segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Maria de Pádua - Dobadoira / S. João das Orvalhadas

Apesar do mediatismo (e algum vedetismo) proporcionado pela imprensa social da época a alguns cançonetistas, nomeadamente a partir da criação do Centro de Preparação de Artistas de Rádio da Emissora Nacional, a grande verdade é que eram poucos aqueles que se dedicavam exclusivamente à vida artística, dela retirando o seu sustento. A grande maioria, mais não eram do que artistas amadores que em determinado momento gozaram de alguma popularidade, através de esporádicas aparições em programas de rádio e em alguns Serões para Trabalhadores e que rapidamente se desvaneciam no anonimato.
Como é fácil de compreender, tais artistas raras as vezes conseguiam conciliar a sua vida profissional com a vida artística. Os homens viam-na ser interrompida (muitas vezes para sempre) pela obrigatoriedade do cumprimento do serviço militar. No que às mulheres diz respeito, a vida artística, na maior parte dos casos, não passava de uma mera experiência de meninas que precedia a devoção à vida do lar antes do anunciado  fim do percurso artístico. Aliás, o casamento foi mesmo umas principais razões para que muitas artistas da Emissora Nacional tivessem abandonado ou optado por um rumo diferente e mais reservado na sua carreira. Dois exemplos supremos são, sem dúvida alguma, Maria de Fátima Bravo (cuja voz se imortalizou na canção “Vocês sabem lá”) e Júlia Barroso (uma das primeiras vedetas da rádio e a primeira rainha da Rádio, eleita pelos leitores da popular revista Flama) que muito cedo abdicaram das suas carreiras em favor do casamento. Outros exemplos poderíamos deixar aqui, mas reservaremos os outros para uma próxima mensagem, uma vez que a que temos em mente para hoje tem por objecto uma outra temática.


Conforme referimos, também houve casos em que nomes mais ou menos conhecidos da nossa rádio conseguiram conciliar a sua vida profissional com a vida artística, mantendo a estabilidade dos seus empregos ao mesmo tempo que seguiam cantando e gravando discos. Dois desses exemplos são Maria de Pádua e Almerinda Stella, as quais partilhavam ainda uma interessante coincidência: ambas eram funcionárias dos Correios e ambas gravaram vários discos, seja em formato 78 rpm, seja mais tarde em formato 45 rpm. Se relativamente a Almerinda Stella obtivemos já a informação de que faleceu recentemente, o mesmo já não poderemos dizer sobre Maria de Pádua, cujo paradeiro e informações biográficas continuam a ser um mistério, dada a quase ausência de registos escritos na imprensa da época sobre tal artista. Nem mesmo, através do contacto com alguns artistas da década de 40 e 50 lográmos obter qualquer informação sobre o paradeiro de Maria de Pádua.
Ainda assim, recolhemos algumas informações que partilhamos com os leitores mais interessados na esperança de obtermos um retorno de informações sobre esta artista que há cerca de 60 anos atrás gozou de alguma popularidade.
Maria de Pádua, à saída dos Correios em 1954.

Maria de Pádua estreou-se na Emissora Nacional, muito provavelmente em Novembro de 1951 no programa "Passatempo", tendo (já depois de tirar a carteira profissional no ano seguinte) continuado a vida artística até pelo menos 1954, altura em que (numa entrevista) confessara já estar desiludida com a vida artística, devido à falta de oportunidades. Contudo, nessa mesma entrevista, simultaneamente manifestava o seu desejo em “triunfar custasse o que custasse, para depois se retirar com satisfação de ter provado que possuía algum valor“. Ou seja, pelo que podemos perceber com tal afirmação, era bem provável que por essa altura o fim da carreira artística e discográfica de Maria de Pádua estivesse a atingir o seu limite, não sendo alheio o facto de não se lhe conhecer nenhuma nova gravação para o catálogo Alvorada durante toda a restante década de 50, senão a recuperação de números antigos anteriormente gravados em 78 rpm para a etiqueta Melodia (Dobadoira e Orvalhadas de S. João) mais tarde incluídos num EP daquela editora lançado para o mercado em 1959, juntamente com outras duas interpretações de Maria Amélia Canossa e do Conjunto de João Aleixo.
Facto digno de registo é que Maria de Pádua cantava também em francês e em italiano, tendo ainda no seu repertório números regionais, género do qual terá sido uma das primeiras intérpretes. Não obstante tal mediatismo, Maria de Pádua, sempre teve oposição da família quanto à sua intenção de prosseguir com a vida artística, sendo para nós uma incógnita qual o rumo que a sua carreira tomou após 1954. Terá abandonado por vontade própria, descontente com o panorama musical da época, face à emergência das primeiras vedetas da canção ? Terá casado ? Terá emigrado para África na companhia de um suposto marido ? Seria o nome de Mária de Pádua um nome meramente artístico, face à abundância de “Marias” na Emissora Nacional ? Não sabemos. Apenas sabemos que era funcionária dos CTT, conforme já referimos anteriormente, exercendo o seu posto na Praça dos Restauradores, em Lisboa. A respeito dos CTT não deixa de ser curioso também que também nesse ano, foi gravado ainda para a mesma editora um disco do Coral dos CTT. Teria Maria de Pádua pertencido ao Coral dos CTT ? No referido disco, como era hábito na altura, a ausência de informação era a regra geral e, para não fugir à regra nenhuma referência à composição do coro encontramos no referido disco, pelo que também essa pista pouco nos ajudará de futuro. Resta-nos, mais uma vez e como já vem sendo hábito, aguardar que algum leitor nos ajude a encontrar o paradeiro desta artista, cujos excertos de duas canções aqui deixamos aos nossos leitores.

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Clique no Play para ouvir um excerto de "Dobadoira" e  "S. João das Orvalhadas"

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