domingo, 25 de abril de 2010

José Matildes


Para os menos conhecedores e principalmente para aqueles que não se dedicam ao estudo mais aprofundado da musica portuguesa, quando se fala de canto de intervenção particular, desde logo vêm à cabeça habituais cantores, tais como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, José Mário Branco, entre outros. Se é verdade que o nome destes cantores perpetua ainda na nossa memória devido ao enorme talento que tinham (e ainda têm – os vivos-), não deixa de ser verdade que o facto de se encontrarem quase todos exilados contribuiu para que os seus discos (de enorme qualidade), lançados quase que clandestinamente, quando chegavam a terras portuguesas tivessem um impacto muito superior ao de outros artistas que por cá gravavam com menos regularidade, e muitos deles, até de modo efémero.
Tal como Guthrie e Dylan, acompanhados apenas pela sua viola, instrumento acessível de baixo custo, também em Portugal, principalmente no pós 25 de Abril, ocorreu uma verdadeira explosão de cantores de intervenção, que viriam a ficar rotulados como baladeiros. Porém, ainda antes do 25 de Abril, alguns cantores apenas acompanhados pela sua guitarra lançaram discos nos quais abordam de forma directa e crua temas sociais susceptíveis de incomodar muita gente, ao mesmo que simultâneamente, tocavam o coração das pessoas. O medo, o exílio, a morte, a liberdade, a fome, eram alguns dos temas abordados por esses portadores que mais do que possuírem uma voz cuidada e treinada, tinham a particular capacidade de fazer passar a profundidade e o sentimento inerente a este género da música popular portuguesa.
José Matildes é um desses exemplos, um cantor e compositor que no seu primeiro dos seus três (e únicos) discos aborda todos esses temas com a honestidade característica de quem verdadeiramente sentia aquilo que cantava, musicando não só poemas seus, como também um poemas de outros poetas, como Manuel de Alegre e de João de Deus.
O nome de José Matildes não tem figurado na história da música portuguesa, sendo um nome cujo percurso musical findou pouco depois do ecludir da Revolução dos Cravos, com o seu último registo lançado em 1975 pela editora Vitória.

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Jorge Matias - Amarras


Apesar de o chamado canto de intervenção ter tido algumas das suas raízes na década de 40, com as famosas Canções heróicas de Lopes Graça, a expressão é maioritariamente reconhecida no âmbito da chamada canção de resistência de matriz muito objectiva e directa, despida de arranjos orquestrais, na qual se dava primazia a um só instrumento (normalmente a viola) e à voz do autor (geralmente um cantautor). Obviamente que definir assim a música de intervenção seria o mesmo que reconduzi-la a uma visão demasiado simplista dessa nova atitude musical, uma vez que música de intervenção não se reconduziu apenas ao aglomerar de meia dúzia de chamados baladeiros que apelavam ao fim da guerra colonial e ao fim do regime Salazarista. Bem pelo contrário; no universo da música de intervenção em Portugal no período pré 25 de Abril há também que destacar alguns cantores que, mesmo mantendo a distância e nunca se assumindo contra o regime, também permitiram que a sua voz fosse o veículo de mensagens intimamente conotadas com uma nova mudança que se pretendia instalar na sociedade portuguesa. Aliás, muitos cantores (uns mais conotados com o nacional-cançonetismo do que outros) cantaram textos manifestamente susceptíveis de censura caso os mesmos fossem cantados por outros artistas. Um dos exemplos mais flagrantes (e que nos vem a memória neste preciso momento) é o de João Maria Tudella que ainda antes da Primavera Marcelista, cantou o tema “Liberdade” com letra de Manuel Alegre num dos discos que lançou para o mercado em finais dos anos 60 sem que (aparentemente) a brigada dos lápis azuis reparasse em tal facto.
Outros exemplos concretos poderíamos dar em relação a outros artistas sobejamente conhecidos. No entanto, optamos por divulgar o nome de mais um artista desconhecido do panorama actual que, em 1973, já com Marcelo Caetano no poder, optou por recorrer a um registo pop rock para lançar para o mercado discográfico um single com letras de conteúdo manifestamente associado à canção de intervenção. Efectivamente com “Amarras” e “Quanto valho”, Jorge Matias, apela ao universo da musica ligeira revestida de modernidade pop rock e com arranjos orquestrais plenos para cantar os mesmos temas que os cantores exilados da geração de 70 cantavam em França. Um dos temas recorrentes era o dos presos políticos, muitos deles autênticos prisioneiros, que passaram dias, meses ou até anos na prisão por divergirem dos ideais do regime. Felizmente, muitos deles acabaram por ser libertados, ao contrário do prisioneiro que Jorge Matias retrata nesta canção, que farto das amarras que o atormentavam parece desistir da própria vida abrindo a sua própria cova na cela que o encarcerava.

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Alvorada N-S-97-82

sábado, 10 de abril de 2010

Danielis Ricardus - Ineditus

Danielis Ricardus será provavelmente nome artístico que Daniel Ricardo (ou Ricardo Daniel) escolheu para se apresentar em disco. Sobre o artista nada sabemos, reconhecendo-lhe no entanto a ousadia, própria de um jovem, de ter criado a sua etiqueta discográfica com a indicação expressa no disco “Para lançar o meu som criei a minha editora”. Aliás, não é só através da criação da sua editora, que este artista manifesta o total domínio pela produção e idealização deste disco. A ele pertencem também as músicas e os poemas, sendo também Ricardus que toca órgão electrónico, sintetizador e programação, para além de se ter encarregado dos arranjos, direcção musical... e até da própria capa.
A acompanhar Danielis Ricardus nos dois temas deste single, estão os músicos Luis Duarte (viola-baixo), Fernando Falé (bateria) e Carlos Manuel (coros em “When I Wake”), interpretendo temas com uma forte componente instrumental, com influências bastante colocados ao rock progressivo anglo saxónico na sua vertente mais simplificada, destacando-se dos demais instrumentos, os sons dos vários teclados utilizados por Danielis Ricardus.
De Danielis Ricardus só podemos falar tendo em conta o som que o próprio artista nos oferece, muito cru, minimalista, provavelmente oriundo de um jovem músico com pretensões de explorar caminhos musicais fora do mainstream discográfico da altura.

Com a particularidade de cantar num inglês muito peculiar, sem rimas, Danielis Ricardus é para nós um mistério que gostaríamos de desvendar, sendo também dele a interessante arte gráfica idealizada para a capa do disco, curiosamente com uma estética totalmente ao arrepio das capas de rock progressivo da época (estilo de música marcadamente reflectido no disco).
Da nossa parte deixamos então um excerto das canções constantes no disco que adquirimos, curiosamente, assinado pelo próprio Artista e oferecido ao programa de Rádio “Musical 81”, pelo que acreditamos tratar-se de um disco editado em finais de 1980 ou em 1981.

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Danielis Ricardus
1. Ineditus 2. When I Wake

Luis Carlos e Bispo Pimenta - O judeu e a barba

Ao termos assumido como ponto de partida a nossa manifesta ignorância perante o nome e percurso de diversos artistas portugueses e ao nos termos autoproposto a escrever sobre eles, tínhamos consciência de que poderíamos correr sérios riscos de escrever sobre artistas cujo nome ou percurso musical nos era obrigatório conhecer. Contudo, existem nomes, que por mais pesquisas que se façam, sobre eles não conseguimos encontrar qualquer informação, a não ser que nos desloquemos aos jornais de âmbito local ou a Arquivos Municipais de diversas regiões do pais, o que para já não é a nossa intenção. Conforme já referimos, preferimos convidar os leitores a colaborar nos nossos textos, de modo a torná-los o menos incompletos possíveis.
Os dois nomes que descobrimos recentemente são exemplos paradigmáticos do que referimos no parágrafo anterior: falamos de Luís Carlos e de Bispo Pimenta, um duo que ganhou o 1.º Prémio dos Jogos Florais de Trás-os- Montes, com a canção “Cantar é ser livre”. Sobre eles e sobre o seu percurso pré e pós Jogos Florais nenhuma informação adicional dispomos, para além das informações que constam na contracapa do disco. Em relação a Luís Carlos, o mesmo tinha em 1977 (data de lançamento do disco) apenas 18 anos e era natural de Vila Nova de Fôz Coa, sendo ainda estudante. Era sobre ele que recaía a responsabilidade de escrever as letras e compôr as canções e embora nenhuma referência expressa conste do disco, arriscamo-nos a dizer que seria também Luís Carlos que se encarregava da parte vocal das canções. Em relação a Bispo Pimenta, (cujo nome completo era Fernando António Bispo Pimenta) seu papel é quase idêntico ao de Luís Carlos, uma vez que compunha as canções juntamente com aquele, tocando também viola.
Tem sido sempre nossa preocupação partilhar temas que, por uma ou outra razão nos chamam mais a atenção em detrimento de outros. Em relação a este duo não foi propriamente a canção “Cantar é ser livre” que nos despertou interesse, uma vez que tal temática era mais do que recorrente no período pós 25 de Abril, embora estivéssemos já em 1977. É sim, a última canção deste E.P. que nos desperta a atenção, pela temática a ela associada.

A canção chama-se “O judeu e a barba”, tendo sido escrita e composta por este duo, com a colaboração de uma terceira pessoa (Fernando Pereira) e tem como tema central o holocausto nazi e em especial os campos de concentração. Mórbido demais para alguns, chocante para outros, esta canção fala de um corpo de um judeu já falecido, cuja barba lhe fora arrancada já em momento posterior à sua morte, aproveitada para diversos fins.
É certo que muitas canções sobre o holocausto existem espalhadas por esse mundo fora, principalmente provenientes de países que de uma forma directa ou indirecta estiveram associados ao holocausto nazi. Sendo certo que não conhecemos tudo, esta é até ao momento a única canção que encontrámos cantada por um artista popular ou grupo português que tem como temática central os campos de concentração de nazis e o holocausto associado ao extermínio de judeus, interpretada num interessante registo folk-rock, com uma acentuada vertente baladeira.
Por outro lado, um outro aspecto que nos chamou a atenção e que confere especial interesse a este disco é o intrínseco mistério que recaí sobre a sua capa. Ora, se na verdade os artistas são o Luís Carlos & Bispo Pimenta, então porque razão na fotografia da capa se encontram 3 pessoas e não somente duas ? Naturalmente que dessas três pessoas, duas delas terão que ser Luís Carlos e Bispo Pimenta. E quem será o terceiro elemento ? Fernando Pereira ? Ou outro músico que terá participado na gravação dos temas ? A esta pergunta naturalmente não sabemos responder, ficando a aguardar que algum dos nossos leitores possa satisfazer a nossa curiosidade e por certo a curiosidade dos portugueses que eventualmente tenham este disco, gravado já na fase final da etiqueta Rapsódia.
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Luis Carlos & Bispo Pimenta
Rapsódia EPF 5818
1. Cantar é ser livre (Luis Carlos - Bispo Pimenta)
2. Ilusões (Luis Carlos - Bispo Pimenta)
3. O Judeu e a Barba (Luis Carlos - Bispo Pimenta - Fernando Pereira)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

José Lello - Baladas

Para além dos diversos cargos políticos de destaque que o deputado do Partido Socialista José Lello ocupou no passado recente, que lhe deram alguma notoriedade pública, o seu nome esteve também associado nos últimos dias a uma polémica ocorrida no palco de muitos confrontos: A Assembleia da República. Falamos, naturalmente, do ataque de nervos que José Lello teve quando um jornalista focou a sua objectiva para o monitor do seu computador de trabalho, facto que levou o deputado a queixar-se, visivelmente furioso, de tal violação de privacidade, segundo o seu entendimento. A cena assumiu contornos naturais de Youtube, não tivesse José Lello fechado a tampa do monitor com tamanha força no final da sua intervenção, atitude que levou o presidente da Assembleia da Républica, Jaime Gama, a chamar a atenção do deputado, advertindo-o de que o seu computador não era de uso particular mas sim da Assembleia da República. A menos que o ilustre deputado estivesse a consultar sites duvidosos ou a trocar e-mails de conteúdo obsceno com outros ilustres deputados, a reacção de José Lello, por ser manifestamente despropositada acabou por relançar (nem que seja apenas por uma ou duas mediáticas semanas) o seu nome para as luzes da ribalta e para o mundo do espectáculo, tal como o fizera há já muitos anos atrás.
É que na verdade, já há muitos anos, José Lello foi o vocalista da famosa banda de yé yé , Os Titãs , conjunto que ganhou alguma notoriedade entre 1963 e 1969. Antes dos Titãs, formação para a qual terá entrado apenas em 1967, José Lello pertenceu ainda ao grupo “Os Cinco Académicos” e também ao Conjunto de Sousa Pinto. Como era característica da época, os grupos de Yé Yé portugueses, tinham todos uma duração efémera ou então mudavam radicalmente de formação (para muito contribuindo a obrigatoriedade de cumprimento de serviço militar no Ultramar), tendo sido sem surpresa que em 1969 tivesse ocorrido dissolução do grupo. No entanto, o percurso musical de José Lello não se ficaria pelos Titãs, tendo o mesmo gravado em 1969, o primeiro de dois E.P.'s para a etiqueta Alvorada, com letras e música de sua autoria (com excepção da Balada do Emigrante e Pescador, com música de Carlos Frias de Carvalho). Não fugindo da linha musical que lhe precedeu, José Lello através deste registo, conforme bem realça Ribeiro de Almeida (autor do pequeno texto de apresentação constante na contracapa do disco), mostra a sua escrita poética através de uma voz correctamente bem timbrada e plena de juventude.
Os arranjos e acompanhamento musical pertencem à Orquestra de Italo Caffi, notando-se na grande maioria dos temas a ausência de acompanhamento rítmico (ao arrepio da nota predominante nas orquestras), encaminhando o ouvinte mais para a escuta da letra, do que para a música propriamente dita, talvez com o propósito de acentuar no género balada a mensagem de dramas humanos que especialmente naquela época ocupavam a mente do povo português e de José Lello em particular.
Contrariamente ao seu percurso político já de longa duração, o percurso de José Lello terminou pouco depois (pelo que sabemos) após o lançamento do seu segundo disco, frustrando-se assim o augúrio de sucesso que lhe fora destinado por Ribeiro de Almeida, quando escreveu que José Lello era "Alguém" que surge e de que havia muito a esperar.

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