sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eduardo Futre - Chuva vai, chuva vem

Apresentaremos hoje um nome totalmente obscuro da nossa música popular e cuja expressão discográfica foi praticamente nula. Falamos de Eduardo Futry, ou mais correctamente, Eduardo Futre, artista que atingiu grande popularidade há muitas décadas atrás, principalmente no período compreendido entre o final dos anos trinta e o ano de 1955 e cujo nome foi acidentalmente recuperado em finais dos anos 70, ainda a tempo da sua voz poder ficar registada numa gravação sonora.
O caso de Eduardo Futre não é, no entanto, caso único no universo musical português. Existiram muitos artistas que, não obstante a sua popularidade e consagração, não gravaram qualquer disco ou qualquer canção (Um dos casos mais flagrantes é a cançonetista Patrícia, que chegou a ser capa de revistas e ter largos espaços em revistas da época durante mais de duas décadas sem nunca ter gravado qualquer disco. E muitos outros exemplos poderíamos deixar aqui registados...). Naturalmente os tempos eram outros, não sendo demais relembrar os jovens leitores que gravar comercialmente dois lados de um disco de 78 rotações era um acontecimento muito raro para um artista português, não estranhando, aliás, que a maior parte das gravações de artistas portugueses eram efectuadas no estrangeiro.


Mas voltemos a Eduardo Futre, que se apresentava em palco acompanhado com uma viola negra que na altura ficou célebre, interpretando (um pouco ao jeito de Horacio Reynaldo) canções do folclore brasileiro, bem como alguns temas originais, imprimindo-lhe sempre com um cunho muito pessoal, ainda que sempre influenciado pelo folclore carioca.
Natural de Setúbal, Eduardo Futre começou a cantar com apenas 17 anos, numa sessão de fados no Solar da Alegria. Desde então a sua carreira não mais parou, tendo tido relativo sucesso na época, à semelhança de outros seus pares. Com efeito, Futre era também presença assídua nos Serões da F.N.A.T. e em alguns espectáculos de variedades da A.P.A, do qual chegou a ser artista privativo, tendo feito inúmeros duetos com a célebre cançonetista da época Maria do Carmo. Actuou ainda noutros espectáculos de variedades ao lado de artistas consagrados da época, como Tony de Matos, Maria José Valério, Eugénia Lima e Luis Piçarra, entre muitos outros.
Eduardo Futre, cerca de 1950
Contudo, conforme já referimos, Eduardo Futre nunca gravou comercialmente na época do seu apogeu enquanto intérprete e artista. Curioso é que, surpreendentemente e ao contrário do que se possa imaginar, Futre não gravou qualquer disco, não por dificuldades de logística, mas sim por ter recusado o cachet de 500$00 que, então lhe ofereciam, para ir gravar a Espanha (provavelmente para a Ibéria) alguns números do seu repertório. Na verdade, na altura, Eduardo Futre entendeu que tal cachet era desajustado face ao valor e popularidade que gozava na época. Sobre essa recusa, Futre viria muitos anos mais tarde a arrepender-se, conforme confessou numa entrevista publicada já na década de 70 numa revista de actualidades.
Paulatinamente, o nome de Eduardo Futre foi desaparecendo das escaparates do mundo do espectáculo, tendo também, à semelhança de muitos outros, saído da então Metrópele para o Ultramar, onde foi animador privativo num barco durante dois anos. Pouco tempo mais tarde,com o casamento e posterior fixação de residência em Lourenço Marques, reduziu drasticamente a sua actividade artística, empregando-se como mecânico, afinador de máquinas, entre outros empregos ocasionais. Porém, o abandono total da actividade artistica, foi algo que nunca se verificou plenamente, nem mesmo quando andou pelo estrangeiro até ao seu regresso a Portugal.
Foi aliás, em finais dos anos 70, que a Editora PortugalCantante, sabendo do seu regresso a Portugal, registou, aquelas que pensamos serem as únicas gravações em disco de Eduardo Futre, anunciando Futre como o regressado "cantor luso-brasileiro" (o que, conforme já referimos, não corresponde à verdade, pois Eduardo Futre é português).
Aquando da gravação do seu primeiro disco, por certo já ninguém conhecia ou se lembraria de Eduardo Futre, que um dia regressou a Portugal com a ilusão de que seu nome ainda perdurava na memória colectiva dos portugueses. Contudo, não terá sido, assim, cremos... O tempo dos espectáculos radiofónicos já havia passado e as grandes orquestras ao serviço da canção estavam então reduzidas a uma verdadeira manta de retalhos. Ainda assim, Eduardo Futre teve a ousadia de acreditar no relançamento da sua carreira, deixando para a história da música gravada as gravações que hoje deixamos aos nossos leitores.

video

Clique no Play para ouvir "Chuva vai, chuva vem" 
Eduardo Futre - "Cantor Luso-Brasileiro"
Portugalcantante PCEP-027
Lado A1 - Compadre tá tudo certo (Eduardo Futry)
Lado A2 - Dez anos (D.R.)
Lado B1 - Chuva vai, chuva vem (Eduardo Futry)
Lado B2 - Porteira, suba e diga (D.R.)

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