terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Portugal - Fado Tropical


Novamente invertemos o rumo do Bairro do Vinil, ao apresentarmos hoje uma composição pouco conhecida de um artista mundialmente famoso. Se é verdade que quando iniciámos este projecto nos propusemos a abordar artistas completamente desconhecidos da música (popular) portuguesa, não deixa de ser menos verdade que também deixámos em aberto a possibilidade de, aos poucos, irmos apresentando temas completamente desconhecidos de artistas portugueses já consagrados. Ao escolhermos para hoje um tema de Georges Moustaki, aliás “Giuseppe Mustacchi” corremos o risco de o leitor eventualmente pensar que o nosso espaço na internet está completamente desvirtuado pois, para além de Moustaki não ser português, é um artista consagrado há quase 6 décadas e conhecido mundialmente (embora, sejamos honestos, se hoje perguntarmos a alguém se conhece tão ilustre figura, a resposta provavelmente será negativa).
Contudo, a escolha de Moustaki não foi feita ao acaso pois este cantor francês (nascido no Egipto, filho de pais gregos) para além de ser um grande amante da cultura e da música de expressão portuguesa (principalmente da musica brasileira) durante muitos anos transportou para a sua música grandes causas, como a da libertação dos povos sujeitos às opressões de regimes ditatoriais e a “proclamação da boa hora permanente” (tal como canta numa das suas canções mais famosas). Não estranhou por isso que a Revolução de Abril, conhecida por Revolução dos Cravos, não lhe fosse indiferente, tendo lançado em 1974 um single dedicado à revolução de 25 de Abril de 1974, precisamente com o título de “Portugal (Fado Tropical)”.
Convém referir, antes de passarmos à musica propriamente dita, que Georges Moustaki desde o início dos anos 70, fazia constantes viagens ao Brasil, onde travou grandes amizades, nomeadamente com o escritor Jorge Amado, e com alguns nomes da canção brasileira, entre os quais Gilberto Gil, Elis Regina, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque da Holanda, entre outros. Aliás, foi a partir de uma canção deste último “Fado Tropical” (canção com declamação de poeta de Carlos do Carmo), que Moustaki transformou num enorme êxito a canção “Portugal“, num registo bem ao seu estilo, de arranjos perfecionistas, embora em segundo plano a favor do intimismo que a sua voz nos oferece.
Depois de ter colaborado e de ter escrito para ínumeros ícones da canção francesa, entre os quais Edith Piaf, Henri Salvador ou Yves Montand, depois de ter visto as suas canções versionadas por outros tantos (sendo o mais recorrente o cantor Serge Reggiani) e de ter contado com a ajuda do grande Astor Piazzolla em alguns dos arranjos das suas canções, Moustaki permanece ainda, aos 76 anos em perfeita actividade, tendo visitado o nosso país em 2008, onde ofereceu dois concertos ao público português e no qual, mais uma vez, voltou a cantar em português alguns versos da canção “Portugal”, tal como antes o fizera em disco.
Para além de todo o interesse da letra da canção que transcrevemos, escolhemos também hoje esta canção pelo facto de Georges Moustaki ter cantado meia dúzia de versos da sua letra em português (embora manifestamente abrasileirado, devido às suas longas estadias no Brasil, uma das suas segundas pátrias) e também pela elucidativa capa do disco, representando um cravo vermelho, com todo o simbolismo a ele associado.
Moustaki não foi o único músico estrangeiro a dedicar canções a Portugal e, neste caso concreto, à revolução portuguesa. Por hoje apresentamos este artista, ficando prometido que, mais tarde ou mais cedo, nova abordagem sobre este tipo de registos musicais será por nós feita. Para finalizar, não podemos deixar de salientar o registo do lado B deste single, simplesmente soberbo, com uma das mais belas canções de Moustaki : "Chanson pour elle (elle ne fait pas l' amour, elle ame)".


Oh muse ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal

On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli

Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles

Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial


Clique no Play para ouvir um excerto da canção


3 comentários:

RaquelRuiz disse...

Obrigada por postar sobre o Moustaki, eu já o conhecia por conta da Piaf, mas tinha certas restrições a ele justamente pela relação conturbada com ela. E descobrir essa versão para uma música que eu tanto amo foi uma surpresa. Essa música foi escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra em 1972-73 para um musical chamado Calabar.
A prova está num livro lançado em 2009 que se chama "Chico Buarque: História das canções" de Wagner Homem. O livro traz curiosidades e o contexto de várias das músicas compostas pelo Chico. Vou escolher alguns excertos sobre essa canção e a peça que lhe deu origem.
Calabar - o elogio da traição foi escrito no finalo de 1972, em parceria com Ruy Guerra e dirigido por Fernando Peixoto. Ele se propunha a discutir a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que o mulato tomou partido ao lado dos invasores holandeses contra a coroa portuguesa, e por isso foi condenado a morte como traidor. Claramente, havia um paralelo com a figura do capitão Carlos Lamarca que em janeiro de 1969, numa ação audaciosa, deixou o exército para integrar-se à guerrilha, levando consigo armas e munição."
è nesse espírito que a peça se desenrola e aparece "Fado Tropical" com a seguinte letra:

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
(A título de explicação: o golpe militar no Brasil aconteceu em 31 de março. logo, no primeiro de abril a pátria estaria consternada. Portanto não teria num primeiro momento a ver com a Revolução dos Cravos)
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...

Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
è que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no claro da luta Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito de desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasminas, coqueiros fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial"

Continuando o trecho do livro:
"Em 1973 a comparação entre Brasil e Portugal, que ainda vivia sobre o regime fascista de Marcelo Caetano, foi tida como ofensa aos dois países. Com a Revolução dos Cravos, que em abril de 1975 depôs a ditadura portuguesa, ganhou uma conotação subversiva e ameaçadora para o regime militar que ainda vigorava por aqui."

Logo, a música é realmente do Chico e ainda não tinha relação com a Revolução dos Cravos que ainda não acontecera, logo Chico faria outra música, esta sim sobre tal Revolução, esta se chama "Tanto Mar", com duas versões, uma de 1975 louvando a Revolução dos Cravos e uma de 1978 onde ele mostra a frustação que esta lhe proporcionou. Não vou pôr aqui as duas versões, caso tenha interesse me responda.

Vou porém colocar um link para o vídeo de Fado Tropical, para o filme "Fados", de Carlos Saura.

http://www.youtube.com/watch?v=HiN5AqGaSM8

RaquelRuiz disse...

Ah, Já que você cita no texto que o Moustaki foi amigo de Chico Buarque, deve ter pedido para fazer uma versão sobre a sua música e aí sim já com a conotação da Revolução dos Cravos. Fantástico!

Letícia Uesugi disse...

Muito, mas muito obrigada mesmo por colocar esta letra em seu site. Estou aprendendo francês e gosto muitíssimo de Chico Buarque. Então fica mais fácil aprender cantando as músicas que já gosto dele. Infelizmente, são poucos os sites na internet que contém suas letras traduzidas ou mesmo versões (como esta de Moustaki). Foi muito legal também descobrir sobre este músico, tão importante quanto o próprio Chico! Novamente, obrigada!