terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma Noite na Nau Catrineta

Não iremos na mensagem de hoje dissertar sobre a origem do fado e da sua popularização desde os finais do séc. XIX até às mais recentes fusões com outras correntes musicais. Iremos sim, convidar os leitores mais afortunados pela longevidade, com a nostalgia inerente ao próprio fado, a recuar aos tempos em que se deliciavam na Nau Catrineta, restaurante típico lisboeta que tinha a particularidade de englobar também um casa de fados.
Combinar num mesmo local uma casa de fados e um restaurante, não era propriamente raro em Lisboa, bem pelo contrário; eram inúmeras as populares casas de fado com estas características (tal como hoje, embora em menor escala, assim acontece). No entanto, destacamos hoje a Nau Catrineta, por se tratar de uma casa de fados que hoje já não existe, uma vez que, segundo o que conseguimos apurar, o prédio onde a mesma imperou foi demolido nos anos 90. (Aliás, mesmo antes de ter mudado o nome para “O Poeta”, esta típica casa de fados já havia estado encerrada durante largos anos). Através do interessante arquivo sonoro que nos chegou às mãos, pretendemos realçar a importância que outrora durante largas décadas a Nau Catrineta teve no circuito fadista de Lisboa. Peculiarmente decorada, fazendo recordar, como o seu nome assim o indica, o interior de uma nau, esta casa de fados invocava não só a vida de marinheiros, como também, devido à sua decoração, o quotidiano da vida dos bairros alfacinhas. Foram centenas de fadistas, amadores ou profissionais, que por lá passaram e que para a sua nostalgia contribuíram, entre eles Manuel Fernandes, Natália dos Anjos, Maria José da Guia, Alice Maria da Conceição, Dinóra Carmen, o guitarrista Adelino dos Santos e violeiro Santos Moreira, que se juntaram um noite na Nau Catrineta, para dar origem a um disco gravado ao vivo, provavelmente o primeiro de uma série de 3 E.P.S.(?) que hoje resgatamos da poeira do vinil para imortalizar a Nau Catrineta.

video

Clique no Play para ouvir um excerto do disco

Lado A
1.Variações sobre o fado antigo (Variações/ Arr. Adelino dos Santos)
2. Relembrando o passado (José Marques/ Carlos Conde) - Por Manuel Fernandes

Lado B
1. Desgarrada (Fado Mouraria/Popular) - Por Manuel Fernandes, Natália dos Anjos,Maria José da Guia, Alice Maria da Conceição e Dinora Carmen
2. Pobre Chita - Fado Marcha (R. Ferrão-R. Portela/G. de Oliveira) - Por Natália dos Anjos
Acompanhados por Adelino Santos (guitarra) e Santos Moreira (viola)
Alvorada AEP 60501

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(OU) TRAVOLTA NA MÚSICA PORTUGUESA


Em 1977, estreou nos cinemas um dos filmes que mais marcou a década de 70 e que contribuiu para a massificação do disco-sound como género musical dominante nas pintas de dança, renegando para segundo plano o rock & roll, tal como antes este renegara para segundo plano o swing e a suas Big bands. Falamos obviamente de Saturday Night Fever (“A febre da sábado à noite”), dirigido por John Badham e que consagrou John Travolta a nível mundial, através da sua interpretação da personagem Tony Manera, jovem trabalhador numa loja de tintas que, aos fins de semana saía do anonimato, fazendo sucesso junto das pistas de dança.
Ora, para muitos cépticos seria impossivel imaginar que também o Zé Povinho, personificando a labuta semanal do povo português, poderia também com o seu airoso perfil campestre fazer sucesso nas pistas de dança portuguesas, tal como assim o fez Travolta em "Saturday Night Fever", ao ponto de Zé Povinho poder ser mesmo apelidado de “Zé Travolta”. Contudo, o impossível, principalmente na música, é palavra desconhecida. Principalmente para Shegundo Galarza e sua equipa que, dois anos após Saturday Night Fever, não hesitou em aliar o novo som mundial ao nosso tradicional som das Marchas Populares, tendo o resultado sido um interessante álbum de “disco-marcha”, tão tipicamente português.
Vertido em dois longos medleys que preenchem uma faixa de cada um dos lados do disco, “(Ou)Travolta na Música Portuguesa”, faz jus ao título de capa, na medida em que Shegundo Galarza com a sua versatilidade e rigor, conseguiu dar uma “outra volta” a temas popularizados nas Marchas de Lisboa, transportando-os directamente para as pistas de dança. Aliás, tal não terá sido por mero acaso, visto que, mesmo tecnicamente a marcha popular e o disco sound são ritmicamente similares.
Acresce ainda destacar o interessante grafismo presente na capa do disco, com um Zé-Povinho, com calças e botas de dança encarnado Travolta, ao mesmo tempo que da cintura para cima mantêm o figurino tradicional português.

video

Clique no Play para ouvir um excerto do disco

Boom 5004 (72133)- Edição Especial para os sócios do Círculo de Leitores.

Lado A :Lá vai Lisboa/ Marcha do Centenário/Lisboa dos Milagres/Cheira a Lisboa/Lisboa dos Manjericos
Lado B :S. João Bonito/ Cantiga da Rua/Grande Marcha de Lisboa/ Lisboa à noite/Marcha do bairro alto

Shegundo Galarza - Arranjos e direcção musical, teclas, efeitos
José Nabo – Baixo
João Henrique – Produção, viola, efeitos
Ramon Galarza – Bateria/percussão/efeitos
Metais : Constantino Jesus, António Gomes, Idalino Roque, Gilberto Mota
Coros : João Henrique, Paulo de Carvalho, Rosa do Canto, Dulce Neves e Joana.
Som: José Fortes
Gravado na Rádio Triunfo em 8 pistas (dolbizadas)
Capa : Vitor Mesquita