terça-feira, 28 de agosto de 2012

Maria José e o Seu Mini Trio - Avózinha


Apesar de não sermos propriamente grandes entusiastas de registos discográficos interpretados por crianças (principalmente quando estas interpretam canções sobre sentimentos e temáticas na sua essência reservadas aos adultos), deixamos hoje um breve apontamento sobre os "mini-interpretes" que outrora foram muito populares entre nós e com uma vasta discografia. Relembramos assim, os casos de Zezinha Pereira, Linucha (e as Cigarrinhas), Maria Armanda e, num nível já totalmente diferente destes, os Mini-Pop (que mais tarde estariam na génese dos Jafumega). Daqueles nomes, excluímos muitos mini-intérpretes do fado, onde sempre existiram (e existirão) miúdos espalhados pelos bairros de Lisboa e Porto, tais como a "miúda da Boavista" (Maria de Fátima), a "miúda de Odivelas" (Helena Santos) ou a miúda de Alcântara (a conhecida e popular Marina Mota), entre muitos outros...
Deixando para trás tais breves considerações, apresentamos hoje um desses fenómenos de popularidade que foi a pequena cantora Maria José que se apresentava nos espectáculos com o seu Mini Trio, composto por jovens meninos com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos e que alcançaram grande popularidade durante o ano de 1967.


Contrariamente a outros grupos de jovens e à semelhança dos Mini-Pop, Maria José e o seu Mini Trio não faziam "playback" em palco, apresentando-se antes com instrumentos reais, liderados por Maria José (7 anos, organista), Alberto Cruz (8 anos, bateria) e Primavera (10 anos, vocalista e violista). Sabemos que o grupo era de Vila Nova de Gaia e era dirigido pelos pai de Maria José e de Alberto Cruz, Sebastião Silva e António Louro da Cruz, respectivamente.
Apesar do carácter unitário do grupo, a génese deste mini trio aconteceu aquando da gravação prévia de um disco a solo de Maria José, tendo sido nessa altura que o jovem baterista Alberto Cruz foi convidado a participar no projecto e a formar um duo que rapidamente se tornou num trio. Apesar de terem tido na época diversas actuações dignas de registo em casinos na zona Norte e também noutras zonas de Portugal, o certo é que naturalmente este trio acabaria por se desfazer em pouco tempo. No entanto, a nossa curiosidade leva-nos a tentar saber se os membros deste mini trio seguiram qualquer carreira musical futura ou se tal projecto terá sido apenas uma efeméride circunstancial no tempo.

Maria José e o Seu Mini Trio - Ao vivo em 1967
Como sempre, ficamos à espera de qualquer contacto que complete este nosso texto e que nos permita completar a história deste mini-trio.
Para hoje, deixamos aos nossos leitores, a interpretação da famosa canção "Avozinha" de José Guimarães, cantada noutros tempos pela cançonetista Sílvia Maria, cuja interpretação nos parece muito sentida pela pequena Primavera.

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Clique no Play para ouvir "Avozinha" 
Maria José e o Seu Mini Trio
Rapsódia EPF 5.493
Lado A1 - O Natal e o emigrante (José Guimarães-Maria José)
Lado A2 - Nasceu Jesus (José Guimarães-Maria José) 
Lado B1 - Avózinha (José Guimarães-Maria José) 
Lado B2 - Natal do menino orfão (José Guimarães-Maria José)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Conjunto Típico do Val - Já me chamam yé-yé

Nas décadas de 60 e 70 do século passado proliferavam em Portugal dezenas, senão mesmo centenas, de conjuntos típicos. Nessa altura, principalmente no Norte do país, houve um súbito aumento dos interpretes desse género musical, que curiosamente aconteceu ao mesmo tempo e com o mesmo ritmo do aumento do movimento yé-yé em Portugal, embora os conjuntos afectos a este movimento se encontrassem na sua grande maioria no Sul do país, mais concretamente em Lisboa. Coexistiam então dois estilos bem diferentes de música portuguesa, uma de raíz marcadamente popular, com recurso a instrumentos acústicos e um outro de matriz marcadamente anglo-saxónica, onde imperavam as versões de temas ingleses e a electrificação do som. Da temática abordada pelos conjuntos típicos ressaltava, sobretudo, a referência às festas e aos Santos populares, o elogio às virtudes das mulheres, o amor, o emigrante, histórias humorísticas sobre peripécias do quotidiano, entre outros temas. Paralelamente a esses temas recorrentes, começaram a surgir, com alguma repetição, quatro temáticas às quais atribuímos particular interesse histórico: a mensagem política do imediato após 25 de Abril (já aqui explorada), o surgimento da moda da mini-saia em Portugal, a apologia ao Portugal Ultramarino e, por fim, a satirização do yé-yé, levada a cabo pelos conjuntos típicos em algumas das suas canções.
É precisamente sobre este último tema que hoje dedicaremos algumas breves palavras. De facto, para além das grandes diferenças inerentes a esses dois estilos musicais, existiam aspectos extra música que acentuavam a grande diferença entre o yé-yé e a música popular, estando o primeiro naturalmente associado à rebeldia dos ritmos modernos, sendo imagem de marca as vestimentas mais arrojadas dos "chicos yé-yé" e as guedelhas bem mais desordenadas do que os executantes dos conjuntos típicos. Contrariamente, os elementos dos conjuntos típicos actuavam quase sempre de uniforme igual e personalizado, quase sempre com o predomínio das cores mais aguerridas como o vermelho e o azul, contrastando com os blusões negros dos rapazes dos ritmos modernos.

Naturalmente que tudo isto não passaria senão de um mero pormenor caso não tivesse existido por parte dos conjuntos típicos constantes referências nas suas canções aos hábitos dos elementos dos conjuntos de yé-yé. Por exemplo, não raras as vezes aconteciam sátiras aos guedelhudos do yé-yé, bem como a um suposto estilo cool que só os yé-yés dispuham e que lhes permitia impressionar com muito mais facilidade uma donzela da época do que uma pessoa dita normal.
Relativamente à mensagem de hoje, por mais que queiramos, não conseguimos separar da nossa memória a imagem da capa do disco de um conjunto yé-yé dos anos 60, na qual aparecem todos os membros da banda em cima das respectivas motorizadas, equipados com os respectivos instrumentos eléctricos e vestidos com os seus blusões negros. Ora, nem por acaso, o conjunto chamava-se Blusões Negros e ocupou um sério destaque na música portuguesa da época, sendo curiosamente um conjunto do Norte. Também hoje escreveremos sobre um conjunto típico nortenho, formado no dia 25 de Abril de 1963 e que ainda há poucos anos se mantinha em actividade, o Conjunto Típico do Val, da Trofa, que por mais do que uma vez satirizou o Yé-Yé: no seu primeiro disco, lançado para a Alvorada, em 1973 com o tema "Cabeludos" e pouco tempo mais tarde, ainda nesse ano, através do tema "Já me chamam yé-yé", canção cuja interessante letra acaba por resumir todo este já longo texto. De facto, nela está presente a referência aos cabelos compridos, à berraria do yé-yé e até à loira femme fatale dos anos 60, tudo isto tendo como denominador comum a todos os versos a famosa motorizada V5 que imperou pelas estradas portuguesas durante toda a década de 60 até aos anos 90... e não só... De facto, ainda hoje vemos por algumas das nossas estradas secundárias exemplares únicos dessa motorizada. Aliás, qual de nós é que não teve ou tem um familiar que já tenha tido uma V5 ? 

Reprodução de uma motorizada SIS Sachs V5

A canção que hoje escolhemos, mais do que uma simples canção de um conjunto típico, acaba por ser, em nosso entender, uma interessante imagem da época do yé-yé, ao ponto de o vocalista do Conjunto Típico do Val dizer que por ter uma V5 já lhe chamavam yé-yé. É certo que hoje os tempos mudaram e que, infelizmente, o Portugal "moderno" é hoje o reflexo de uma sociedade de kizomba e hip-hop, onde já nada nos caracteriza pela nossa genuinidade, a não ser mesmo o vazio que a nossa cultura vai atingindo.

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Clique no Play para ouvir "Já me chamam yé yé" 

Conjunto Típico do Val 
Alvorada EP-60-1474 
A1 - Cristo amou (José Faria / Júlio Arlindo)
A2 - Rio Ave (José Faria / Júlio Arlindo)
B1 - Desfile na parada (António Mafra / arranjo José Faria e Júlio Arlindo)
B2 - Já me chamam yé-yé  (José Faria / Júlio Arlindo)