sexta-feira, 25 de abril de 2014

António Rossano - Um artista ecléctico

No dia em que se comemora a Liberdade em Portugal, optámos, ao contrário do que fizemos nos anos anteriores, por publicar um texto de cariz não político e referente a um dos maiores nomes do music-hall português, ainda que o sucesso do artista em questão se tenha verificado de forma mais preponderante no estrangeiro, nomeadamente em França.
Falamos de António Rossano (de verdadeiro nome António Baião), cantor que frequentou a escola de canto do Maestro Cruz e Sousa, onde aperfeiçoou a sua voz de tenor. Após uma curta participação nos Companheiros da Alegria, em finais dos anos 50, seguiu para Espanha onde obteve sucesso actuando em cabarets, na rádio e, inclusive, na Televisão espanhola. 
Face ao relativo sucesso alcançado em Espanha, tudo indicaria que em Portugal António Rossano viria a confirmar o seu estatuto de vedeta emergente no panorama artístico português. No entanto, Portugal continuava a fechar-lhe as portas, devido à falta de contratos e a algum desinteresse no estilo da sua interpretação, tendo actuado apenas em alguns serões para trabalhadores e pouco mais. Para além disso, António Rossano, após prestar as devidas provas, veria a recém criada Rádio Televisão Portuguesa recusar-lhe a sua admissão nas emissões televisivas por “não possuir as qualidades necessárias para actuar naquela emissora”.
Porém, a sorte mudaria quando um casal francês (cliente de um Hotel no Luso onde António Rossano se encontrava a actuar) o ouviu cantar, tendo gostado e imediatamente o encaminhado para Paris, onde passados apenas 15 dias já se encontrava a actuar na televisão francesa, tendo pouco tempo depois assinado pela famosa etiqueta discográfica Barclay, para a qual gravou inúmeros discos nas mais diversas línguas e nos mais diversos estilos. De facto, em pouco tempo, António Rossano de artista rejeitado em Portugal passou a ser um artista relativamente conhecido em França, onde para além das canções, fez desde 1958 em diante teatro, operetas, contracenando ao lado das mais importantes figuras da canção e do mundo do espectáculo.
António Rossano, nos anos 50.
 Temos a plena noção que meia dúzia de linhas são insuficientes para resumir a carreira de um cantor outrora tão conhecido e que com o passar dos anos, caiu por completo no esquecimento dos portugueses em geral e das pessoas ligadas ao espectáculo em particular. É que António Rossano, foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma figura de cartaz, fazendo frente em termos de popularidade com nomes bem consagrados do nosso panorama musical. Contudo, parece-nos que o destino de António Rossano em Portugal, sempre esteve traçado e que o reconhecimento público em terras lusas nunca lhe esteve destinado. É pena... Para além da sua extraordinária voz, há em António Rossano uma teatralidade latejante em todas as suas interpretações, difícil de encontrar nos tempos de hoje e que poucos outrora conseguiram alcançar. Por outro lado, não podemos deixar de sublinhar o seu lado ecléctico, bem evidenciado nas canções que escolhemos para mostrar aos nossos leitores. Na verdade, António Rossano, cantou nas mais diversas línguas, italiano, espanhol e em francês, língua esta em cujas canções imprimia o carisma bem próprio dos melhores intérpretes da chanson francaise.

Porém, ainda assim, não podemos olvidar que António Rossano teve também a oportunidade de gravar alguns discos em Portugal, por altura de uma das suas estadias em terras lusas. E é precisamente uma amostra do seu primeiro disco gravado em Portugal que temos para mostrar aos nossos leitores, na qual António Rossano evidencia as suas capacidades interpretativas, num disco de quase puro yé-yé, com tendências líricas, por vezes um pouco desproporcionadas ao estilo que interpretou nesse disco, convenhamos referir. No entanto, cremos que tal em nada belisca a riqueza destas gravações, nem mesmo o facto de as mesmas mais não serem versões de temas estrangeiros, adaptadas por António José e Romeira Alves. Tal facto deve-se, cremos, talvez à urgência de encontrar reportório para António Rossano, aquando da sua estadia em Portugal no início dos anos 60 para que o mesmo pudesse efectuar algumas gravações comerciais em Portugal. Pouco tempo depois, António Rossano viria a gravar novo disco, desta vez já com temas compostos e escritos por autores portugueses e acompanhado pela orquestra de Jorge Costa Pinto (ao contrário do primeiro disco em Portugal, onde foi acompanhado por uma orquestra dirigida pelo maestro francês André Livernaux).
Sobre o paradeiro de António Rossano, pouco sabemos, nem se o mesmo ainda se encontra entre nós, o que esperamos, pois muita história terá para contar. Dele apenas sabemos que, ainda nos anos 60, terá ido para Bélgica, onde se radicou, sendo proprietário de um restaurante onde cantava. Resta-nos, como sempre, esperar que algum leitor mais atento, nos ajude a encontrar mais informações sobre este cantor. Para já, fica um mix de dois dos seus discos: o primeiro gravado em Portugal para a RCA e o excerto de um outro disco gravado para a etiqueta que o popularizou, a Barclay.

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Clique no Play para um excerto de algumas gravações de António Rossano

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Viçoso Caetano - Balada dos Boinas Verdes

Regressamos para apresentar um cantor que seguramente muito poucos conhecerão. Aliás, nem sequer sabemos se o mesmo terá sido um verdadeiro cantor de carreira firmada, ou se, bem pelo contrário, a sua incursão pela música não terá sido um acto meramente esporádico, como temos por quase certo. Viçoso Caetano é o seu nome, aliás, um nome verdadeiramente desconhecido e dificilmente memorizável.
No entanto, não duvidamos que a sua voz já terá sido certamente ouvida por muitos militares portugueses pois a ela se deve a única versão portuguesa da célebre canção “Balada dos Boinas Verdes” (Ballad of the Green Berets, o hino das forças especiais norte-americanas Green Berets, originalmente cantada pelo sargento americano Barry Sadler e da autoria de Robin Moore) e que viria a ser traduzida, adaptada e cantada por Viçoso Caetano para português, tendo sido mais tarde adoptada como o hino (oficioso) dos paraquedistas portugueses.
Se por um lado é verdade que muitos até conhecerão o Hino dos Paraquedistas portugueses, não deixará de ser menos verdade que serão seguramente muito poucos os que saberão a quem pertence a voz que o canta. Tal informação não é, aliás, muito divulgada, razão pela qual se impõe em tempo útil a sua divulgação para completo esclarecimento dos potenciais interessados.





Diga-se ainda que sobre Viçoso Caetano, não logramos recolher muita informação, para alguém de algumas referências na internet que a ele se referem como um ex-alferes miliciano, com serviço militar cumprido em Lourenço Marques, sendo conhecido como o poeta de Fornos de Algodres, terra onde ainda hoje viverá.
Quanto à sua carreira, não temos grandes dúvidas em afirmar que a sua aventura pela música terá sido meramente passageira, quiçá inspirada nos tempos de camaradagem do serviço militar, sendo muito provavelmente o disco em causa reflexo desses tempos, não sendo surpresa para nós admitir que possa ter sido gravado ainda durante o cumprimento do serviço militar.
Não deixa de ser também muito curioso o facto de o lado A do disco conter precisamente dois temas em crioulo “Hê Filore” e “A iala Wanuna”, que nos conduzem para o folclore africano e para um canto em crioulo que calculamos ser de Moçambique, embora não o possamos afirmar com toda a certeza por não sermos conhecedores do dialecto em causa.
Pouco mais haverá a acrescentar relativamente a este disco, com orquestrações e coros dirigidos pelo maestro Joaquim Luís Gomes e com a voz bem timbrada de Viçoso Caetano, que retiramos hoje do esquecimento.

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Clique no Play para ouvir os temas: "A iala Wanuna" e "Balada dos Boinas Verdes"

Viçoso Caetano - Balada dos Boinas Verdes
Parlophone LMEP 1275 
A) Hê Filore/ A iala Wanuna
B) Balada dos boinas verdes/ Oh minha terra