domingo, 27 de dezembro de 2009

Zaca da Silva - Canção do Mar


Recentemente, veio-nos parar às mãos um interessante disco, gravado na África do Sul (onde há vários anos atrás residiam milhares de portugueses) que não hesitamos partilhar com os nossos ouvintes, dado o mistério que sobre si recai. Trata-se de um disco de “Zaca da Silva and His Trio” com o título de capa “Queme”. Para alguém menos atento, tal disco poderia ser facilmente confundido com um disco de música brasileira ou latino-americana. No entanto, após leitura atenta da contracapa do exemplar que adquirimos, chegamos à conclusão tratar-se de música portuguesa, tocada e cantada por intérpretes portugueses, oferecendo uma excelente amostra do virtuosismo dos músicos portugueses que procuraram a sua sorte além-fronteiras, nomeadamente oriundos de Portugal insular, como é o caso deste trio da ilha da Madeira.
Efectivamente este trio terá corrido mundo, tocando nos principais bares e hotéis de Luanda, Lourenço Marques (actual Maputo, onde permaneceram durante dois anos no hotel Girassol), encontrando-se há data da gravação deste E.P. como músicos residentes do Bal Tarabin Night Club em Joanesburgo. Terá sido durante a estadia deste agrupamento na África do Sul, que se criaram as condições para a gravação de um disco de Zeca da Silva and his Trio pela etiqueta sul africana RAVE (REP 42). De registar, para além da qualidade indubitável destes músicos, são também os interessantes erros de escrita que detectámos no alinhamento das canções que compõem o disco, associados, naturalmente à pronúncia da língua portuguesa através da língua inglesa. Efectivamente, só após a audição de cada um dos temas é que pudemos decifrar o verdadeiro alinhamento do disco e descobrir os títulos, que traduziremos para português correcto:
Zaca da Silva and his trio – Zeca da Silva e o seu Trio
Cancado do Mar – Canção do Mar
Queme – Quem é ?
Senhora da Nazare – Senhora da Nazaré
Never on sunday - Título correcto




O trio de Zeca da Silva foi para Moçambique pela primeira vez em 1960 e actuou no Hotel Girassol de Lourenço Marques, sendo na altura verdadeiramente um quarteto. Muito devido à qualidade que evidenciava, Zeca da Silva e o seu Conjunto, acompanharam a eleita Rainha da Rádio de Moçambique de 1960, Marinela, na gravação do seu primeiro disco para a Alvorada. Em 1961, o quarteto partiu para uma temporada na Rodésia, à semelhança do que era habitual nos conjuntos de jazz ou de ritmos modernos que se encontravam no Ultramar, que percorriam vários países africanos fronteiriços como a África do Sul, fixando-se aí em "boites" e Hoteis de renome, nomeadamente em Joanesburgo. Como era também bastante comum, estas formações sofriam contínuas alterações na sua composição. Por exemplo, depois de desfeito e refeito, em Dezembro de 1966, o quarteto de Zeca da Silva era apenas um trio formado por Carlos Rodrigues (baterista e vocalista) Fernando Guerreiro (contrabaixo, vibrafone e acordeão) e Zeca da Silva, ao piano. À data da gravação deste disco (data que ignoramos) era composto pelos seguintes elementos, todos eles (quase de certeza) provenientes da escola jazzística : Zeca da Silva (piano), Fernando Olim (guitarra), Artur Andrade (baixo) e Tony Oliveira (bateria e voz), todos eles participantes nas gravações deste disco.
O Trio Zeca da Silva, em 1966
Para além do interesse musical que este disco desperta, numa mescla de jazz com influências latinas, é o facto de este agrupamento ter revestido duas das mais populares canções portuguesas (Canção do Mar e Senhora da Nazaré), com uma instrumentalização totalmente apropriada ao Bal Tarabin Night Club, onde tocavam habitualmente, ou seja, musica ambiente de bar de hotel.
Á semelhança de outros artistas, já por nós comentados, desconhecemos por completo o antes e o depois desta formação quer em termos biográficos, quer em termos discográficos, uma vez que, pelo menos, em Portugal, não encontramos qualquer referência a Zeca (Zaca) da Silva e o seu trio, pelo que qualquer informação sobre este trio será sempre bem vinda, nomeadamente relativa à sua formação original e ano de dissolução definitiva.

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Clique no Play para ouvir um excerto de "Cancado do Mar"

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A Caminho de Belém

Chegamos a mais um Natal e como é evidente, não podíamos deixar de invocar esta quadra festiva e todos os sentimentos que emanam da época natalícia. É neste dia que, aparentemente e por breves momentos, todos nós esquecemos o egoísmo próprio do Homem, dando lugar à partilha, à alegria e, sobretudo, à fraternidade entre todos, altura em que sobressai o reunir da família, enquanto uma das muitas manifestações da mensagem de Cristo. Tal como se escreveu na contracapa do disco, “não há Natal sem música, sem alegria, sem o repicar festivo dos sinos, sem a alegria das crianças.”.
Dados os enormes conflitos, consumismo desenfreado e guerras que assolam cada vez mais toda a humanidade, somos obrigados a reflectir em relação ao actual impacto que o Natal tem na sociedade contemporânea. Contudo, como o objecto do nosso blogue é diverso, não nos alongaremos demais nestas considerações laterais, lançando apenas para o ar uma interrogação mais do que batida: “Afinal o Natal não devia ser todos os dias ?”.



Pois bem, ao escolhermos hoje este tema conseguimos reunir, em pouco mais de 2 minutos, a alegria, os sinos de Natal (através dos onomatopaicos Coros da Orquestra de Resende Dias) e a alegria das crianças, não fosse “A caminho de Belém”, interpretado por uma criança de nome Nelinha Bigaíl.
À data do lançamento deste E.P. não era muito profícua a produção, em disco, de composições de Natal não populares, pois o seu espaço comercial era reservado quase em exclusividade às composições eruditas, circunscritas aos temas clássicos germano/ anglo-saxónicos de Natal.
Para além de Nelinha Bigaíl, interpretam este disco o Coral Sacro de S. Tarcísio da Igreja da Lapa, dirigido pelo Padre Manuel de Lima, Júlio Guimarães e a já referida Orquestra e Coro de Resende Dias.


Escolhemos, de entre os quatro temas do disco “Noite Santa, Noite Feliz”, uma composição de carácter profano, uma vez que aborda não só o Natal, como também a viagem dos Reis Magos na sua jornada até à gruta de Belém, sendo de destacar a particularidade de sobressair do arranjo instrumental o acordeão como instrumento solista.



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Clique no Play para ouvir um excerto de "A caminho de Belém"


Lado A 1. Noite Santa, Noite Feliz (pelo Coral Sacro S. Tarcísio da Igreja da Lapa)
Lado A 2. Natal (Júlio Guimarães)
Lado B 1. A caminho de Belém (Nelinha Bigaíl e Coro e Orquestra de Resende Dias)
Lado B 2. Vamos ao presépio (pelo Coral Sacro S. Tarcísio da Igreja da Lapa)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Bocage - Sonetos Eróticos


Não somos propriamente grandes entendidos em literatura. Todavia iremos fazer uma breve incursão por esses domínios, aliando o gosto pela poesia e pela música, acrescentando-lhe ainda um outro (picante) aperitivo: o erotismo. Se a literatura e a música, de uma forma ou outra, têm sido exploradas em Portugal desde (pelo menos) a época pré-medieval, o mesmo já não se poderá dizer do erotismo enquanto temática da literatura, e muito menos do trio “música, literatura e erotismo” combinadas entre si. É isso mesmo que hoje pretendemos abordar, trazendo à memoria os famosos sonetos eróticos de Bocage (1765-1805), precisamente através da sua reprodução em disco, na voz de Andrade e Silva (que curiosamente, num sentido diametralmente inverso, participou como declamador em vários discos de histórias infantis da editora Estúdio).
Para além de efémeras referências ao erotismo em algumas cantigas de escárnio e de maldizer, durante muitos anos o erotismo na literatura portuguesa foi conotado marcadamente pela Ilha dos Amores de Luís de Camões.
Já com Bocage, poeta nascido no contexto do pré-romântismo, imperou a sua apetência natural para a libertinagem e transgressão da moral e dos bons costumes padronizados da época. Para além do homem viajado que foi, tal como Camões, foi já nos últimos anos da sua curta vida, que os seus primeiros poemas começaram a ser publicados. Contudo, só cerca de 50 anos após a sua morte, é que foram publicadas as “Poesias Eróticas, Burlescas e Satyricas” atribuídas a Bocage, que devido ao seu conteúdo, muitas vezes para evitar a sua apreensão judicial, eram impressas e editadas de forma clandestina.
Felizmente, os tempos mudaram e o disco que hoje apresentamos “Bocage – Sonetos Eróticos” (Estúdio EEP 50269), não precisou de ser impresso clandestinamente, bem pelo contrário. Podemos dizer, sem outras intenções, que foi tudo feito às claras. Como é evidente, num disco desta natureza, os arranjos musicais não se querem muito produzidos, mas minimalistas, razão pela qual apenas uma ambiência preenchida por notas de piano, acompanha a declamação de Andrade e Silva.
Convidamos os nossos leitores a ouvirem um trecho deste disco, adiantando desde já que apresenta conteúdo sexualmente explícito, ultrapassando mesmo os domínios do mero erotismo…

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Luiz Rego - Fernando Pessoa Bossa Nova


Foi com grande prazer que, literalmente, resgatámos, salvando-o de um provável triste destino o disco que hoje apresentamos aos novos ouvintes. Trata-se de um single, de Luiz Rego, personagem quase esquecida do panorama musical português, provavelmente um dos portugueses emigrantes mais respeitados, nomeadamente em solo francês, onde há muitos anos se radicou.
Nascido em 1944, oriundo de uma família anti-salazarista, Luiz Rego deixa Lisboa em 1962, ainda com 17 anos de idade, para evitar um eminente recrutamento para o serviço militar em Angola, tendo chegado a França, onde executou toda a espécie de trabalhos: primeiramente ocupado numa fábrica, depois como ajudante de cozinha, fez de tudo um pouco, até finalmente encontrar, por mero acaso (como muitas coisas na vida) os músicos que iriam influenciar para sempre a sua entrada para o mundo artístico, nomeadamente o mundo do espectáculo e da representação. Por essa razão, é hoje conhecido em França como músico, actor (tendo contracenado, entre outros, com Gérard Depardieu) dramaturgo e, maioritariamente, conhecido por comediante.
Através da formação de Les Problemes, grupo de rock de culto em França, o qual Luiz Rego ajudou a formar (enquanto baixista), deu o salto para o mundo da canção e mais tarde da representação. Efectivamente, desfeito o grupo Les Problemes, o mesmo deu origem a uma nova formação, Les Charlots, inicialmente um grupo de cómicos, adaptado mais tarde a formação de rock ao sabor da corrente ye ye e rockabilly.
Facto interessante é que, depois de Les Problemes se terem estreado na televisão francesa e do sucesso imediato que tiveram, quando o agrupamento se deslocou a Portugal pela primeira vez, Luiz Rego foi imediatamente detido e preso durante vários meses, por fuga ao serviço militar. Sendo, por isso, Luiz Rego, um dos poucos prisioneiros políticos portugueses a quem foi dedicado um título de uma canção, pelos outros elementos do grupo, intitulada "Ballade à Luis Rego, Prisonnier Politique", sendo quase certo que, Luiz Rego não terá participado na gravação desse E.P., lançado pela Etiqueta Vogue... precisamente por estar preso!

Facto menos conhecido é que, aproveitando o talento comprovado que lhe era reconhecido, Luiz Rego, mais tarde, (provavelmente paralelamente ao seu trabalho com a banda Les Charlots...), grava através da mesma etiqueta, um single em estéreo (não muito comum para a época), cantado em português, onde para além de musicar um poema de Fernando Pessoa (Quadras Soltas) e uma outra composição com letra de Maria Flávia (Amor novo), se apresenta com uma sonoridade totalmente surpreendente para a época (só mesmo comparável ao melhor do Quarteto 1111), principalmente neste último tema. Já o tema Quadras Soltas, é uma transformação radical dos versos de Pessoa, numa maravilhosa bossa nova, que sinceramente, não nos cansamos de escutar, tendo sido mesmo Luiz Rego, um dos primeiros cantores a musicar um tema de Fernando Pessoa.
Uma curiosidade, que desconhecíamos também, é o facto deste disco Vogue, de 1970, com a referência V.45.1730, ter também a sua versão portuguesa, edição Arnaldo Trindade & CA., Lda, com a referência VATS 3002 “Disques Vogue”, sendo esta versão portuguesa que apresentamos hoje aos nossos ouvintes.
Tanto quanto sabemos, este single contém as únicas canções gravadas em português por Luiz Rego, conhecendo apenas a gravação de mais um L.P. a solo, também editado pela Vogue, cujo ano de edição desconhecemos.

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Clique no Play para ouvir um excerto de Quadras Soltas