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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pancho & Kamel – Pedra Filosofal

Quando pensamos que a imaginação se encontra esgotada e que já não podemos surpreender ninguém com a descoberta de mais uma versão de uma canção conhecida, eis que nos chega às mãos uma inesperada e original interpretação do conhecido poema de António Gedeão “Pedra Filosofal”, imortalizado sob a forma de canção por Manuel Freire.
Já vários artistas portugueses gravaram esta canção, não fosse ela reconhecida por todos os quadrantes musicais como uma das mais belas canções alguma vez criadas por intérpretes portugueses. No entanto, desta feita socorremo-nos do duo Pancho & Kamel, composto por F. J. Amenabar (Chile) e Kamel Missaghian (Irão), dois artistas estrangeiros que (provavelmente) se encontravam a residir temporáriamente em Portugal e que tiveram a oportunidade de gravar este trabalho no nosso país para a etiqueta Riso & Ritmo, em data não anterior a 1970.
De facto, o "verdadeiro" nome deste duo é Dia Prometido, um duo psicadélico baseado em Espanha (acompanhado em estúdio com banda de suporte) com reportorio bastante eclético abrangendo versões instrumentais de temas rock, folk, world, jazz, clássica, além de temas originais.
Ao que pudemos apurar, os Dia Prometido lancaram quatro LP's e cinco Singles entre 1971 e 1975 pela Philips em Espanha, sendo este EP da Riso & Ritmo uma excepção, editado para o mercado português com a exclusividade do tema "Pedra Filosofal" que aparentemente não perfila em nenhum dos LP ou Singles da banda.



No aspecto musical, estamos perante um registo bastante simples, respeitando a linha da versão original, embora neste caso, a voz e a guitarra seguem acompanhadas do muito pouco usual santur, um instrumento milenar de origem persa, que ocupa um lugar de destaque neste tema, cabendo-lhe o registo da melodia da canção, passando a voz a ocupar um lugar declamativo.
Não podemos ficar igualmente indiferentes ao timbre exótico e sonoridade planante que o santur nos emana ao longo da interpretação de “Pedra Filosofal” que, juntamente com o facto de estarmos perante uma versão em castelhano, nos oferece uma interessante visão do poema de Gedeão, confirmando a dimensão universalista que só as grandes obras conseguem alcançar.



Clique no Play para ouvir um excerto da canção
Pancho & Kamel
RREP0089

1) Peace Meditation (Pancho & Kamel)
2) Pedra Filosofal (Antóneo Gedeão)
3) Improviso Persa (Pancho & Kamel)
4) Concerto de Aranjuez (Joaquin Rodrigo)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Portugal - Fado Tropical


Novamente invertemos o rumo do Bairro do Vinil, ao apresentarmos hoje uma composição pouco conhecida de um artista mundialmente famoso. Se é verdade que quando iniciámos este projecto nos propusemos a abordar artistas completamente desconhecidos da música (popular) portuguesa, não deixa de ser menos verdade que também deixámos em aberto a possibilidade de, aos poucos, irmos apresentando temas completamente desconhecidos de artistas portugueses já consagrados. Ao escolhermos para hoje um tema de Georges Moustaki, aliás “Giuseppe Mustacchi” corremos o risco de o leitor eventualmente pensar que o nosso espaço na internet está completamente desvirtuado pois, para além de Moustaki não ser português, é um artista consagrado há quase 6 décadas e conhecido mundialmente (embora, sejamos honestos, se hoje perguntarmos a alguém se conhece tão ilustre figura, a resposta provavelmente será negativa).
Contudo, a escolha de Moustaki não foi feita ao acaso pois este cantor francês (nascido no Egipto, filho de pais gregos) para além de ser um grande amante da cultura e da música de expressão portuguesa (principalmente da musica brasileira) durante muitos anos transportou para a sua música grandes causas, como a da libertação dos povos sujeitos às opressões de regimes ditatoriais e a “proclamação da boa hora permanente” (tal como canta numa das suas canções mais famosas). Não estranhou por isso que a Revolução de Abril, conhecida por Revolução dos Cravos, não lhe fosse indiferente, tendo lançado em 1974 um single dedicado à revolução de 25 de Abril de 1974, precisamente com o título de “Portugal (Fado Tropical)”.
Convém referir, antes de passarmos à musica propriamente dita, que Georges Moustaki desde o início dos anos 70, fazia constantes viagens ao Brasil, onde travou grandes amizades, nomeadamente com o escritor Jorge Amado, e com alguns nomes da canção brasileira, entre os quais Gilberto Gil, Elis Regina, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque da Holanda, entre outros. Aliás, foi a partir de uma canção deste último “Fado Tropical” (canção com declamação de poeta de Carlos do Carmo), que Moustaki transformou num enorme êxito a canção “Portugal“, num registo bem ao seu estilo, de arranjos perfecionistas, embora em segundo plano a favor do intimismo que a sua voz nos oferece.
Depois de ter colaborado e de ter escrito para ínumeros ícones da canção francesa, entre os quais Edith Piaf, Henri Salvador ou Yves Montand, depois de ter visto as suas canções versionadas por outros tantos (sendo o mais recorrente o cantor Serge Reggiani) e de ter contado com a ajuda do grande Astor Piazzolla em alguns dos arranjos das suas canções, Moustaki permanece ainda, aos 76 anos em perfeita actividade, tendo visitado o nosso país em 2008, onde ofereceu dois concertos ao público português e no qual, mais uma vez, voltou a cantar em português alguns versos da canção “Portugal”, tal como antes o fizera em disco.
Para além de todo o interesse da letra da canção que transcrevemos, escolhemos também hoje esta canção pelo facto de Georges Moustaki ter cantado meia dúzia de versos da sua letra em português (embora manifestamente abrasileirado, devido às suas longas estadias no Brasil, uma das suas segundas pátrias) e também pela elucidativa capa do disco, representando um cravo vermelho, com todo o simbolismo a ele associado.
Moustaki não foi o único músico estrangeiro a dedicar canções a Portugal e, neste caso concreto, à revolução portuguesa. Por hoje apresentamos este artista, ficando prometido que, mais tarde ou mais cedo, nova abordagem sobre este tipo de registos musicais será por nós feita. Para finalizar, não podemos deixar de salientar o registo do lado B deste single, simplesmente soberbo, com uma das mais belas canções de Moustaki : "Chanson pour elle (elle ne fait pas l' amour, elle ame)".


Oh muse ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal

On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli

Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles

Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial


Clique no Play para ouvir um excerto da canção