terça-feira, 28 de agosto de 2012

Maria José e o Seu Mini Trio - Avózinha


Apesar de não sermos propriamente grandes entusiastas de registos discográficos interpretados por crianças (principalmente quando estas interpretam canções sobre sentimentos e temáticas na sua essência reservadas aos adultos), deixamos hoje um breve apontamento sobre os "mini-interpretes" que outrora foram muito populares entre nós e com uma vasta discografia. Relembramos assim, os casos de Zezinha Pereira, Linucha (e as Cigarrinhas), Maria Armanda e, num nível já totalmente diferente destes, os Mini-Pop (que mais tarde estariam na génese dos Jafumega). Daqueles nomes, excluímos muitos mini-intérpretes do fado, onde sempre existiram (e existirão) miúdos espalhados pelos bairros de Lisboa e Porto, tais como a "miúda da Boavista" (Maria de Fátima), a "miúda de Odivelas" (Helena Santos) ou a miúda de Alcântara (a conhecida e popular Marina Mota), entre muitos outros...
Deixando para trás tais breves considerações, apresentamos hoje um desses fenómenos de popularidade que foi a pequena cantora Maria José que se apresentava nos espectáculos com o seu Mini Trio, composto por jovens meninos com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos e que alcançaram grande popularidade durante o ano de 1967.


Contrariamente a outros grupos de jovens e à semelhança dos Mini-Pop, Maria José e o seu Mini Trio não faziam "playback" em palco, apresentando-se antes com instrumentos reais, liderados por Maria José (7 anos, organista), Alberto Cruz (8 anos, bateria) e Primavera (10 anos, vocalista e violista). Sabemos que o grupo era de Vila Nova de Gaia e era dirigido pelos pai de Maria José e de Alberto Cruz, Sebastião Silva e António Louro da Cruz, respectivamente.
Apesar do carácter unitário do grupo, a génese deste mini trio aconteceu aquando da gravação prévia de um disco a solo de Maria José, tendo sido nessa altura que o jovem baterista Alberto Cruz foi convidado a participar no projecto e a formar um duo que rapidamente se tornou num trio. Apesar de terem tido na época diversas actuações dignas de registo em casinos na zona Norte e também noutras zonas de Portugal, o certo é que naturalmente este trio acabaria por se desfazer em pouco tempo. No entanto, a nossa curiosidade leva-nos a tentar saber se os membros deste mini trio seguiram qualquer carreira musical futura ou se tal projecto terá sido apenas uma efeméride circunstancial no tempo.

Maria José e o Seu Mini Trio - Ao vivo em 1967
Como sempre, ficamos à espera de qualquer contacto que complete este nosso texto e que nos permita completar a história deste mini-trio.
Para hoje, deixamos aos nossos leitores, a interpretação da famosa canção "Avozinha" de José Guimarães, cantada noutros tempos pela cançonetista Sílvia Maria, cuja interpretação nos parece muito sentida pela pequena Primavera.

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Clique no Play para ouvir "Avozinha" 
Maria José e o Seu Mini Trio
Rapsódia EPF 5.493
Lado A1 - O Natal e o emigrante (José Guimarães-Maria José)
Lado A2 - Nasceu Jesus (José Guimarães-Maria José) 
Lado B1 - Avózinha (José Guimarães-Maria José) 
Lado B2 - Natal do menino orfão (José Guimarães-Maria José)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Conjunto Típico do Val - Já me chamam yé-yé

Nas décadas de 60 e 70 do século passado proliferavam em Portugal dezenas, senão mesmo centenas, de conjuntos típicos. Nessa altura, principalmente no Norte do país, houve um súbito aumento dos interpretes desse género musical, que curiosamente aconteceu ao mesmo tempo e com o mesmo ritmo do aumento do movimento yé-yé em Portugal, embora os conjuntos afectos a este movimento se encontrassem na sua grande maioria no Sul do país, mais concretamente em Lisboa. Coexistiam então dois estilos bem diferentes de música portuguesa, uma de raíz marcadamente popular, com recurso a instrumentos acústicos e um outro de matriz marcadamente anglo-saxónica, onde imperavam as versões de temas ingleses e a electrificação do som. Da temática abordada pelos conjuntos típicos ressaltava, sobretudo, a referência às festas e aos Santos populares, o elogio às virtudes das mulheres, o amor, o emigrante, histórias humorísticas sobre peripécias do quotidiano, entre outros temas. Paralelamente a esses temas recorrentes, começaram a surgir, com alguma repetição, quatro temáticas às quais atribuímos particular interesse histórico: a mensagem política do imediato após 25 de Abril (já aqui explorada), o surgimento da moda da mini-saia em Portugal, a apologia ao Portugal Ultramarino e, por fim, a satirização do yé-yé, levada a cabo pelos conjuntos típicos em algumas das suas canções.
É precisamente sobre este último tema que hoje dedicaremos algumas breves palavras. De facto, para além das grandes diferenças inerentes a esses dois estilos musicais, existiam aspectos extra música que acentuavam a grande diferença entre o yé-yé e a música popular, estando o primeiro naturalmente associado à rebeldia dos ritmos modernos, sendo imagem de marca as vestimentas mais arrojadas dos "chicos yé-yé" e as guedelhas bem mais desordenadas do que os executantes dos conjuntos típicos. Contrariamente, os elementos dos conjuntos típicos actuavam quase sempre de uniforme igual e personalizado, quase sempre com o predomínio das cores mais aguerridas como o vermelho e o azul, contrastando com os blusões negros dos rapazes dos ritmos modernos.

Naturalmente que tudo isto não passaria senão de um mero pormenor caso não tivesse existido por parte dos conjuntos típicos constantes referências nas suas canções aos hábitos dos elementos dos conjuntos de yé-yé. Por exemplo, não raras as vezes aconteciam sátiras aos guedelhudos do yé-yé, bem como a um suposto estilo cool que só os yé-yés dispuham e que lhes permitia impressionar com muito mais facilidade uma donzela da época do que uma pessoa dita normal.
Relativamente à mensagem de hoje, por mais que queiramos, não conseguimos separar da nossa memória a imagem da capa do disco de um conjunto yé-yé dos anos 60, na qual aparecem todos os membros da banda em cima das respectivas motorizadas, equipados com os respectivos instrumentos eléctricos e vestidos com os seus blusões negros. Ora, nem por acaso, o conjunto chamava-se Blusões Negros e ocupou um sério destaque na música portuguesa da época, sendo curiosamente um conjunto do Norte. Também hoje escreveremos sobre um conjunto típico nortenho, formado no dia 25 de Abril de 1963 e que ainda há poucos anos se mantinha em actividade, o Conjunto Típico do Val, da Trofa, que por mais do que uma vez satirizou o Yé-Yé: no seu primeiro disco, lançado para a Alvorada, em 1973 com o tema "Cabeludos" e pouco tempo mais tarde, ainda nesse ano, através do tema "Já me chamam yé-yé", canção cuja interessante letra acaba por resumir todo este já longo texto. De facto, nela está presente a referência aos cabelos compridos, à berraria do yé-yé e até à loira femme fatale dos anos 60, tudo isto tendo como denominador comum a todos os versos a famosa motorizada V5 que imperou pelas estradas portuguesas durante toda a década de 60 até aos anos 90... e não só... De facto, ainda hoje vemos por algumas das nossas estradas secundárias exemplares únicos dessa motorizada. Aliás, qual de nós é que não teve ou tem um familiar que já tenha tido uma V5 ? 

Reprodução de uma motorizada SIS Sachs V5

A canção que hoje escolhemos, mais do que uma simples canção de um conjunto típico, acaba por ser, em nosso entender, uma interessante imagem da época do yé-yé, ao ponto de o vocalista do Conjunto Típico do Val dizer que por ter uma V5 já lhe chamavam yé-yé. É certo que hoje os tempos mudaram e que, infelizmente, o Portugal "moderno" é hoje o reflexo de uma sociedade de kizomba e hip-hop, onde já nada nos caracteriza pela nossa genuinidade, a não ser mesmo o vazio que a nossa cultura vai atingindo.

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Clique no Play para ouvir "Já me chamam yé yé" 

Conjunto Típico do Val 
Alvorada EP-60-1474 
A1 - Cristo amou (José Faria / Júlio Arlindo)
A2 - Rio Ave (José Faria / Júlio Arlindo)
B1 - Desfile na parada (António Mafra / arranjo José Faria e Júlio Arlindo)
B2 - Já me chamam yé-yé  (José Faria / Júlio Arlindo)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Maria Helena - Uma artista renascida


Confessamos que o texto sobre a artista que hoje trazemos à memória não estava, pelo menos para já, dentro das nossas cogitações imediatas. No entanto, um episódio que tem tanto de insólito como de lamentável, apressou-nos a escrever com urgência um texto sobre a artista brasileira Maria Helena, que durante alguns anos fez sucesso em Portugal, país que, aliás, sempre a tratou como se de uma verdadeira portuguesa se tratasse.
Conforme já referimos, Maria Helena era brasileira. Nasceu nos anos 40 , no estado de S. Paulo, no seio de uma família de alta aristocracia brasileira. Seus pais, empresários de profissão, incentivaram-na a tirar um curso de letras no Brasil. No entanto e contra a vontade da família, Maria Helena sempre quis ingressar no mundo do espectáculo, ansiando ser cançonetista, embora nunca tivesse tido aulas de canto para o efeito, tendo apenas tirado um curso de piano. Como que renunciasse a toda a vida abastada que os seus pais lhe poderiam oferecer, Maria Helena, já nos meandros da vida artística e integrada num conjunto local brasileiro (cujo nome não conseguimos apurar mas que tinha como elemento o pianista Robledo, que tocou com Agostinho dos Santos), teve a oportunidade de um dia vir a Lisboa em inícios dos anos 60 com o seu conjunto a fim de cumprir um contrato num cabaret lisboeta. Terá sido, portanto, nessa altura que Maria Helena veio a Portugal pela primeira vez, sempre contra a vontade da sua família. Uma outra versão sobre a primeira estadia de Maria Helena em Portugal existe ainda, que é a que temos lido em algumas revistas da época, referindo que Maria Helena terá vindo a Portugal como simples turista e que por cá ficou, após terem descoberto a sua voz por mero acaso. No entanto, parece-nos, pela análise da (escassa) "documentação" que temos sobre esta artista, que esta segunda versão não passará de um resumo romanciado e fantasiado sobre vinda de Maria Helena a Portugal pela primeira vez. De facto, o que podemos assegurar é que a sua vinda a Portugal, coincidiu o convite daquele conjunto brasileiro, que a descobrira poucos dias antes no Brasil e que poucos dias depois a convidara para seguir em digressão com eles para a Europa e nomeadamente para Portugal.

Capa do disco de Maria Helena

Segundo rezam as crónicas, a especial relação de Maria Helena com Portugal (e com Lisboa em particular) iniciou-se aquando dessa visita, altura em que ficou encantada com o nosso país, por aqui tendo ficado depois dessa actuação, dado o reconhecimento que a sua voz teve em diversos pontos do país e junto dos promotores e agentes artísticos portugueses. Na verdade, semanas depois estreava-se em Lisboa, no Maxime e pouco tempo depois surgiram convites para actuar em Barcelona, em Madrid e na Televisão Espanhola.
A carreira artística de Maria Helena em Portugal corria a um ritmo desenfreado, tendo sido transformada pelos portugueses numa verdadeira vedeta. Fez teatro, revistas e participou no filme "Pão, amor e totobola", tendo aliás gravado canções para esse filme, juntamente com Zeca do Rock. Em Maio de 1963, cedendo à vontade dos pais, parte para o Brasil, abandonando o teatro de revista, regressando com eles ao Brasil. No entanto, como o sangue que lhe corria nas veias era o da vida artística, voltaria meses mais tarde, para actuar temporariamente no Casino Estoril, para depois seguir imediatamente para Espanha. Em Janeiro de 1965, encontrava-se em Moçambique, actuando na boîte "A Cave", altura em que regressou a Portugal para gravar um disco, antes de seguir para a Venezuela, tendo percorrido ainda toda a então África Portuguesa e a então União Sul Africana em pouco mais de dois anos. Durante parte do ano de 1966, já regressada a Portugal, actuou no Teatro Maria Vitória, marcando o início da sua afirmação como vedeta do teatro de Lisboa.
Pese embora Maria Helena viesse a ser mais reconhecida em Portugal pela sua interpretação em teatro de revistas, cremos que o seu momento alto aconteceu quando, participou, representando Portugal, em Aranda do Douro, no Festival Hispano-Portugues da canção do Douro, de 1960. Aliás, foi mesmo ela que criou a canção "Meu rio Douro" (Canção tema do Festival desde a sua 1.ª edição), tendo ficado em primeiro lugar, facto que nunca acontecera antes com qualquer representante português.
E sobre a vida de Maria Helena, pouco mais sabemos. No entanto, quando por mero acaso desfolhávamos uma revista Plateia de finais de 1968, reparámos na triste notícia então relatada acerca do seu prematuro falecimento num Hospital de Madrid, após 7 meses de internamento numa dura batalha contra um cancro. A referida notícia, cujo recorte acima aqui deixamos, vinha acompanhada da respectiva foto de Maria Helena, não deixando margem para dúvidas: Maria Helena, segundo a revista Plateia, falecera (tal como a malograda Marina Neves) no auge da sua carreira, muito nova, vítima de uma grave enfermidade.
Notícia do falecimento de Maria Helena, em 1968

Contudo, para nosso espanto, e após consultarmos um interessante blogue palcoum.blogpsot.com, lemos uma mensagem na qual o responsável pelo blogue perguntava à comunidade de leitores sobre o que seria feito de Maria Helena, referindo, porém, que a última notícia de que dispunha sobre Maria Helena prendia-se com uma visita a Portugal entre finais dos anos 70 e inícios de 80 em Sintra, na quinta do empresário teatral Sérgio de Azevedo. Ora, como dispúnhamos da informação de que Maria Helena, infelizmente, havia já falecido vítima de cancro, prontamente demos conta do seu falecimento. Todavia, imediatamente a seguir, o responsável pelo mesmo blogue, publicou nova mensagem, colocando uma fotografia de Maria Helena em Portugal alusiva à sua última estadia em Portugal, em Sintra, desfazendo o grande equívoco da revista Plateia que noticiara uma década antes a sua morte.
Maria Helena em Portugal, nos anos 70 (cortesia palcoumblogspot.com)

Da nossa parte, e após análise da fotografia "postada" naquele blogue, não temos dúvidas em afirmar que se trata efectivamente da mesma Maria Helena e que, felizmente, a mesma não falecera uma década antes, vítima de cancro. Aliás, gostaríamos de esclarecer os nossos leitores que a nossa tarefa de recolha de informação sobre estes artistas privilegia a mais rigorosa informação possível, sendo certo que, devido à nossa idade, a única informação de que nos munimos é a da imprensa da época, ou então dos próprios artistas quando com eles mantemos alguma espécie de contacto. Sendo assim, jamais nos poderemos responsabilizar pela informação que retiramos das revistas que lemos se tal informação estiver completamente errada. De facto, já por diversas vezes Eunice Muñoz foi dada como morta pela nossa imprensa e bem recentemente Camilo de Oliveira (ou até o famoso Bon Jovi !) , sendo que todos eles se encontram bem e com saúde. Lamentamos profundamente que a imprensa não seja muito rigorosa e não se acautele devidamente na hora de lançar tão tristes e sérias notícias.
Cumpre-nos hoje tentar desvendar e esclarecer esse insólito equívoco sobre a vida de Maria Helena. No entanto, gostaríamos também de saber sobre o paradeiro actual de Maria Helena e sobre o seu percurso desde os anos 70 até à presente data, do qual quase nenhuma informação conhecemos.
Retribuindo, dedicamos também esta mensagem ao responsável pela manutenção do blogue "palcoum" (e de outros tantos mais) e que muito tem feito para preservar a memória dos nossos maiores artistas, nomeadamente na área do teatro e do espectáculo em geral.
Deixamos para os nossos leitores, dois temas cantados por Maria Helena, acompanhada pela orquestra de Ferrer Trindade, com destaque para "Com sete letras se escreve saudade" numa interpretação sentida, na qual Maria Helena encarna com perfeição esse sentimento único português, que se chama saudade.

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Clique no Play para ouvir um excerto das canções
Maria Helena 
Alvorada AEP60467 
A1 - Fantasma do amor (Ferrer Trindade / José Correia) 
A2 - Com sete letras se escreve saudade (Ferrer Trindade / Anibal da Nazaré) 
B1 - Ninguém é de ninguém (Umberto Silva-Toso Gomes / Luis Mergulhão)
B2 - Custou dizer adeus (Costa Pinto / José Correia) 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Fernando Lito - Tiqui-Toc


Dedicamos o espaço de hoje a Fernando Lito Inácio de Sousa Magalhães, filho de uma cigana e de um mulato português, mais conhecido no mundo artístico pelo nome abreviado de Fernando Lito, cançonetista que surgiu no panorama artístico nacional em 1966. Antes, com 16 anos apenas e tal como muitos outros jovens aspirantes a artistas desse tempo, tentou frequentar o famoso Centro de Preparação de Artistas de Rádio (de onde saíram grandes cançonetistas portugueses dos anos 60, como Simone de Oliveira, Tonicha, António Calvário ou Madalena Iglésias, entre muitos outros). No entanto, era desejo dos professores do C.P.A.R. que o jovem Fernando Lito cantasse Jazz e canções anglo-americanas, as quais não o seduziam particularmente, facto que o levou a desistir da ideia de ingressar nos quadros da Emissora Nacional.
Como não se recusasse a desistir do seu sonho, Fernando Lito concorreu ainda no popular concurso "Do Céu caiu uma Estrela", promovido pela Agência Portuguesa de Revistas. Contudo, as suas aspirações esbarraram na obrigatoriedade de cumprimento do serviço militar, facto que o impediu de ir à final, para a qual, aliás, fora apurado. Não obstante tal contrariedade, ainda fez vários espectáculos na província e em Lisboa antes de partir para o Ultramar, nomeadamente no Coliseu dos Recreios, tendo tido também a sua estreia na RTP no programa "Parada Musical" realizado por Fernando Frazão e com locução de Carlos Cruz.
Na Guiné, onde cumpriu serviço militar, cantou principalmente para os membros das Forças Armadas Portuguesas que alí se encontravam em missão. Num desses espectáculos, em Jabadá, Fernando Lito cantou num palco improvisado ao ar livre em que os assistentes eram militares de metralhadoras na mão, prevenidos contra qualquer ataque da resistência rebelde.
Fernando Lito na Guiné Portuguesa
circa 1967
Uma vez cumprido o serviço militar e de regresso a Lisboa, foi contratado para espectáculos de televisão na América do Norte bem como para diversos espectáculos em Espanha e Norte de África. Concorreu a vários festivais, incluindo o famoso de Aranda do Douro, onde obteve o segundo lugar e em 1978 foi-lhe atribuído o prémio de interpretação no Festival da Canção Tâmega, do qual resultaria a edição de um disco.
A actividade de Fernando Lito não se centrou apenas na música, tendo sido também actor de revista. Segundo apurámos, teve uma grande actividade artística até 1978, altura em que tinha como projectos montar o seu próprio show, em parceria com José Guimarães e abrir um casa comercial de agenciamento de espectáculos, incluindo obviamente o seu próprio espectáculo.
Ao que sabemos, Fernando Lito voltou a editar, pelo menos, mais um disco posteriormente a esta altura já em 1990, mas sobre o qual poucas informações dispomos.
O disco que apresentamos hoje aos leitores coincide com o primeiro disco de Fernando Lito gravado para a editora nortenha Rapsódia, em regime de exclusividade, cujos arranjos de Rocha Oliveira particularmente apreciamos. Não conseguimos chegar à fala com Fernando Lito, apesar dos contactos telefónicos que conseguimos obter. Resta-nos, como sempre, a ajuda dos nossos leitores em descortinar o paradeiro deste intérprete que hoje recuperamos do baú do esquecimento.

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Clique no Play para ouvir um excerto das canções

Fernando Lito
Rapsódia EPF 5.574
Lado A1 - Moira, morena, romã (José Vicente-Fernando Lito)
Lado A2 - Tiqui-Toc (José Lezaun/Fausto Turell-Fernando Lito)
Lado B1 - Deus te guarde (Francisco Ataíde)
Lado B2 - Quero um novo dia (Fernando Lito-Rocha de Oliveira)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Os Camaradas - Quem trabalha é que deve mandar

Quando há poucas semanas atrás publicámos no Bairro do Vinil um texto sobre o músico Tino Flores, tínhamos já em mente colocar imediatamente a seguir uma mensagem sobre um desconhecido e misterioso agrupamento musical denominado de "Os Camaradas", tendo por única referência um disco que adquirimos juntamente com o disco de Tino Flores e com outros discos de intervenção. Curiosamente, os comentários que emergiram após a publicação daquele texto precipitaram a publicação desta mensagem em cumprimento de uma espécie de dever e de compromisso para com os leitores, levantando um pouco do véu sobre esse misterioso agrupamento, do qual pouca ou nenhuma informação se sabe.
De facto, sobre "Os Camaradas" não conseguimos recolher qualquer informação, pelo menos até ao momento. Desde logo, a própria componente editorial do disco (à semelhança dos discos de Tino Flores) remete-nos igualmente para a ideia de tratar-se de edição de autor. Inclinámo-nos para esta tese, após observarmos com atenção o label do disco, no qual apenas constam o nome das músicas e a referência "OSC 2", sem qualquer referência a editoras ou "patrocinadores" do disco. Supomos também tratar-se do segundo disco deste agrupamento.
Por outro lado, o disco que adquirimos não tem qualquer informação na contracapa e embora a sua capa seja coloridamente apelativa (com cores vermelhas, pois claro) nenhuma informação dele podermos retirar. No entanto, desde logo ficámos com a ideia de que o disco dos Camaradas teria sido lançado em simultâneo ou então num período temporal muito próximo do disco de Tino Flores anteriormente apresentado pelo facto de os labels dos discos serem exactamente iguais, com o mesmo grafismo e igualmente editados em França. Tal constatação, remete-nos imediatamente para o campo das suposições, acreditando que o próprio Tino Flores poderá ter participado, de alguma forma, na produção deste disco. Na verdade podemos até ouvir numa das canções uma harmónica, à semelhança do disco de Tino Flores, onde também podemos encontrar igualmente a mesma sonoridade em algumas canções.
Facto que demos por assente à primeira audição é que não é Tino Flores que canta neste disco, pelo menos enquanto solista. Com efeito, as vozes dos intérpretes dos dois discos são manifestamente distintas. A identidade do vocalista dos Camaradas permanecerá um mistério que pretendemos desvendar com ajuda de todos aqueles que lerem este texto. Da composição do grupo, temos apenas a informação de que o músico Adão Gonçalves integrou-o em 1973, segundo informação colocada no Bairro do Vinil por um comentador geralmente muito bem informado.

Capa do E.P. "Os Camaradas" OSC 2

Confessamos que a nossa maior dificuldade prendou-se com o facto de permanecerem (mesmo após várias audições dos 4 temas que compõem este disco) algumas dúvidas sobre se o disco terá tido edição pré ou pós 25 de Abril. Sobre este aspecto, à primeira vista tudo indicaria tratar-se de um disco pré-25 de Abril, atendendo ao facto de o label do disco, conforme já referimos, ser igual ao do disco do Tino Flores e daí podermos eventualmente retirar a conclusão de ter sido editado em 1972 ou em 1973 (tendo por referência o período em que Adão Gonçalves integrou o grupo). É que as letras das canções, embora se tratem igualmente de músicas de conteúdo directo e sem floreados, têm um carácter dúbio ao ponto de poderem ser facilmente inseridas em qualquer um dos períodos acima referidos, isto tanto antes tanto depois do 25 de Abril. No entanto, arriscamos tratar-se de um disco já editado no pós 25 de Abril. Na verdade, através dele conseguimos vislumbrar algumas reminiscências do período conturbado dos primeiros meses imediatamente após a revolução dos cravos. Referências pontuais a pequenas liberdades, à repetição da palavra democracia inserida no contexto de governos pós salazaristas e nenhuma referência a qualquer primavera Marcelista colocam-nos numa quase certeza de tratar-se já de um disco editado em finais de 1974 ou inícios de 1975. O primeiro tema do E.P. "Quem trabalha é que deve mandar", a nosso ver desfaz qualquer dúvida. Contudo, sobre esta matéria, iremos deixar o espaço aos leitores para darem as suas opiniões para, daqui a umas semanas, refazermos o texto de hoje com informação já actualizada. 



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Clique no Play para ouvir um excerto de "Os Camaradas"

Lado A) Quem trabalha é que deve mandar/ Democracia
Lado B ) Lá vai o comboio/ Ora vai, vai vai

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tino Flores - Organizado o povo é invencível

"Explorados nas fábricas e nos campos, carne para canhão na guerra colonial, emigrantes a fugir à fome, presos, torturados e massacrados pelos carrascos da burguesia, esta é a nossa vida. Sózinhos, isolados somos uma presa fácil nas mãos dos capitalistas. Quando nos unimos, quando nos organizamos, obrigamos os patrões e os oficiais e a polícia a recuar, fazemos greves e ganhamos, desertamos e roubamos armas, atacamos a guarda e fazemos com que ela fuja. Organizados e com armas conquistaremos o poder e exterminaremos essa corja de bandidos e parasitas que nos sugam o sangue e que nos lançam na miséria. Lutemos pela nossa unidade, organizemos reuniões nas fábricas, nos campos, nos quartéis, nos bairros onde vivemos! Discutamos os nossos problemas e organizemo-nos para a resposta vitoriosa contra os nossos exploradores! A união de todos os explorados criará um mundo novo onde terminará a exploração do homem pelo homem! A Guerra do povo é invencível. Em frente pela revolução popular!"

As palavras que acima escrevemos não estão aqui escritas por mero acaso. Na verdade estão igualmente estampadas na contracapa do disco que escolhemos para apresentar hoje no dia 25 de Abril. Trata-se de um disco que não sendo propriamente de um intérprete totalmente desconhecido, como é o caso de Tino Flores, merece honras de destaque pela sua raridade uma vez que os discos desse cantautor (principalmente os gravados no pré- 25 de Abril) são considerados dos mais raros de encontrar no mercado discográfico e, portanto, verdadeiras relíquias.

 À semelhança de outros cantores de intervenção exilados em França, foi também através da canção com mensagem de protesto que a voz Tino Flores chegou ao conhecimento de (alguns) portugueses. No entanto, para os que se interessam por este género de canção, é unânime a constatação de que Tino Flores é um caso totalmente à parte, diferenciando-se dos demais em muitos aspectos. Em primeiro lugar, os seus discos são genuinamente canções de protesto ao serviço de ideais e alvos bem definidos, como se de folk music se tratasse, tendo em conta o singelo acompanhamento de guitarra que servia de base às suas canções. Depois, porque as incendiárias palavras de Tino Flores não são preenchidas com quaisquer eufemismos ou floreados, sendo antes uma escrita directa contra a guerra e o fascismo, quase que rude e sem papas na língua, apelando directamente à consciência daqueles que considerava serem os explorados da sociedade, atingindo o seu auge com a canção "Isto só vai à porrada !", gravado já depois do 25 de Abril. Por outro lado, ao contrário dos outros cantores de protesto, que viam os seus discos ser editados sob a chancela de algumas editoras (ainda que lançados quase que clandestinamente) as edições de discos de Tino Flores tinham um carácter muito mais restrito, sendo edições próprias de autor, com capas trabalhadas de forma amadora e sugestivamente apelativas à luta e à revolta popular.
 Ao contrário de José Afonso ou Sérgio Godinho, por exemplo, que se tornou num músico de carreira com o decorrer dos anos, Tino Flores nunca seguiu (nem mesmo depois de ter regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974) qualquer carreira de músico profissional, pese embora tenha gravado alguns discos após a revolução. Tino Flores era, sobretudo, um músico de combate e de verdadeira resistência, conforme veio a demonstrar pelo seu contributo numa interessante parte da história do canto popular, como foi o Grupo de Acção Cultural, onde veio a ter um papel de verdadeiro destaque ao lado de José Mário Branco, Afonso Dias, José Júlio, entre outros. Para ilustrarmos um pouco desses cantos de revolta, deixamos um excerto de algumas das canções que compõem o E.P. do disco que hoje apresentamos, gravadas em 1972, algures em França.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Actualização de mensagens do Bairro do Vinil

Muito mais importante do que publicar novas mensagens era actualizar e corrigir alguns dos textos que publicámos anteriormente. Isto porque era imperioso corrigir alguns erros de informação decorrentes, por um lado, de alguma (quase que indesculpável) ignorância da nossa parte e, por outro lado, decorrentes da falta de informação disponível acerca dos artistas que destacámos. Felizmente, quanto a este último ponto, conseguimos obter informação privilgiada junto de imprensa da época ou junto do meio artístico (incluíndo os próprios artistas), que nos foi muito útil para dar um carácter mais científico aos textos que vagarosamente escrevemos.
Assim procedemos à actualização dos textos referentes a Fernando Ribeiro, Isilda Maria, Maria Albina, Conjunto Zeca da Silva e Germano Rocha, esperando que o leitor possa colher alguma informação útil resultante do nosso esforço.
Infelizmente, os nossos muitos afazeres não nos têm permitido actualizar o nosso blogue tantas vezes como aquelas que desejávamos. Fica, no entanto, a promessa que este espaço não morrerá e que brevemente novos textos e descobertas serão públicados.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Johhny Rodrigues - Mariquinha

O artista que recuperámos recentemente do vácuo do desconhecido gozou de grande popularidade além fronteiras, embora o mesmo nunca tenha chegado a possuir verdadeiramente nacionalidade portuguesa, pese embora tenha nascido sobre a égide do colonialismo português em África, mais concretamente em Cabo Verde em 1951, então território integrante de Portugal Ultramarino.
Com recurso à wikipédia holandesa (e com a imprescindível ajuda de um tradutor) descobrimos a figura de Johhny, ou um mais que provável João Rodrigues, que após ter sido chamado pelo exército português para cumprir o serviço militar em Angola (de onde seria enviado para um verdadeiro cenário de guerra) fugiu para os Estados Unidos da América no inicio da década de 70 do século XX, sem que nessa altura tivesse tentado ainda qualquer investida na vida artística.
Na verdade, a incursão de Johhny Rodrigues pela vida artística, só viria a verificar-se, por mero acaso (como quase sempre), quando este se encontrava de férias na Holanda, país onde recebeu convite para gravar um disco, após ter trabalho como DJ em bares e discotecas. Aí, socorrendo-se das influências do nosso folclore, Johhny Rodrigues, apresenta-se em palco como "Johhny & Orquestra Rodrigues" (embora cantasse a solo!), gravando em 1975 a canção "Hey Mal Yo", que mais não é do que uma versão do popular tema do nosso cancioneiro "Ó malhão, malhão", tendo o seu single de estreia, com o mesmo nome, sido imediatamente n.º 1 nos Países Baixos e na Bélgica, permanecendo no topo daqueles países durante doze semanas.

Sendo um dos poucos cantores africanos a cantar folclore português, pouco tempo depois, grava o single "Mariquinha", o qual viria mais tarde a ser editado em Portugal pela Valentim de Carvalho, sob licença da EMI, um disco dividido musicalmente em dois momentos bem distintos: um lado A, no qual apela, mais uma vez, ao folclore português e um lado B, bem mais alegre, que transporta os ouvintes para bem junto das suas raízes africanas, através do tema "Tente".
Desconhecemos se "Mariquinha" teve algum sucesso no estrangeiro, embora tudo nos leva a crer que sim, atendendo ao facto de o disco ter sido lançado imediatamente a seguir ao seu single de estreia. Paradoxalmente, o percurso de Johhny Rodrigues foi tão efémero quanto tão rápida foi a sua ascensão aos charts internacionais e o seu desaparecimento do mundo do espectáculo, sendo o seu paradeiro actual para nós mais um mistério por desvendar.

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Clique no Play para ouvir um excerto dos temas

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Alberto Ramos - Beijinho Doce

Abordamos hoje um cançonetista que gozou de alguma popularidade em finais da década de 1950 e nos inícios da década de 60 e cujo percurso musical, à semelhança de outros tantos cançonetistas do seu tempo, se terá eclipsado de forma abrupta ainda durante a década de 60. A particularidade de Alberto Ramos é que, ao contrário da maioria dos outros cançonetistas, que ingressaram nos quadros da Emissora Nacional de forma espontânea (isto é, apresentando-se a provas perante um exigente júri) começou a cantar acidentalmente, quando se encontrava a cumprir o serviço militar no Funchal (onde nasceu, em 1930). Por mera coincidência, o comandante da sua companhia era o director da E.N. de S. Martinho (Funchal) que reparou que Alberto Ramos tinha boa voz, tendo-o de imediato convidado para cantar aos microfones da estação, ainda que na altura sem qualquer carácter profissional.
Desde esse momento até à gravação dos seus primeiros discos, tudo ocorreu num verdadeiro ápice para Alberto Ramos que acabaria por ficar livre do serviço militar ao fim de 3 meses, tendo rumado imediatamente para Lisboa, altura em que conheceu o radialista Igrejas Caeiro que, depois de uma audição logo o contratou, tendo iniciado a sua carreira como cançonetista no programa de Rádio Companheiros de Alegria. No dia 16.02.1958, estreou-se aos microfones da RTP, participando no programa "O senhor que se segue", tendo sido precisamente, aquando da sua primeira aparição na TV, que Jaime Filipe (engenheiro de som da RTP) lhe propôs a gravação de um contrato de 3 anos para a editora Alvorada.

No que diz respeito à discografia de Alberto Ramos podemos adiantar, com um elevado grau de probabilidade, que terá sido toda gravada para a etiqueta Alvorada, tendo-se estendido até 1962, num total de quatro Ep's em nome próprio (ou seja, mais um do que os propostos em 1958 por Jaime Filipe), ao que acresce ainda um outro repartido com a cançonetista Margarida Amaral, em homenagem ao Clube de Futebol os Belenenses.
Da sua discografia, destacamos do seu primeiro disco gravado em 1959, a canção "Beijinho Doce", com acompanhamento do Conjunto de Hélder Reis, cujos autores da letra e música desconhecemos, pelo facto de o label do disco não conter qualquer informação relativamente a essa canção (ao contrário das restantes 3 músicas que compõem o disco, cuja informação e créditos autoriais se encontra identificada). No entanto, por gostarmos tanto da capa do seu primeiro disco, não poderíamos deixar de escolher esta canção para apresentar Alberto Ramos às novas gerações.

Alberto Ramos, em 1961
Como já referimos no primeiro parágrafo desta mensagem, posteriormente à gravação do seu último disco, nada mais sabemos do percurso de Alberto Ramos, ainda que sobre nós tenham pairado recentes rumores, recolhidos junto de anteriores antigos vizinhos, que terá abandonado a vida de cançonetista para ser empresário no ramo das artes e do espectáculo. Ou teria voltado a ser comerciante, profissão que exerceu paralelamente até alcançar o sucesso, vendendo bordados da Madeira a bordo de navios em alto mar ? Não sabemos, pelo que apelamos a quem nos possa elucidar a sempre bem vinda colaboração.



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