domingo, 25 de abril de 2010

Jorge Matias - Amarras


Apesar de o chamado canto de intervenção ter tido algumas das suas raízes na década de 40, com as famosas Canções heróicas de Lopes Graça, a expressão é maioritariamente reconhecida no âmbito da chamada canção de resistência de matriz muito objectiva e directa, despida de arranjos orquestrais, na qual se dava primazia a um só instrumento (normalmente a viola) e à voz do autor (geralmente um cantautor). Obviamente que definir assim a música de intervenção seria o mesmo que reconduzi-la a uma visão demasiado simplista dessa nova atitude musical, uma vez que música de intervenção não se reconduziu apenas ao aglomerar de meia dúzia de chamados baladeiros que apelavam ao fim da guerra colonial e ao fim do regime Salazarista. Bem pelo contrário; no universo da música de intervenção em Portugal no período pré 25 de Abril há também que destacar alguns cantores que, mesmo mantendo a distância e nunca se assumindo contra o regime, também permitiram que a sua voz fosse o veículo de mensagens intimamente conotadas com uma nova mudança que se pretendia instalar na sociedade portuguesa. Aliás, muitos cantores (uns mais conotados com o nacional-cançonetismo do que outros) cantaram textos manifestamente susceptíveis de censura caso os mesmos fossem cantados por outros artistas. Um dos exemplos mais flagrantes (e que nos vem a memória neste preciso momento) é o de João Maria Tudella que ainda antes da Primavera Marcelista, cantou o tema “Liberdade” com letra de Manuel Alegre num dos discos que lançou para o mercado em finais dos anos 60 sem que (aparentemente) a brigada dos lápis azuis reparasse em tal facto.
Outros exemplos concretos poderíamos dar em relação a outros artistas sobejamente conhecidos. No entanto, optamos por divulgar o nome de mais um artista desconhecido do panorama actual que, em 1973, já com Marcelo Caetano no poder, optou por recorrer a um registo pop rock para lançar para o mercado discográfico um single com letras de conteúdo manifestamente associado à canção de intervenção. Efectivamente com “Amarras” e “Quanto valho”, Jorge Matias, apela ao universo da musica ligeira revestida de modernidade pop rock e com arranjos orquestrais plenos para cantar os mesmos temas que os cantores exilados da geração de 70 cantavam em França. Um dos temas recorrentes era o dos presos políticos, muitos deles autênticos prisioneiros, que passaram dias, meses ou até anos na prisão por divergirem dos ideais do regime. Felizmente, muitos deles acabaram por ser libertados, ao contrário do prisioneiro que Jorge Matias retrata nesta canção, que farto das amarras que o atormentavam parece desistir da própria vida abrindo a sua própria cova na cela que o encarcerava.

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Clique no Play para ouvir um excerto de "Amarras"
Alvorada N-S-97-82

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