiz Rego, mais tarde, (provavelmente paralelamente ao seu trabalho com a banda Les Charlots...), grava através da mesma etiqueta, um single em estéreo (não muito comum para a época), cantado em português, onde para além de musicar um poema de Fernando Pessoa (Quadras Soltas) e uma outra composição com letra de Maria Flávia (Amor novo), se apresenta com uma sonoridade totalmente surpreendente para a época (só mesmo comparável ao melhor do Quarteto 1111), principalmente neste último tema. Já o tema Quadras Soltas, é uma transformação radical dos versos de Pessoa, numa maravilhosa bossa nova, que sinceramente, não nos cansamos de escutar, tendo sido mesmo Luiz Rego, um dos primeiros cantores a musicar um tema de Fernando Pessoa.
Uma curiosidade, que desconhecíamos também, é o facto deste disco Vogue, de 1970, com a referência V.45.1730, ter também a sua versão portuguesa, edição Arnaldo Trindade & CA., Lda, com a referência VATS 3002 “Disques Vogue”, sendo esta versão portuguesa que apresentamos hoje aos nossos ouvintes.
Tanto quanto sabemos, este single contém as únicas canções gravadas em português por Luiz Rego, conhecendo apenas a gravação de mais um L.P. a solo, também editado pela Vogue, cujo ano de edição desconhecemos.

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sábado, 21 de novembro de 2009

O Carrilhão de Mafra - Lisboa Antiga

Um dos monumentos portugueses mais conhecidos é o Convento de Mafra (mandado construir por D. João V. entre os anos de 1717 e 1737) não só pela sua imponente arquitectura mas também pelos sons que emanam do famoso carrilhão do convento de Mafra, cujo prestígio tem sido reconhecido além fronteiras ao longo dos séculos, tendo sido já diversos carrilhadores (o m.q. carrilhanores e carrilhanistas) nacionais e estrangeiros que têm tido a honra de executar as mais diversas composições musicais no Convento de Mafra, desde os temas mais eruditos aos mais populares.
De acordo com as informações na contra capa do disco que hoje apresentamos, as enormes torres do Convento de Mafra têm 68 metros de altura, dispostas com 57 sinos em cada uma das torres, num total de 114 sinos, sendo que os sinos das grandes horas pesam cerca de 11750 kg, com um diâmetro de boca de 2,53 metros e 2,4 metros de altura. O mais conhecido sino do Convento de Mafra é o chamado “Bizarro”, por ser o de maior ressonância, que se pode ouvir a 15 km de distância (!).Na altura desta gravação (1970) os suportes dos sinos que ficavam no pavimento inferior ao das horas encontravam-se bastante danificados. Felizmente, há alguns anos atrás, obras urgentes de restauro garantiram a preservação deste verdadeiro património sonoro nacional.
Os carrilhões são tocados com os pés e mãos por teclados semelhantes aos dos pianos e cilindros análogos aos das caixas de música. Neles se executam as mais complicadas peças, estando dispostos por meio de um mecanismo especial para tocar automaticamente a todas as horas, meias horas e quartos de hora. Actualmente, Francisco Gato é o mais antigo carrilhonista português, dedicando todo o seu tempo aos sinos da Torre Sul do Convento de Mafra, sendo também o responsável por muitos concertos de carrilhão que se realizam ainda hoje naquele espaço.
Neste interessante disco “Musica de Portugal – Carrilhão de Mafra”, o carrilhanor (tal como é descrito no disco) executa não temas associados à temática litúrgica (como é mais frequente) mas antes, temas do universo popular português, aliada a duas composições originais mas não menos conhecidas pelos portugueses. Assim, no total de seis temas executados por Jacques Lannoy (carrilhonista do Convento de Mafra desde 1965 a 1984) destacámos para apresentação desde E.P. uma das mais bonitas canções portuguesas de todos os tempos da autoria de Raúl Portela, “Lisboa Antiga”, a qual tem sido também, interpretada por dezenas de fadistas, cantores de musica ligeira, não só portugueses como também estrangeiros. No entanto, parece-nos interessante apresentar aos nossos leitores uma abordagem diferente de Lisboa Antiga, através da linguagem do carrilhão. Para o ouvinte mais atento, facilmente reconhecerá ao ouvir os primeiros segundos do trecho que aqui deixamos a belíssima melodia que preenche a riqueza de Lisboa Antiga.
Como mera curiosidade, não deixa de ser interessante o facto de a construção do Convento de Mafra ter sido fruto de uma promessa de D. João V, em virtude de ao fim de 3 anos de casamento ainda não ter sido agraciado com um herdeiro. Felizmente, para nós, D. José I deu à luz um ano depois da promessa feita, facto que o levou a erguer o Convento e a comprar os carrilhões para Mafra. Caso contrário, muito provavelmente não estaríamos hoje a ouvir neste espaço os sinos do convento de Mafra a tocarem.


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domingo, 15 de novembro de 2009

Deniz Cintra - Balada dos Homens e Mulheres Sentados


Falaremos hoje de Deniz Cintra, um artista, já falecido, a quem o povo português ainda não prestou a justa homenagem e que tantas vezes é esquecido, nomeadamente quando todos os anos, por altura do 25 de Abril, se trazem à memória os mesmos cantores de intervenção de sempre, os quais, como se sabe, optaram, na sua grande maioria pelo género balada, enquanto prenúncio de uma nova canção, introduzida por José Afonso. Infelizmente sobre Deniz Cintra, a informação é escassa ou nula, sabendo nós que terá gravado pelo menos mais 2 EP's, para além do que hoje apresentamos e que é irmão do actor e encenador Luís Miguel Cintra.
Felizmente, na contracapa do EP que resgatámos recentemente de uma loja de antiguidades, consta um texto de apresentação de Deniz Cintra escrito por Nuno Portas (adaptado de um depoimento publicado em “A Mosca” em 13 de Setembro de 1969), que pelo seu interesse e dada a nossa falta de informação sobre Deniz Cintra, passaremos a transcrever nos seus parágrafos essenciais:

A balada, prenúncio de uma nova geração, não tem tido as mesmas condições de expressão de outras espécies de música dita ligeira mais ou menos comercial quer pelo desconforto temático que introduz, quer pela perturbação que poderia introduzir, quando atingida dimensão popular, nos interesses organizados da indústria e no clima passivo dos espectáculos musicais. Por este motivo interessa discuti-la – não na base das duas intenções mas antes nas potencialidades de comunicação-participação, ou de outro modo, na força que contenha ou possa desenvolver para a criação de um espaço cultural de gente nova acordada - em ritmo-comum. Daí a dívida que temos pelo arranque dado por um José Afonso ou um Adriano Correia de Oliveira (...)

Na nova canção (balada será termo demasiado particular de um género demasiado revivalista) o interprete é a chave do elemento significante ao mesmo nível das palavras e do tema musical. A sua forma de cantar é já em si mesma parte decisiva da mensagem: a que nos permite perceber a autenticidade, o inconfundível. Por isso senti na força irresistível vocal do Deniz Cintra, quando o ouvi ao vivo, potencialidades para romper com a relativa passividade, talvez de ilustradores de poema, que me parece dominar na actual fase desta forma de comunicação, a que atribui uma importância cultural própria para além de uma intenção de alargamento do consumo da poesia-escrita que me parece bem secundária e mesmo esteticamente equívoca. O suporte poético usado (cantado) na nova canção não pode senão sofrer nela uma metamorfose, não pode senão ser traído, em nome de outra vontade e de outra forma e de outro tempo de comunicar. É a incessante re-descoberta da comunicação colectiva, feliz, que a todos importa.”

Fica então hoje, um pequeno relato de Deniz Cintra, conforme o texto citado anunciava, um cantor promissor na renovação da balada em Portugal, tal como Dylan e Baez o foram ao mesmo tempo, cuja voz sentida, profunda e melancólica, a espaços nos conduz ao timbre de um José Almada, outro cantor também relativamente esquecido dos portugueses.

Clique no Play para ouvir um excerto de "Balada dos Homens e Mulheres Sentados"


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Deniz Cintra
Lado 1. Manuel (D. Cintra) Pobre Velho (D. Cintra)
Lado 2. Balada dos Homens e Mulheres Sentados (D. Cintra)/ Maria do Ó (D. Cintra)
Philips 431 932 PE

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma Noite na Nau Catrineta

Não iremos na mensagem de hoje dissertar sobre a origem do fado e da sua popularização desde os finais do séc. XIX até às mais recentes fusões com outras correntes musicais. Iremos sim, convidar os leitores mais afortunados pela longevidade, com a nostalgia inerente ao próprio fado, a recuar aos tempos em que se deliciavam na Nau Catrineta, restaurante típico lisboeta que tinha a particularidade de englobar também um casa de fados.
Combinar num mesmo local uma casa de fados e um restaurante, não era propriamente raro em Lisboa, bem pelo contrário; eram inúmeras as populares casas de fado com estas características (tal como hoje, embora em menor escala, assim acontece). No entanto, destacamos hoje a Nau Catrineta, por se tratar de uma casa de fados que hoje já não existe, uma vez que, segundo o que conseguimos apurar, o prédio onde a mesma imperou foi demolido nos anos 90. (Aliás, mesmo antes de ter mudado o nome para “O Poeta”, esta típica casa de fados já havia estado encerrada durante largos anos). Através do interessante arquivo sonoro que nos chegou às mãos, pretendemos realçar a importância que outrora durante largas décadas a Nau Catrineta teve no circuito fadista de Lisboa. Peculiarmente decorada, fazendo recordar, como o seu nome assim o indica, o interior de uma nau, esta casa de fados invocava não só a vida de marinheiros, como também, devido à sua decoração, o quotidiano da vida dos bairros alfacinhas. Foram centenas de fadistas, amadores ou profissionais, que por lá passaram e que para a sua nostalgia contribuíram, entre eles Manuel Fernandes, Natália dos Anjos, Maria José da Guia, Alice Maria da Conceição, Dinóra Carmen, o guitarrista Adelino dos Santos e violeiro Santos Moreira, que se juntaram um noite na Nau Catrineta, para dar origem a um disco gravado ao vivo, provavelmente o primeiro de uma série de 3 E.P.S.(?) que hoje resgatamos da poeira do vinil para imortalizar a Nau Catrineta.

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Lado A
1.Variações sobre o fado antigo (Variações/ Arr. Adelino dos Santos)
2. Relembrando o passado (José Marques/ Carlos Conde) - Por Manuel Fernandes

Lado B
1. Desgarrada (Fado Mouraria/Popular) - Por Manuel Fernandes, Natália dos Anjos,Maria José da Guia, Alice Maria da Conceição e Dinora Carmen
2. Pobre Chita - Fado Marcha (R. Ferrão-R. Portela/G. de Oliveira) - Por Natália dos Anjos
Acompanhados por Adelino Santos (guitarra) e Santos Moreira (viola)
Alvorada AEP 60501

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(OU) TRAVOLTA NA MÚSICA PORTUGUESA


Em 1977, estreou nos cinemas um dos filmes que mais marcou a década de 70 e que contribuiu para a massificação do disco-sound como género musical dominante nas pintas de dança, renegando para segundo plano o rock & roll, tal como antes este renegara para segundo plano o swing e a suas Big bands. Falamos obviamente de Saturday Night Fever (“A febre da sábado à noite”), dirigido por John Badham e que consagrou John Travolta a nível mundial, através da sua interpretação da personagem Tony Manera, jovem trabalhador numa loja de tintas que, aos fins de semana saía do anonimato, fazendo sucesso junto das pistas de dança.
Ora, para muitos cépticos seria impossivel imaginar que também o Zé Povinho, personificando a labuta semanal do povo português, poderia também com o seu airoso perfil campestre fazer sucesso nas pistas de dança portuguesas, tal como assim o fez Travolta em "Saturday Night Fever", ao ponto de Zé Povinho poder ser mesmo apelidado de “Zé Travolta”. Contudo, o impossível, principalmente na música, é palavra desconhecida. Principalmente para Shegundo Galarza e sua equipa que, dois anos após Saturday Night Fever, não hesitou em aliar o novo som mundial ao nosso tradicional som das Marchas Populares, tendo o resultado sido um interessante álbum de “disco-marcha”, tão tipicamente português.
Vertido em dois longos medleys que preenchem uma faixa de cada um dos lados do disco, “(Ou)Travolta na Música Portuguesa”, faz jus ao título de capa, na medida em que Shegundo Galarza com a sua versatilidade e rigor, conseguiu dar uma “outra volta” a temas popularizados nas Marchas de Lisboa, transportando-os directamente para as pistas de dança. Aliás, tal não terá sido por mero acaso, visto que, mesmo tecnicamente a marcha popular e o disco sound são ritmicamente similares.
Acresce ainda destacar o interessante grafismo presente na capa do disco, com um Zé-Povinho, com calças e botas de dança encarnado Travolta, ao mesmo tempo que da cintura para cima mantêm o figurino tradicional português.

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Boom 5004 (72133)- Edição Especial para os sócios do Círculo de Leitores.

Lado A :Lá vai Lisboa/ Marcha do Centenário/Lisboa dos Milagres/Cheira a Lisboa/Lisboa dos Manjericos
Lado B :S. João Bonito/ Cantiga da Rua/Grande Marcha de Lisboa/ Lisboa à noite/Marcha do bairro alto

Shegundo Galarza - Arranjos e direcção musical, teclas, efeitos
José Nabo – Baixo
João Henrique – Produção, viola, efeitos
Ramon Galarza – Bateria/percussão/efeitos
Metais : Constantino Jesus, António Gomes, Idalino Roque, Gilberto Mota
Coros : João Henrique, Paulo de Carvalho, Rosa do Canto, Dulce Neves e Joana.
Som: José Fortes
Gravado na Rádio Triunfo em 8 pistas (dolbizadas)
Capa : Vitor Mesquita

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jorge Pina e Gervásio Pina

Existe actualmente um agrupamento musical denominado “Pina Trio”, composto por três músicos experientes e com créditos já firmados na música portuguesa, do qual fazem parte os irmãos Gervásio e Jorge Pina e ainda Abílio Marques, os quais tocam essencialmente em bares, cafés-teatro e pequenas salas de espectáculo, com um reportório composto, sobretudo, por versões de temas pop rock. Partilham todos de uma mesma paixão: o rock & roll e suas derivações. Não admira, portanto, que Jorge Pina e Gervásio Pina, tenham sido também levados pela torrente do boom do rock português e, consequentemente se tenham aventurado pelos seus meandros. Estávamos de facto, em 1979, meses antes de “Ar de rock” de Rui Veloso e já os irmãos Pina tinham larga experiência no meio musical, pertencendo ao grupo “Vector”. Mais tarde, uma nova formação sob a égide de Gervásio Pina foi formada, denominada Malaposta, inserida no corrente de rock dos anos 80, cuja vida discográfica foi efémera, uma vez que se quedaram apenas pelo lançamento de um single, antes da falência da editora que os apoiara de início.
É o próprio testemunho de um dos elementos da formação da banda que nos relata essa efémera experiência “Os Malaposta surgiram na altura do chamado boom do rock Português, mas não num contexto de aproveitamento da onda do momento... Com efeito, já trabalhávamos juntos há alguns anos, procurando encaixar temas originais ente os covers que tínhamos que tocar nas festas de finalistas por todo o Norte do país.O boom serviu apenas para que um grupo de província pudesse mostar aquilo que fazia... Eram outros tempos, em que Lamego e Lisboa estavam separados por mais de 5 horas distribuídas por 400 longos kms de estradas perigosas e cheias de tráfego, em que não havia net, nem computadores, nem telemóveis, e em que a interioridade era uma triste realidade...E foi essa interioridade que, aliada à falência da editora que nos apoiou de início, acabou por definir precocemente o fim de uma banda que tinha algum talento e originalidade.” (Testemunho de Gervásio Pina, retirado do blogue “rockemportugal.blogspot.com”)


Facto menos conhecido, porém, foi que, paralelamente ao projecto Vector, os irmãos Pina, concorreram ao 1.º Festival da Canção de Lamego com duas canções, “Canção de Estrilhar” e Invasão”, classificando-se, respectivamente, em 2.º e 4.º lugar. Tais canções deram origem a um interessante single, que recuperamos hoje da obscuridade. Recorrendo a um soft rock de escárnio e de maldizer Gervásio Pina com “Canção de Estrilhar” transporta o ouvinte ao imaginário bem real do mundo das aparências, das senhoras bem vestidas e do “corte e costura” dos encontros sociais, enquanto que o lado B do single já Jorge Pina canta a preocupação deste duo pela realidade da cidade e a destruição da humanidade pelos tempos modernos.
Grande parte da informação recolhida sobre esta formação foi retirado do site oficial do Pina Trio (pinatrio.douronet.com) sendo da nossa parte totalmente desconhecido quais os outros elementos que participaram na gravação destes dois temas, cujos excertos partilhamos hoje com os nossos leitores.

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Lado A -Canção de Estrilhar (Gervásio A. Pina)
Lado B -Invasão (João Simões)
Percatex SIN -08
Ano: 1979

domingo, 27 de setembro de 2009

Carlos Filipe Rei - Palavras Proibidas até 25 de Abril

Cabe-nos hoje apresentar mais um cantor cujo futuro, em 1974, se augurava bastante promissor, pelo menos a julgar pela indiscutível qualidade das suas composições. Falamos de Carlos Filipe Rei, um artista cujas referências biográficas escasseiam, sendo que a pouca informação que dispomos sobre este cantor se resume apenas às breves notas de apresentação escritas, na contracapa do seu disco de estreia, por José Vicente, letrista de todas as canções que compõem o E.P. “Palavras proibidas até 25 de Abril”. Por uma questão de fidelidade ao texto original de José Vicente e para melhor elucidar os nossos leitores sobre o percurso musical de Carlos Filipe Rei até 1974, transcrevemos na integra o texto de apresentação de “Palavras Proibidas até 25 de Abril”:

Balada para Olimpo” e “Balada Imperfeita” não são propriamente baladas. São títulos de subterfúgio... Por alturas de 1969-70 imperava o estilo baladeiro, e o autor quis, dentro daquele estilo, e de combinado com Carlos Filipe Rei, dar-lhes uma característica musical de forma a fugir ao timbre então em voga. Estes trabalhos foram realizados em 1970. Mas só em Fevereiro de ano feliz de 1974 foram aceites pela etiqueta Alvorada para a voz de Carlos Filipe Rei. Era mais uma aventura face à censura da época... E acontecesse o que acontecesse a Alvorada encarregou o maestro Correia Martins das orquestrações. A 18 de Abril Carlos Filipe Rei não gravara a voz por estar nervoso; admite-se, pois é este o seu primeiro disco. Logo a seguir acontece o glorioso 25 de Abril! Assim, os versos sofreram algumas alterações nas imagens verbais de passado e presente. José Vicente”


Apesar de se perspectivar uma série de futuros discos, a grande verdade é que estas quatro canções acabaram por ser o único legado de Carlos Filipe Rei, cujo percurso posterior desconhecemos por completo, sabendo, no entanto, que se tratou do único disco gravado por este artista. Para a história da música portuguesa de intervenção, ficou, portanto, um disco musicalmente distanciado do género baladeiro da altura, enraizado numa produção mais profunda, orquestral e com arranjos rítmicos com reminiscências directas em géneros musicais habitualmente de fora dos padrões normais do canto de intervenção do pré 25 de Abril.

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Lado A 1 - Romance sem resumo (Carlos Filipe Rei- José Vicente)
Lado A 2 - Balada para Olimpo (Carlos Filipe Rei- José Vicente)
Lado B 1- Amor canta Alegria (Luciano-Vargues- José Vicente)
Lado B 2 -Balada Imperfeita (Carlos Filipe Rei – José Vicente)
Alvorada EP-60-1521

domingo, 20 de setembro de 2009

Paco Bandeira - Hip Hip / Rumba Paca

Hoje, invertemos um pouco o curso normal do nosso blogue ao apelarmos a um músico que toda a gente conhece, ao contrário daqueles que até agora temos vindo a apresentar. Falamos de Paco Bandeira, um dos artistas mais conhecidos da musica ligeira portuguesa, proveniente da região alentejana de Elvas. Facto pouco conhecido é o verdadeiro nome de Paco Bandeira, Francisco Veredas Bandeiras, que viria a adoptar o nome artístico de Paco Bandeira, por nítida influência espanhola. De facto, devido à proximidade de Elvas com a fronteira e com os imensos amigos espanhóis que lhe chamavam “Paco” (diminutivo de Francisco em castelhano) e “Bandera”, foi esse o nome artístico com que se apresentou em palco no início da sua carreira e também o que, justamente, adoptou aquando da gravação do seu primeiro disco.
Durante quase toda a sua carreira, as canções de Paco Bandeira ficaram associadas, de uma maneira ou de outra, às características da sua região natal, tais como as planícies e as searas, a interioridade da província portuguesa, com especial relevo para a vida no campo. Paco Bandeira, teve também imediatamente no período pós-25 de Abril, um contributo importante no canto de intervenção de cariz mais político, dando particular destaque à emigração, ao contrabando, às populações itinerantes de ciganos e à guerra colonial em África.

No entanto, para quem pense a música de Paco Bandeira se resumiu à musica ligeira, com hinos de cariz mais sentimental e popular, trazemos hoje ao bairro do Vinil um pequeno achado, datado de 1973, no qual Paco Bandeira se nos apresenta de uma forma totalmente diferente daquela que tem habituado a maioria dos portugueses. O disco chama-se “Canto para ti”, um E.P. que contempla 4 temas todos eles diferentes entre si, sendo difícil até escolher o que mais se destaca. Contudo, ninguém poderá ficar indiferente à canção “Hip-Hip”, um registo com uma componente marcadamente rock, com um refrão alegre, numa linguagem quase onomatopaica para fazer esquecer as “guerras de cor, do ódio ou rancor” que Paco Bandeira recusa peremptoriamente nessa canção.
No outro lado do disco, como se um outro disco totalmente diferente se tratasse, já Paco Bandeira, influenciado pelas suas quase raízes espanholas, canta na língua castelhana, explicando a origem do seu nome artístico (a mi me llamam Paco), interpretando uma fantástica "Rumba Paca", quase a rondar a perfeição absoluta desse estilo de canto. Para quem nunca ouviu estes registos musicais, certamente ficará surpreendido, aliás, bastante surpreendido com a versatilidade inesperada de Paco Bandeira, cantor que ficámos a conhecer ao longo destes anos pela constância do mesmo género musical com que se tem apresentado. Da nossa parte, ficámos também surpreendidos, pelo que é com grande alegria que partilhamos um excerto destes dois temas.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Fernando Ribeiro

Shegundo Galarza foi, sem sombra de dúvida, um dos músicos e maestros mais talentosos que alguma vez passou por Portugal. Radicado em terras lusas desde a década de 40, durante mais de seis décadas, lançou um infindável número de discos, ora em nome próprio, ora como arranjador de dezenas de músicos com os quais trabalhou, passando por todos géneros musicais, desde o clássico, o popular ao jazz. Ficaram célebres os famosos discos de Shegundo Galarza para a etiqueta “Estoril”, bem como outros tantos, que, mais à frente, na devida altura, abordaremos. Dos músicos com os quais trabalhou, uns são sobejamente conhecidos (tais como Amália Rodrigues, Tony de Matos, Maria da Fé ou José Cid) e outros, certamente menos conhecidos e que, nos tempos de hoje, deixaram de ter protagonismo e, quiçá, ficaram para sempre perdidos no esquecimento.
Cabe-nos hoje recuar um pouco no tempo, e no panorama musical português dos anos 60 e 70, altura em que a panóplia de estilos musicais florescia sem quaisquer reservas (embora com privilégio para o fado), para encontrarmos imensos discos de acordeonistas que, de uma forma mais ou menos conseguida (tais como Eugénia Lima, Filipe de Brito, Isidro Baptista, Tino Costa, Victor José,  entre outros) atingiram algum sucesso nos meios mais populares e até a nivel de todo o território nacional.
Um dos acordeonistas que, infelizmente, não é conhecido (nem reconhecido) na actualidade é  Fernando Martinho Cordeiro Ribeiro, mais conhecido pelo nome abreviado de Fernando Ribeiro que, para além de executante do acordeão, era também compositor e orquestrador, sendo um acordeonista virtuoso, que teve a honra, de tocar acompanhado pela secção de violinos dirigida pelo também virtuoso Shegundo Galarza. Através do disco que hoje apresentamos, assistimos a um encontro entre a música de raiz popular protagonizado por Fernando Ribeiro e a dimensão orquestral da música erudita. Dois estilos mas um resultado comum: Portugal popular elevado à grandeza orquestral.

Pretendemos de forma muito simples relembrar, por um lado, Shegundo Galarza (que toda a gente conhece) e, por outro lado, trazer à memória as nossas raízes populares interpretadas por Fernando Ribeiro (hoje um perfeito desconhecido). Aliás, não só se invocam as memórias das nossas raízes, através do som popular do acordeão, como também os próprios títulos das canções espelham aquilo que hoje se vai perdendo cada vez mais, tais como as desgarradas, os viras, as brincadeiras entre parreiras, os despiques algarvios, entre muitos outros...pesar do perfeito desconhecimento do virtuosismo das gravações de Fernando Ribeiro, este acordeonista gravou, desde 1946 para a frente, inúmeros discos, para diversas editoras nacionais e estrangeiras (como por exemplo, a Rapsódia, Estúdio, Belter, Alvorada ou Parlophone), acompanhado na grande maioria das vezes pela sua esposa, Fernanda Guerra, também acordeonista que conheçeu em 1948 e com a qual viria a casar em 1955. Curiosamente, foi a partir do casamento com Fernanda Guerra que o seu sucesso aumentou em grande parte devido ao Duo que entretanto criara com a sua esposa.
Principalmente desde a década de 60 para a frente para além das suas actuações a solo, acompanhou dezenas de artistas portugueses bem conhecidos, tais como Tony de Matos, Francisco José, Carlos do Carmo, entre muitos outros. O seu sucesso levou-o a conhecer meio mundo, tendo actuado em quase toda a Europa, E.U.A. Austrália, sem olvidarmos as nossas então províncias ultramarinas. Compôs centenas de obras para acordeão (desde o popular ao erudito) e para teatro de revista , onde, aliás, trabalhou entre 1987 e 1996, compositor , arranjador e ensaiador de actores no Teatro Maria Vitória, findando o duo que até então manteve com a sua esposa.
Mais um disco e um artista que aqui nos apraz, orgulhosamente, divulgar para que a sua memória musical perdure, pelo menos nos recônditos mundos da Internet. Qualquer informação adicional sobre este músico, pois a nossa resume-se ao disco que em questão, será sempre bem vinda, para aos poucos construirmos uma verdadeiro enciclopédia de ilustres desconhecidos portugueses.
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Maria Albina - O Cuquinho da Ribeira



Num dia em que se realiza hoje, pela terceira vez consecutiva em Portugal, a edição do Red Bull Air Race, bem no centro da zona ribeirinha do Porto, decidimos também fazer uma viagem à antiga ribeira, onde os costumes e as modas há cerca de 40 anos atrás eram certamente outros. Neste percurso encontrámos a cantora Maria Albina, acompanhada pelo Conjunto Típico de Resende Dias, que através da sua jovial voz presta uma homenagem ao quotidiano da vida à beira rio na cidade Invicta. Naquele tempo, não só as vivências eram outras, como também a própria zona ribeirinha do Porto apresentava uma vida totalmente diferente da actual; se hoje a ribeira é, acima de tudo, um pólo de atracção turística, já o mesmo não se pode dizer em relação à altura da gravação deste disco: sem necessitarmos de recuarmos ao tempo de Douro Praia Fluvial de Manuel de Oliveira, basta-nos escutar este disco para percebermos que nessa altura era a ribeira que fazia girar a vida da cidade do Porto.



Ao longo de todo este disco, encontramos sentidas referências ao bairro da Sé de Porto e suas vielas, aos eternos balões de S. João em cada janela bem como aos saudosos passeios à beira rio. Curiosamente, é num desses passeios que Maria Arminda, certamente se terá inspirado para escrever a letra de “Cuquinho da Ribeira”, que Maria Albina aqui interpreta, espelhando as preocupações das jovens solteiras da época e do seu receio em ficarem solteiras, em contraposição com os tempos de hoje, onde os casamentos acontecem cada vez mais tarde. Da nossa parte, o que nos chamou mais a atenção foi a capa do disco, na qual surge Maria Albina, que gravou este E.P. com apenas 13 anos e que na canção “O Cuquinho da Ribeira”, canta os seguintes versos “Fui um dia passear para os lados da ribeira…/Oh Cuquinho da Ribeira diz-me qual é a maneira de uma marido arranjar/ Sou nova e sou solteira, haverá algum que queira comigo uma dia casar / Oh Cuquinho da Ribeira, quantos anos de solteira tu ainda me ouvirás dar…Fico a triste a meditar... chego até a imaginar que irei ficar solteira”.
Ora, atendendo às novas preocupações (e aspirações) da figura feminina no mundo moderno, seria impensável, nos dias de hoje, uma menina com a idade de Maria Albina, pensar sequer em interpretar de forma tão honesta uma canção com os versos que acima reproduzímos, inspirados numa história popular (no cuco da ribeira que dizia, consoante, o número de vezes que cantava, quantos anos uma menina iria ficar solteira).
Maria Albina em 1965
Quanto à menina Maria Albina, chegaram-nos recentemente preciosas informações a respeito da sua curta carreira, o que prontamente passamos para a transmitir aos nossos leitores. Natural de Vizela, foi alí que cantou num espectáculo quando tinha apenas 11 anos de idade. Segundo consta, o êxito foi tal, que em Outubro desse mesmo ano foi eleita no Teatro Circo de Braga, "Rainha das Cantadeiras do Minho". Em 1963, cantou no Palácio dos Desportos no Porto, na festa do Campeão Português, que era um programa em que figuravam os grandes nomes da rádio e da TV. Em 1965, confessava à Crónica Feminina que o seu sonho era cantar na TV. Sobre a sua possível aparição na TV não temos qualquer confirmação. Sabemos apenas, conforme nos referiu "fonte" próxima da artista que gravou apenas 3 discos para a etiqueta Rapsódia, do Porto, sendo o que hoje apresentamos o seu disco de estreia, tendo depois abandonado a vida artística.


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domingo, 6 de setembro de 2009

José Sampaio - Adeus Guiné - A Mulher Portuguesa

José Sampaio. Nome desconhecido do actual universo musical português tem hoje, contudo, mais uma oportunidade de sobressair das sombras e da poeira do esquecimento, através de uma entrada directa para o nosso bairro do vinil. No entanto, cremos que tal oportunidade não lhe irá trazer o sucesso pretendido, isto porque, conforme analisaremos, as temáticas das canções presentes neste disco há muito que não transparecem a realidade portuguesa.
Do pouco que conseguimos apurar, pela análise da capa e da contracapa do disco que nos chegou às mãos, só podemos concluir tratar-se de um cantor emigrado em França (a julgar pela editora francesa Serenata que distribuía os discos, muito provavelmente para a comunidade portuguesa aí radicada), que terá gravado pelo menos mais de 12 discos , para além deste E.P. que agora se comenta (com acompanhamento musical por Jorge Fontes e Os Alegrias)
O que nos chamou a atenção deste cantor , não foi propriamente a sua voz rude de cantor campestre, nem o enquadramento sonoro que reveste as canções, uma vez que estamos apenas perante mais um cantor, entre centenas de outros, do folclore português. O que nos chamou a atenção foi, bem pelo contrário, os títulos das duas faixas que abrem cada uma das faces do vinil: “Adeus Guiné” e “A Mulher Portuguesa”, títulos que à primeira vista nos podem levar a pensar estarmos, por um lado, perante uma canção de intervenção contra a guerra colonial e, por outro lado, uma canção de homenagem de homenagem à mulher lusitana.

Se é verdade que elaboramos este texto passados garantidamente mais de 30 anos sobre a gravação deste disco, não podemos deixar de reparar no contracenso, à luz dos dias de hoje, entre os títulos das canções e as respectivas letras. De facto, “Adeus Guiné” nada mais é do que um apelo à guerra, sob o pretexto de defesa daquilo que na altura era um território português. Aliás, os versos explícitos da sua autoria, tendo como pano de fundo efeitos sonoros de metralhadoras, são conclusivos : “Só esta pequena lembrança dos emigrantes de França, estamos prontos a lutar, amor cego e imortal é nosso dever a Guiné defender, será sempre Portugal”. Sem dúvida que, se atendermos ao facto, de nessa altura, serem mais do que recorrentes os cânticos anti-guerra e anti- regime, corporizados no chamado canto de intervenção, este disco só poderá ser visto como a metáfora do outro lado da barricada, ou seja, uma espécie de canto de anti-intervenção.
Da mesma forma, ao mesmo tempo que o cântico de apelo à libertação da condição social das mulheres se fazia sentir por toda a Europa e em especial em Portugal (entre outros, por José Barata Moura), José Sampaio através de “A mulher portuguesa”, apresenta-nos, mais do que a sua visão, a própria visão e concepção da condição da mulher durante o Estado Novo. Sem dúvida, que José Sampaio elogia a mulher portuguesa, não a tratando mal, bem pelo contrário, até admite que “se não fossem as mulheres, o homem não tinha razão”. No entanto, uma análise sociológica mais atenta da letra desta canção, leva-nos à conclusão de estarmos perante o contracenso do próprio elogio, uma vez que ao mesmo tempo que se destacam as qualidades de “boa companheira e mulher trabalhadeira”, simultaneamente, se está a dar enfâse, na mesma canção, ao papel dominante do homem, sempre triunfante fora do lar, ao contrário da mulher reduzida a à condição de dona de casa. Versos mais explícitos do que estes são impossíveis de encontrar nos tempos modernos : “Português emigrante, homem triunfante da mulher portuguesa, a sua mulher poupada fica sempre em casa e não sente tristeza”. Ora, quem é a mulher portuguesa que ao ouvir esta canção não se encherá de orgulho e emoção, por este tão rasgado elogio ?

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sábado, 22 de agosto de 2009

O Carlos dos Jornais


Iniciamos com uma alusão a uma figura peculiar de Lisboa, que durante algumas décadas marcou o quotidiano de todos aqueles que passavam pela esquina da Rua 1.º de Dezembro com a Calçada do Carmo: “Carlos dos Jornais”, (cujo nome completo desconhecemos), que conforme o nome indica, vendia jornais e revistas nessa esquina. Mais tarde, segundo conseguimos apurar, terá mesmo aberto um quiosque também em Lisboa, embora desconheçamos se o terá feito na mesma rua. Segundo informações que recolhemos nesta aldeia global, que é a Internet, Carlos dos Jornais, era um homem brincalhão, muito correcto e respeitador. Teria sido apenas mais um comum mortal, se se tivesse apenas limitado pura e simplesmente à venda de jornais e revistas. No entanto, a peculiaridade da sua figura consistia na sua facilidade em dialogar em verso como os seus clientes, através de quadras todas elas improvisadas na hora, muitas vezes até de forma de desgarrada com quem se atrevia a responder às suas quadras.
O que muitos não saberão, tal como nós não o sabíamos até há alguns meses atrás, é que Carlos dos Jornais, devido à sua popularidade a afabilidade, foi convidado para gravar um disco com algumas das suas quadras, certamente preparadas para o efeito. Como informação relativa aos créditos deste registo fonográfico, temos apenas o prefácio constante da contracapa do E.P., escrito pelo próprio “artista”, que, pela sua importância, aqui transcrevemos na íntegra:
Em primeiro lugar, uma pequenina introdução para a explicação da gravação deste disco. Riso & Ritmo convidou-me, eu acedi, e dentro da minha modesta maneira de ser, aqui vão algumas quadras a diversas pessoas, as quais têm o fim de não ferir, e até, gratamente em agradecer.
Se tiver êxito, outras pessoas serão focadas num próximo disco, mas sempre com a correcção que me é peculiar. Portanto, a todos os meus amigos um muito obrigado e vou começar. - Carlos dos Jornais”

Em termos de registo fonográfico, trata-se, sem dúvida de uma interessante recolha, não só da voz e quadras de Carlos dos Jornais, como também da própria ambiência de Lisboa à época da gravação desde disco, que podemos situar, com elevado grau de probabilidade, em 1970. Nele encontramos não só o som das guitarras portuguesas, como também o próprio registo dos transeuntes a comprar jornais ao intérprete do disco e de toda a azáfama matinal típica de uma grande cidade como Lisboa. Os temas abordados por Carlos dos Jornais retratam o Portugal da época, com claras alusões à promessa do fim das barracas em Lisboa, ao insucesso do treinador Meirim (do Belenenses) e, quase totalidade da face B do disco, uma homenagem aos nossos artistas, tais como Hermínia Silva, Tonicha e Raul Solnado. Aliás, em relação a este último Carlos dos Jornais, é peremptório ao invocar a tristeza geral do povo português pelo fim do afamado programa de entretenimento “Zip-Zip”, ao qual dedica a seguinte quadra: “...Ao Solnado, bom rapaz/Oiça bem a minha voz/ Não sabe a falta que faz/ O Zip para todos nós/ Mesmo depois da canseira/ era esta a discussão/ estamos na segunda-feira/ à Zip na televisão/ Era uma noite de arrasa/ dizia o povo, acho bem/ Estava tudo em casa/ Na rua quase ninguém.”
Desconhecemos se Carlos dos Jornais terá sido convidado a gravar mais algum disco. Uma coisa podemos, no entanto, conjecturar: terá Carlos dos Jornais vendido os seus próprios discos no seu quiosque? Provavelmente sim.

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domingo, 16 de agosto de 2009

No Bairro do Vinil

Com esta nova página na Internet, iniciamos hoje um projecto que (esperemos nós) não venha a ter os dias contados logo à partida. Apesar de o título deste blogue eventualmente poder parecer sugerir mais um espaço em que os seus autores se limitarão a colocar reproduções de capas de discos de vinil sem nada de consequente, a verdade é que pretendemos algo de diferente. Primeiro: apelaremos à nossa assumida ignorância ao nos atrevermos a querer dissertar sobre artistas que são hoje totalmente desconhecidos pela grande maioria dos portugueses e que, nem nós próprios conhecemos e sobre os quais não existe muita informação. Em segundo lugar, para que um disco possa ter honras de ser objecto de comentário neste blog, terá que obedecer a três requisitos: versar sobre música portuguesa; ter sido comprado por preço inferior a 3 € ou então oferecido; e, de preferência, tratar-se de um disco que ninguém quer, ou melhor, que ninguém quis, pois geralmente serão discos adquiridos em feiras de velharias (muitos deles completamente desprezados) os que privilegiaremos no nosso blogue. Em terceiro, e para finalizar as nossas intenções, pretendemos, sempre que for possível, dar a conhecer aos nossos leitores, discos que, de alguma maneira, retratem o nosso antigo quotidiano, apelando aos hábitos e costumes que se foram perdendo mas cujas memórias ainda resistem nestes velhos vinis que, aos poucos, vamos salvando do esquecimento.
Por se tratar de um salto no escuro, queremos também convidar todos aqueles que de alguma maneira queiram contribuir para o não esquecimento destes artistas, que nos enviem as suas correcções e, sobretudo, informações que disponham ou que entretanto obtenham sobre esses artistas, uma vez que este blogue será aberto a todos aqueles que queiram participar. Todos os comentários dos nossos leitores que contenham informação por nós desconhecida, serão automaticamente adicionados à mensagem referente aquele disco ou artista. Desta forma, assumimos um difícil desafio de construir aos poucos uma memória viva daqueles que, de uma ou outra forma, já não podem expressar a sua voz, pelo facto de as suas canções terem desaparecido das luzes da ribalta.